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Caravana Tio Patinhas

Com 54 anos de história, a Lanchonete Tio Patinhas, em Presidente Prudente, oeste paulista, tem autorização para receber clientes sentados a partir da segunda-feira primeiro de junho.

Prudente, junto com Bauru, Barretos e Central (Araraquara e São Carlos) é uma das quatro regiões paulistas que estão na faixa três da “quarentena inteligente” do governo Doria, que permite o serviço de bares e restaurantes no local.

Mas não vão achando que liberou geral. Inventaram umas regras. Por exemplo: mesas espaçadas, tirar a temperatura da freguesia na entrada e prazo para a saída. Sim, a “água no pé” rolando várias vezes ao dia.

Elegante, o gerente da Tio Patinhas, Carlos Moreno, 57, disse à Folha de S. Paulo que isso de tempo máximo de permanência está fora dos planos da lanchonete, porque “soaria indelicado”. Mas cogita o termômetro como medida de proteção para a brigada e freguesia. Faço ideia das piadas que virão se isso acontecer.

Tenho algo de romântico, e a abertura de um bar antigo numa cidade querida me deu gatilho, como dizem no tuíter. Fui ao WhatsApp comentar com os bêbados. E a club soda ferveu.

De pronto surgiu um com a cotação de uma van para levar a turma. Calcularam que, deixando a capital entre seis e sete horas da manhã, ao meio-dia poderíamos mergulhar nas preciosidades douradas da caixa-forte do oeste.

Outro propôs que, para não perder tempo, deveríamos abastecer a van com um farnel de paramounts e também uns papagaios para evitar parada.

Esclarecimentos: paramount é o apelido dado pelo saudoso Ciso Marques da Costa para os coquetéis matutinos, aqueles de parar a mão: Blood-Mary, Mimosa, Bellini, Caracu com ovo, Screwdriver. E o papagaio ave não tem nada com o pato Patinhas. Entendedores entenderão.

O segundo orçamento – a turma é prudente, não tem ninguém à toa – veio de um amigo do audiovisual. Segundo ele, nas vans que operam para o setor pode-se fumar a bordo. Venceu a licitação por maioria absoluta sem necessidade de abrir os envelopes.

A conversa de botequim não parou até agora. Muitos foram tentar descobrir se na Tio Patinhas tem chope. Não que sejam fãs, mas estão com saudades. Outros se lembraram das personalidades prudentinas que os receberam na lanchonete.

Os irmãos Walter e José Lemes, então donos da Viação Andorinha, deputado Marcelino Romano, prefeito Paulo Constantino, juiz-desembargador Pedro Menin. Também surgiram alguns nomes soltos: Agripino, Maurílio, Odoriquinho. Não os conheço, mas imagino que seja ótimo beber com quem se chama Agripino, Maurilio ou Odoriquinho.

Meu amigo por lá é o Samé de Paula. Empolgado, também falei com ele sobre a agenda de segunda-feira. Mas Samezinho, comportado como sempre, está em quarentena severa em Goiânia, duas vezes mais distante de Prudente do que São Paulo.

Se vinga ou não a caravana, contarei ou não a propósito. Até porque a semana pode ser imprevisível. Bauru, Barretos, Araraquara, São Carlos são cidades gostosas e equipadas de bares que merecem toda nossa consideração.

 
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Comida, corona, causa e efeito

Um amigo, contrário ao isolamento social, negacionista da ciência e fartamente estocado de papel higiênico, cloroquina e álcool – em gel e outras variedades clássicas -, não para de me amolar no WhatsApp. Curioso: o faz dizendo que nunca mais vota no João Doria. Por isso não o bloqueio. Tem que manter isso aí.

Oscilando entre duas convicções contraditórias, segue o meu amigo: 1) o coronavírus foi criado em laboratório para jogar os ativos mundiais na bacia das almas, que então seria comprada pela China; 2) a culpa é do povo chinês que comeu morcego.

