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Notas sobre a Copa

Primo Philippe está com tudo. Marcou o primeiro e o segundo da seleção na Rússia. Como diria meu pai, dois Coutinho é biscoutinho. Família sacudida. É Maju na previsão do tempo, Laerte no cartum… No surfe somos um clã: Luana, Lapo, Elsior Lapo, Ordilei.

Acordei cedo e espremi dois quilos de laranja da Bahia, aquela do umbiguinho de fora, como o Braguinha cantou saudando a garota da comuna de Saint-Tropez. Sem dúvida é a melhor laranja. Bebemos, minha Neguinha e eu, como na lua de mel em Portugal, misturado com um bruto, ou brut, como dizem na França. A mistura se chama “mimosa” e é perfeita para o café da manhã.

Neymar Jr. marcou mas não convenceu. Mete vergonha no Brasil. Mas nem tanto. Quando ele tentou cavar o pênalti e o árbitro deu, a torcida comemorou. Farsa desfeita pelo VAR, pude ouvir protestos na vizinhança e ver a decepção da arquibancada. Isso diz muito sobre a brava gente brasileira. Lamentável. Definitivamente os representantes que estão em Brasília são o extrato fiel da Nação.

Nas redes sociais, naturalmente sobra gozação. Mas nenhum meme foi mais falado do que o vídeo da b. rosa. A gente precisa parar com esse tipo de brincadeira. Igual a qualquer processo de mudança cultural, será demorado, mas é fundamental. E aqui faço autocrítica: achei graça nos memes que surgiram a partir do caso. Quer dizer, isso está em mim. E, se não tivesse nascido com a sorte de detestar andar em bando, quem garante que eu não faria a mesma coisa que aqueles infelizes? Já dizia o Nelson Rodrigues que a torcida é uma massa, tem espírito próprio e anula o indivíduo. À menina russa, minha solidariedade e a esperança de que o constrangimento pelo qual ela passou sirva para fazer a humanidade pensar.

Copa do mundo é um evento de globalização, assim como Fórmula 1 e jogos olímpicos. Elites convivendo em harmonia transnacional sob regras comuns, para mostrar a toda gente que é possível. De novo, eu sei, demora, mas é inegável que avançamos.

As fotos oficiais das seleções provam. Fora casos extremos como Argentina e Japão, a maior parte das demais delegações são etnicamente plurais: França, Rússia, Áustria, Marrocos, Nigéria, Kuwait, Croácia, Inglaterra, Alemanha, Portugal, Suécia. Estou até pensando em fazer um álbum para comemorar. E os Estados Unidos não terem se classificado mas ganharem a sede de 2026 em conjunto com México e Canadá foi uma bola linda nas costas do abjeto Donald Trump. Tem força para derrubar muro.

 
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Doutor Sérgio Moro, quem Vossa Excelência pensa que é?

O antropólogo Roberto da Matta foi superado pelo juiz Sérgio Moro.

Da Matta anotou há alguns anos a diferença entre a autoridade no Brasil e nos Estados Unidos usando duas frases populares. Enquanto aqui usamos o “sabe com quem está falando?”, lá é mais comum o “quem você pensa que é?”.

Moro, que embasou a operação Lava Jato na delação premiada, norma importada dos Estados Unidos, tropicalizou o dispositivo dispensando que o prêmio do delator seja umbilicalmente ligado à apresentação de provas. De quebra, no último dois de abril, proibiu que outros órgãos de Estado usem informações colhidas pela operação e ainda condicionou à sua autorização o prosseguimento de medidas que já tenham sido tomadas contra delatores se baseadas em documentos da Lava Jato. A rigor, mostrou na prática o exemplo do antropólogo.

Cabe perguntar ao meritíssimo: quem Vossa Excelência pensa que é?

+Pessoa no xadrez

Difícil discordar do juiz Moro quando diz ele diz que “Há uma questão óbvia, a necessidade de estabelecer alguma proteção para acusados colaboradores ou empresas lenientes contra sanções de órgãos administrativos, o que poderia colocar em risco os próprios acordos e igualmente futuros acordos”. (Porque é óbvio que, podendo, governantes vão utilizar confissões para retaliar quem os delatou.)