Reconheço que a China demorou para fazer o alerta mundial sobre o vírus. Mas não lhes culpo. A Organização Mundial da Saúde também teve seus atrasos, bem como diversas nações. Até o Drauzio Varella subestimou o perigo, revendo sua posição ante as evidências, tanto da ciência quanto dos caixões empilhados.

Porém não tolero xenofobia, e tais ataques à China não são outra coisa. Tentei argumentar especialmente sobre o morcego – que é de fato uma possibilidade. Em vão. Já conto como.

Pós sucessivos fracassos, decidi lhe pregar uma peça. Depois de meu amigo falar mal de tudo quanto é chinês, especialmente do embaixador Yang Wanming, esperei uns dias e, numa manhã, enviei mensagem dizendo que haveria uma live com o consulado chinês, restrita a 120 empresários que com eles comercializam, e que um cliente me pedira para convidar potenciais investidores. Topou na hora, ansioso até. Amigo empreendedor não convida para uísque desinteressado, mas a gente se diverte mesmo assim.

O argumento que eu usava para justificar o pobre chinês que comeu o morcego é a cultura. Passaram fome braba por lá. E quem pode dizer o que se faz com fome? Os sobreviventes do avião que caiu nos Andes se tornaram antropófagos em poucos dias – por sobrevivência, não como o prêmio para o guerreiro que homenageava o inimigo capturado saboreando suas carnes.

Morcegos são ratos e nem todo mundo come rato por fome. O roedor é considerado iguaria na própria China, Camboja, Laos, Moçambique, Indonésia, Vietnã, Gana, Filipinas, Myanmar, Tailândia. Dizem que na França comeram ratos. Nada a ver com ratatouille, que é e sempre foi vegetariano, mas parece que comeram. Aqui no Brasil come-se paca e capivara, que são mais ou menos ratos.

Na São Paulo colonial as formigas eram disputadas feito safra de jabuticaba. Comia-se formiga frita, com preferência pelas mais graúdas, bundudinhas, tanajuras crocantes.

E o que dizer de ostra, marisco, vôngole, ouriço? Há quem tenha nojo e eu acho ótimo porque sobra mais. Também adoro lesmas – o que me falta é o capital para os escargots do La Casserole ou do Freddy.

Parentes distantes das baratas são os camarões, que ninguém recusa, salvo por alergia. É um tipo invertido de vontade. Se quem tem fome come o que tiver, o alérgico quer comer o camarão para viver melhor e não pode. Ambos têm medo de morrer.

Como chegamos até aqui, entre nojos e delícias, é pergunta para antropólogo responder. Tenho só palpites. Caviar e outras ovas, por exemplo, devem ter sido sobras por muito tempo. Até que um dia o senhor viu o escravo lambendo os beiços e babau, nunca mais, né, minha filha?

Meu amigo negacionista recusou o banquete. Insiste que combater a pandemia com isolamento vai deprimir a economia e causar miséria e fome. Vai. Mas só se a gente deixar. Há comida (e riqueza) suficiente no mundo para que ninguém passe fome, sede, frio, medo.

Conseguir isso não é difícil. Ou pelo menos é muito mais fácil do que fazer meu amigo entender que, se o novo coronavírus veio mesmo do morcego, assim como os coronavírus antigos vieram de outros bichos, a culpa não é destes ou de quem ou jantou, mas da fome histórica do nosso mundo desigual, da falta de asseio também histórico que não nos preocupamos em universalizar, da igualmente histórica péssima relação que travamos com a Natureza.

Sem resolvermos a causa, os efeitos vão continuar. Novos coronavírus virão. H1N2, Sars-23, Covid-40.

 
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Caprichar na despedida

Para mim é imperioso reconhecer que, entre tentativas, erros e acertos, no limite, Bruno Covas e João Doria merecem nota acima da media no combate à pandemia. Especialmente o Bruno, na linha de frente ainda convalescendo de um câncer brabo.

Os hospitais de campanha municipais e estaduais são um exemplo. Estão funcionando, salvando vidas, ao mesmo tempo que a rede privada reclama o vazio em suas dependências. Um doutor chegou a dizer à CNN que a abertura era necessária porque, isoladas, as pessoas não sofrem acidentes e, nessa toada, hospitais particulares quebrariam.