Porém o despacho se transforma em peça sofista quando a tese sequer alcança a antítese, que seria exigir dos delatores as provas que rendem os prêmios. Ao contrário do que propõe Moro, o maior risco para os acordos celebrados ou  pretendidos pela Lava Jato e outras operações é dispensar a verdade e arruinar o próprio Estado de direito.

Só nos últimos dias, por falta de provas, o Supremo arquivou ou absolveu Aloysio Nunes Ferreira, Gleisi Hoffmann e Paulo Bernardo. Mas os delatores continuam com seus prêmios, cumprindo penas brandas, em casa e com (muito) dinheiro no bolso.

Para afastar o risco de vermos a chamada República de Curitiba transformada em ditadura curitibana, insisto na pergunta: doutor Sérgio Moro, quem Vossa Excelência pensa que é?

 
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Em tempos de Lava-Jato, voltamos a lavar carros e calçadas

Ninguém sabia que era de caqui aquele pé no meu caminho da roça. Por décadas foi só mais uma árvore na calçada, querida como toda árvore na calçada, porém não sabida.

Era como aquele amigo pagão e infalível da calçada do botequim. Haja o que houver, lá estará ele, no fim da tarde, com uma cerveja e um sorriso, pronto para qualquer prosa, das amenidades às confissões. Ele é parte da sua vida mas não tem nome. Nem precisa.

Até que um dia ele falta e você vai descobrir com o garçom seu nome, suas proezas e o horário da missa. Sem intimidade com a viúva e receoso de enfrentar aquele olhar “esse vagabundo que desgraçou meu marido”, para o qual só o Zé do Pé tinha peito, você vai à igreja mas não fica para os cumprimentos. Procura a cumplicidade com a turma do fundão, ora nos últimos bancos, ora nas galerias laterais, alguns fumando na praça, e percebe que haverá encontro de intenções lá na calçada do boteco – com uma vantagem: o taberneiro topa pendurar a espórtula.

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+ Burrice humana e inteligência artificial

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Mas o que eu queria dizer é que este ano o caquizeiro se identificou. Calma, ele continua vivo, na Lorena, pouco depois da esquina com a Eugênio de Lima. Não virou estatística como tantas árvores que tombaram desgraçadas nos últimos anos em São Paulo. Ocorre que, quem entende do assunto, diz que ele se identificou por medo de desaparecer.

Em 2014, a repórter Fernanda Mena voltava da licença maternidade e se interessou pela exuberante florada dos ipês-rosa. É natural que aqueles móbiles fantásticos, com bolas cor-de-rosa enfeitando a cidade, prendessem a atenção de quem passara boa parte dos últimos meses tendo por universo um quarto de bebê, célula tão repleta de presente e que ainda arranja por onde nos fazer pensar no futuro.

E lá foi ela à faina descobrir que a beleza mais intensa dos ipês-rosa era um grito de socorro causado pelo chamado “estresse hídrico”. Ouviu do José Ricardo Ribeiro Hoffmann, engenheiro agrônomo do Viveiro Manequinho Lopes que, sem chuva, a planta acha que pode morrer e canaliza toda sua energia para se reproduzir, aumentando as chances de preservação da espécie. Flores, sabemos, são os órgãos reprodutores das plantas.

Fernanda também ouviu a professora de botânica da USP e especialista em ipês Lúcia Garcez Lohmann explicar que o pouco que se sabe sobre os ipês é baseado em observação, e que esta indica que eles florescem mais com o tempo seco e dias longos.

Guardo a matéria com carinho e apreensão. Nos últimos tempos, além do caquizeiro, encontrei uma jaqueira carregada na mesma alameda Lorena, e é improvável que dezenas de jacas penduradas sobre o meu caminho da vida toda tenham passado despercebidas em ocorrência anterior.

Além de jacas e caquis vi inéditas mexericas, limões, uma profusão de romãs, mangas e abacates, pitangueiras, amoreiras e goiabeiras dando mais do que o costume. E para não dizer que não falei das flores, ruas amarelas com tantas pétalas de sibipiruna, quaresmeiras desfilando até depois da Páscoa e todas as cores de ipê se revezando com impressionante precisão matemática. Um branco, raríssimo, ali na Groenlândia com a rua Primavera, estava de parar o trânsito, literalmente.

Como a própria Fernanda lembrou num post recente nas redes sociais, em 2015 o termo “volume morto” veio nos assombrar. E tudo, ou pelo menos a minha observação cotidiana, me leva a pesadelos parecidos com o Thriller do Michael Jackson, com o volume morto ressurgindo das catacumbas.

Se flores e frutas e os meus pesadelos não bastam, anote: 2018 teve o maio mais seco dos últimos 57 anos, os reservatórios do Sistema Cantareira já operam em níveis mais baixos do que os de 2013 (no último dia dos namorados estava com 45,7% e no 12 de junho de 2013 tinha 58,1%) e a vazão, que é quantidade de água que entra no sistema, está aquém da média há mais de um ano e meio. A Sabesp diz que as obras realizadas para combater a última seca vão garantir água na torneira até o fim de 2019. Mas não diz que é urgente economizar.

Ninguém há de negar que a gente fez muita bobagem durante do século XX. Paciência. Inês é morta. Mas impressiona ver que o volume morto não tenha ensinado nada. Em tempos de lava-jato, voltamos a lavar carros e as calçadas, prefeitura e governo do estado apostam em asfalto como ativo eleitoral, a estrutura de saneamento básico segue negligenciada e o indivíduo, diante deste quadro, puxa água para sua sardinha: vistas do alto, as concentrações urbanas parecem sofrer de uma brotoeja azul, todas sapecadas de caixas d’água. Quanto haverá de água parada pendendo feito jacas sobre as nossas cabeças?

Léo Coutinho, escritor e jornalista, é consultor político e estudante de Filosofia na Universidade Presbiteriana Mackenzie

 
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Elogio aos velhos

Ótimo papo do Boni com o José Nêumanne no Estadão. Destaco alguns pontos:

“Perguntei ao dr. Ulysses se o trabalho estava indo bem. Ele me respondeu, literalmente: ‘O Brasil é o país da demanda. Todos querem puxar a brasa para sua sardinha. Chegar a um acordo é um desespero.’”

“A tomada de posição de um veículo é um direito, quase um dever.”

“Uma única coisa é certa: os grandes produtores de conteúdo sobreviverão.”

“Sou um sonhador por natureza e teimoso por deformação profissional.”

“Nenhum projeto sólido e confiável foi apresentado por qualquer candidato. Pelo que ouço nas ruas, a população está descrente e sem motivação para votar. Parece estar adivinhando que vamos continuar trancados e sem saída.”

Só discordo de quando ele diz que “eleição repetitiva dos mesmos políticos” é um dos três grandes problemas do Brasil. Acho o doutor Ulysses me dá razão. E que tanto o Boni e o Nêumanne provam que ter gente experimentada funcionando ajuda muito.

+ Senhores e escravos

Na Folha do 17 de junho o repórter Marco Augusto Gonçalves trouxe uma entrevista com uma dupla de pesquisadores brasileiros, Eduardo Cavaliere, 23, e Otavio Miranda, 24, o primeiro graduado em direito com concentração em matemática pela FGV do Rio e o segundo membro da área de economia política no Instituto Chongyang de Estudos Financeiros. Eles provam com números que o discurso de renovação política em voga está errado.