É curioso que o exitoso Corujão da Saúde, raro ponto positivo da passagem relâmpago de Doria pela prefeitura, quando soube aliar a sugestão do ex-governador Marcio França a seus contatos profissionais, tenha sido preterida, notadamente no cenário atual.

Desconto também para as macaquices politiqueiras da exaltação do maior isolamento do país, destacando números absolutos e não proporcionais no estado mais populoso da federação. Se comparados à Argentina, com população equivalente à paulista, fracassamos fragorosamente.

Fracassamos como sociedade. Nas periferias, a dificuldade de isolamento se impôs previsivelmente. E, no centro expandido, onde poderia ser cumprido com conforto e alcançar os desejados 80%, o fracasso foi retumbante.

Tristeza enorme constatar nosso caráter. Os fura-quarentena lavando a consciência e apelando por abertura com o dedo apontado para a periferia desesperada. Insistindo que a depressão econômica seria mais danosa que a doença. Prova inconteste da indiferença histórica e negação da realidade.

“Ah, como pedir isolamento se as pessoas moram amontoadas, em casas mal arejadas e sem insolação, e não têm dinheiro para sobreviver um mês parados?” Como se novidade fosse.

“Ah, mas e a saúde mental das pessoas trancadas em casa?” Como se novidade fosse. No centro, tédio, depressão, frustração, paranoia – e tome placa dental para não estourar os dentes durante o sono químico, e mais bolas para se levantar quando o efeito passa. Na periferia, sorrisos falhos por falta de dentista e sono desmaiado pela exaustão de horas diárias no transporte público, espaçadas pelas jornadas de trabalho suado.

Aos três meses de cana domiciliar, penso também no sistema prisional. Tanta gente punitivista que dizia ser moleza tais condenações, defendendo mais presídios para passador de maconha, ladrão de galinha e que tais, todos pretos e pobres. Duvido que tenham mudado, mesmo que tenham guardado isolamento. Se nem cana confortável regenera, é fácil concluir o que estamos criando com o sistema vigente.

Também penso se valeu a pena ficar em cana. Não sou de ferro. Passei por incontáveis estados emocionais nesses três meses. Tento ser otimista, mas fracasso, derrotado pelas evidências.

Me esforço para reconhecer o trabalho do governo do estado. Mas quem aguenta, quando depois do dia noventa vem a tal “quarentena inteligente”? Tão “inteligente” que ninguém entendeu.

A quarentena na capital paulista será afrouxada. Grande SP, com todas suas zonas cinzentas, não. Seremos, por óbvio, um manancial de propagação do vírus.

Shoppings reabrirão nas zonas laranjas, que inclui capital e a região do Vale do Paraíba. Doria tem um shopping de inverno em Campos do Jordão, onde a classe média vai passear exatamente como fez pelo interior e litoral nos feriados. Prefeitos do CODIVAP, preparem-se para o impacto.

Só mais um exemplo, porque não quero cansar a freguesia já esgotada de tudo. Shoppings sim, bares e restaurantes, não. Mas e o tal takeaway que sempre foi permitido? As praças de alimentação vão querer abrir e entregar comida no balcão diante das centenas de mesas e cadeiras. Pobres dos seguranças que terão que espantar a clientela.

Fico por aqui, louco pra sair e ver minha cidade, os ipês-rosa-de-bola em flor, conferir se são maritacas ou periquitos os passarinhos que ora cantam aqui perto da Paulista, rever as pessoas que eu venero, matar a saudade do meu lar, o botequim (obrigado, Noel).

Já que vai dar merda, pelo menos vamos caprichar na despedida.

 
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Bolsonaro contra a vacina

Parece que a vacina contra o bolsonarismo apareceu no horizonte. E, igual a toda vacina, ela será feita a partir dos vírus atenuados.

A base do bolsonarismo é mentira, desinformação, as chamadas fakenews. Nada de novo, porque sempre houve, mas nunca com a potência da atualidade, proporcionada pelo ambiente toxico e descontrolado das redes sociais e que tais.