Escrevi aqui sobre três grupos que se valem dessa narrativa falsa, e que na verdade não buscam outra coisa se não a ocupação do espaço vazio no entorno ou no cerne da vida pública. Esta freguesia pode escolher o meu palpite, a pesquisa científica do Cavaliere e do Miranda ou, melhor ainda, ambos. Deles, pincei este trecho: “Em 2014, 53% dos deputados federais brasileiros foram reeleitos, enquanto que 95% dos congressistas americanos, 90% dos britânicos, 88% dos espanhóis, 80% dos australianos e 72% dos canadenses se reelegeram. A baixíssima renovação em cada um desses países é razão de atraso ou ausência de progresso nacional? Improvável.”

 

 
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O Brasil é uma granja

No dia da abertura da copa, a comissão de ética da Presidência da República decide que Pedro Parente não precisa cumprir quarentena para assumir a direção da BrF depois de ter presidido a Petrobrás. O “mercado”, invés de ficar escandalizado, comemora, e as ações do frigorífico sobem. Vergonha. E ainda criticam o que chamam de “classe política”. Renova Brasil #sqn

 

 
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Hoje teve aula na escolinha do Jorge Paulo

Henrique Meirelles foi o entrevistado do Roda Viva na última segunda-feira. Data pior seria difícil. Além do encontro na ilha de Sentosa, que absorveu toda a atenção do mundo, era véspera do dia dos namorados no Brasil, quando as fotos e declarações dos casais enamorados se tornam onipresentes nas redes sociais.

Parênteses: escrevi aqui há alguns anos que amor de gente feia era igual festa de orçamento baixo. Quer dizer, para quem olha parece feio, mas quem participa sempre parece mais contente. E o inverso é verdadeiro: nada mais frio do que as fotos posadas dos casais lindos e das festas instagramáveis.

De volta ao Meirelles, não dá para dizer se a assessoria acertou no que não viu quando escolhei a data-moita. A entrevista foi de uma monotonia de sauna fria. Os jornalistas só faltaram bocejar.

+Aspectos da paralisação – Economia

Obviamente o pré-candidato-banqueiro não tem condições eleitorais. Mas seu discurso é baseado em experiência administrativa e merece integrar um debate sério, urgente para todos nós. E politicamente a coerência liberal merece destaque: liberal na economia, sobre os costumes ele se mantém no mesmo campo quando afirma, sobre o consumo de drogas, que se trata de questão pertinente ao indivíduo. Oxalá tenha feito corar o João Amoedo, ou outro pré-candidato-banqueiro e dono do partido Novo, ou Flavio Rocha de não se qual partido, que propõem o famigerado “sou liberal na economia e conservador nos costumes”.

Sigo na minha luta para escancarar esse liberalismo de conveniência. Ou liberalismo de Estado, tão comum no Brasil.

Ao meu lado estão os grandes bilionários brasileiros, ainda aplaudidos por onze entre dez wannaBis tupiniquins. A Ambev, cujos sócios são três dos seis caras que têm na poupança o mesmo dinheiro que os cem milhões de brasileiros mais pobres, só faz me ajudar.

++ Um brinde à Estácio ou a escolinha do professor Lemann

Hoje abri o Estadão e lá estão os mosqueteiros do Sonho Grande, o 3G Capital, salve, salve, ameaçando o Governo Federal com milhares de demissões caso a medida que reduziu os incentivos para a fabricação de xarope de refrigerante na Zona Franca de Manaus não seja revogada. (Previ aqui.)

Curiosamente 1: a turminha do liberalismo de conveniência, devota da escolinha do professor Jorge Paulo, deu piti nas redes quando se falou em subsídio para o diesel dos caminhoneiros – piti este que não os impediu de abastecer o Land Rover sete lugares (tem que caber as babás), descer a Serra rumo à Baleia e, de quebra, postar no instagram que o final de semana com as praias ermas e livres de pobres mortais estava “top” ou “incrível”.

Curiosamente 2: já deu tempo de todo mundo ler o Estadão e até agora nem um pio sobre as ameaças da Ambev, Coca-Cola e Pepsi em retalhar seus empregados caso suas tetas não sejam restabelecidas.

Curiosamente 3: segundo a OMS a obesidade é a segunda causa de mortes no mundo e por isso já é considerada epidemia. Doenças associadas a ela custam fortunas ao sistema de Saúde, primeira preocupação dos brasileiros em qualquer pesquisa. E obviamente o consumo de refrigerantes, que são basicamente água e açúcar, tem grande parte da culpa. Quer dizer: oneram as contas do país, ajudam a matar uma porção de gente e ainda pretendem receber incentivos (aproximadamente R$ 7 bi/ano) para continuar.

Muito bem, Jorge Paulo. Você está de parabéns.

Camaradas liberais, vamos juntos! Ergam o punho e gritem comigo: #LeseferPraValer.

 
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Trump, Kim e as fissuras

Donald Trump e Kim Jong-un se encontraram ontem na ilha de Sentosa, antiga Ilha do Morte. Conforme artigo da Economist traduzido pelo Estadão, Sentosa é um termo malaio que significa paz e tranquilidade. Mas até 1972 a ilha tinha outro nome “Pulau Blakang Mati”, ou “Ilha da Morte”.

Do encontro ambos saíram com um entendimento que merece ser celebrado como vitória pela humanidade. Não que os termos assinados valham alguma coisa e muito menos signifique esperança – tanto um quanto outro não prezam acordos institucionais. Mesmo assim, devemos celebrar o fato do jantar ter acabado sem malcriações de parte a parte. A chance de descambar para agressões verbais e até físicas me parecia alta. Ufa.

Para o futuro, o que receio é o fortalecimento do discurso anti-civilização. O atropelo dos ritos diplomáticos é assustador. Não deu errado dessa vez, mas pela força da imagem pode virar prática comum acabar mal.

Conversei com amigos que gostam do Trump, com amigos que desgostam e com moderados. As opiniões sobre quem estava mais à vontade variam muito. Na minha, era o Kim. Mas tanto faz.

Minha aflição, insisto, vem dos aplausos à sem cerimônia que marcou a preparação do convescote. A rigor, poderiam dispensar a foto “histórica” e fazer tudo pelas redes sociais.

À esta aflição somo o maniqueísmo dos que atacam a Coreia do Norte por ser uma ditadura sem lembrar que Cingapura não é uma democracia.

Com trocadilho, morro do medo de fissuras. São elas que levam barcos a pique, sejam canoas ou transatlânticos.

 
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Campeonato brasileiro será decidido entre Gaviões e Mancha Verde?

O campeonato brasileiro caminha para ser definido por Gaviões contra Mancha Verde em batalha campal – ou pelo menos assim parece a quem observa o desenrolar do noticiário.

Metáforas futebolísticas sempre servem bem ao cenário político. E quem hoje olha o campeonato eleitoral tem a sensação de que o caneco será de uma das torcidas organizadas.

O Datafolha de ontem veio tão igual aos anteriores que a própria cobertura da Folha de São Paulo teve que se adaptar. No lugar dos gráficos, destaque para análises.

A minha é a seguinte: o eleitor moderado não quer saber da pancadaria na porta do estádio, desconfia da cartolagem e prefere ver de casa. Nem berrar “chupa” na janela ele vai. O que resta, nas ruas e nas redes, é Gaviões versus Mancha Verde. Ou antes, Pavilhão 9 X Mancha Verde.

Glossário:
Porta do estádio: redes sociais e manifestações;
Cartolagem: partidos e políticos profissionais (estabilishment, realpolitik);
Chupa: bater panela (venderam para comprar feijão?);
Pavilhão 9: Lula;
Mancha Verde (Torcida mais violenta): Bolsonaro.

Grande parte do eleitorado moderado foi tomado pela apatia (anotei os sintomas aqui há seis meses 17/12/17) e não quer se expor à pancadaria. De pronto, praticamente ¼ (23%) dos pesquisados declararam que devem votar branco ou nulo em outubro. Em junho de 2014 eram apenas 8%.

Ocorre que, como é sabido, o jogo é definido em campo e a estrutura dos times maiores conta. Assim como conta a cartolagem, o patrocinador (financiamento), como será o jogo “em casa” (popularidade dos candidatos e coligações nos redutos eleitorais) e, dizem, até a arbitragem e a cobertura da imprensa. Fora as possibilidades de doping (fakenews e outras fraudes, que ganharam força hoje com a perda do prazo para lei de proteção de dados).

+ Senhores e escravos

Daí que, com o rolar da bola, o cenário eleitoral pode mudar de uma hora para outra lá nas semifinais. Mais: a probabilidade da apatia ser confrontada com o senso de responsabilidade e tirar o sujeito do sofá na repescagem (segundo-tuno) existe – no Chile foi assim.

Eis o perigo. Torcidas apaixonadas são tão fiéis às suas vontades que digerem mal esses resultados. Não raro, rola um quebra-quebra. Eleitoralmente falando, sobra quem desconfie do sistema político-eleitoral, diga juiz ladrão, imprensa tendenciosa, pesquisa fajuta, urna viciada.

Se você está confusa hoje, freguesa, não perca por esperar outubro – se houver.

 
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Pessoa no xadrez

O ministro Celso de Mello, decano do STF, arquivou o inquérito sobre caixa dois e lavagem de dinheiro envolvendo o chanceler Aloysio Nunes Ferreira, que segundo a delação do empreiteiro Ricardo Pessoa, da UTC, teria recebido R$ 500 mil em doação para a campanha vitoriosa ao Senado em 2010, sendo 3/5 por dentro, declarados, e 2/5 por fora, em espécie, não contabilizados.

O arquivamento atendeu o pedido da Procuradoria-Geral da República, que depois de dois anos e oito meses de investigação, com todas as diligências requeridas pelo Ministério Público Federal cumpridas, concluiu falta de provas para justificar o prosseguimento da investigação.

+ Olacyr, Pessoa e o clube das empreiteiras

Condenado a oito anos e dois meses de xadrez pela Lava Jato, por corrupção e pertinência à organização criminosa, Pessoa foi premiado pelo acordo de delação e cumpre pena diferenciada, em regime aberto, estando impedido de viajar ao exterior, mudar de endereço ou se ausentar por mais de quinze dias sem autorização da Justiça.

Ocorre que no instituto da delação premiada a regra é clara: mentiu, dançou. Escreveu não leu, delação perdeu. Isto é, prêmio cancelado. Resta saber quando a força-tarefa do MPF vai mandar guardar o mentiroso. Aguardando.

 
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Entre laços e nós

Curioso artigo da economista Zeina Latif em 7/6 no Estadão. A falta de compreensão social salta aos olhos.

Ela critica, com razão, o populismo, as bravatas, falhas de comunicação, ocaso do sentimento de representatividade, privilégios a grupos de interesse e o perigo da criação de vilões a serem combatidos, emendando a importância da transparência, compromisso público e participação. Mas o faz justamente apontando o dedo contra o universo político, que elege como vilão.

+ Senhores e escravos

Ganharíamos todos com uma autocrítica da a economista-chefe da XP Investimentos. Tendo capacidade financeira para investir em pesquisas sérias, a XP encomenda e divulga pesquisas eleitorais feitas a partir de quinhentos telefonemas para todo Brasil. A mesma XP luta pela associação com o Itaú-Unibanco, que por sua vez anunciou na quinta-feira que vai brigar na justiça contra o pagamento de R$ 2,7 bi em impostos devidos à União, sendo que no dia 10 de abril de 2017 foi perdoado do pagamento de R$ 25 bi em impostos pelo processo de fusão.

Intitulado “Laços com a sociedade”, o artigo de Latif se encerra afirmando que a sociedade clama por participação. De novo, ela tem razão. Só faltou lembrar que carecemos de laços em todos os setores, notadamente o financeiro, que tem presença garantida nos pódios da insatisfação. Numa consulta rápida ao site do Procon a economista poderia ver o tamanho do nó que há no seu quintal, e talvez se comprometesse a ajudar a desata-lo.

 
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