E também não é só um problema brasileiro. O Reino Unido deixou a União Europeia se valendo dos mesmos vírus. Assim como Donald Trump pela disseminação do vírus foi eleito.

Depois de tantas vítimas, a combinação para enquadrar a doença começou a surgir. São literalmente quatro lados.

O primeiro é o Poder Judiciário. O Supremo Tribunal Federal, vendo-se atacado pelo esquema que já havia tomado o Poder Executivo, pela caneta do ministro Edson Fachin preside o inquérito para apuração das suspeitas.

Aqui cabem parênteses sobre os meios. Sim, foi ato de ofício do presidente Dias Toffoli, é incomum, porém regimental, e pode ser arriscado se usado de qualquer jeito. Mas demais instituições, devidamente consultadas, o avalizaram. Advocacia Geral da União por exemplo. E inclusive o atual procurador-geral da República – que hoje mudou de opinião e pediu a suspensão do inquérito. Especialistas divergem sobre a continuidade ou não do inquérito sem a participação direta do Ministério Público.

A segunda fronteira ainda está no Judiciário. A Polícia Federal, autorizada pela Justiça, correu com as investigações e identificou financiadores, operadores, provavelmente as empresas responsáveis. Está faltando gente no inquérito, financiadores, funcionários públicos e familiares de Bolsonaro. Mas a coisa está adiantada e já alcançou, por determinação do gabinete do ministro Alexanfdre Moraes o sigilo bancário dos investigados durante as últimas eleições.

Eis que chegamos na terceira fronteira, que encerra o triangulo das bermudas do vírus bolsonarista: a Justiça Eleitoral. Ontem tomou posse o novo presidente do Tribunal Superior Eleitoral, ministro Luiz Roberto Barroso, e seu discurso foi bastante concentrado na preocupação com a deterioração que o vírus da desinformação vem causando à Democracia.

E a base de tudo, que somada ao triangulo judiciário enquadra o vírus bolsonarista, devemos ao trabalho da imprensa. Por justiça e gratidão é importante nominar a repórter que puxou o fio: Patrícia Campos Mello, da Folha de S. Paulo, premiada aqui e alhures pela série de reportagens que iluminou o esquema de financiamento de propagação de fakenews. Patrícia está para o vírus bolsonarista como as cientistas que sequenciaram o coronavírus que nos assola.

A vacina então é esta. Ainda demora para ser concluída e fazer efeito, mas já está encaminhada para enquadrar muita gente que hoje berrou de medo da agulha ou das gotinhas. Notadamente o principal beneficiado pela doença, Jair Bolsonaro, que pode ter a chapa cassada pela Justiça Eleitoral caso as suspeitas sejam provadas e a chapa Bolsonaro-Mourão, condenada.

 
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Autoengano

Muito se engana quem imagina que o comboio da Polícia Federal desta manhã, que atinge empresários, ativistas e políticos bolsonaristas no inquérito sobre as fakenews, elimina a possibilidade de intervenção da Presidência da República na instituição. A intervenção é um fato – resta saber a medida.

A Polícia Federal, igual a tudo que inclui a ação humana, está sujeita às preferencias de parte de seus membros, podendo por estes ser violada. Por cima, por baixo, de frente, de costas, de lado. Aqui o importante é o velho “pode menos quem pode mais”, sendo do interesse geral que a pessoa eleita para o posto mais alto da República permaneça afastada de qualquer suspeita de interferência em órgãos de Estado.

De novo, igual parece tudo na atualidade, para mim é incrível o nível de polarização que alcançamos. Chegamos ao ponto de debater se determinado medicamento funciona ou não no combate à maios pandemia em cem anos. E isso incentivado pelo homem mais poderoso do mundo e pelo presidente do nosso país, este que, sapateando sobre mil cadáveres diários, diz “quem é de direita toma cloroquina, quem é de esquerda, tubaína”. E não falta quem ache graça.

No mesmo sentido entram as operações de ontem e hoje da Polícia Federal. Os incautos se dividem em dois partidos: os que ora defendem a família do governador do Rio de Janeiro Wilson Witzel, e os que defendem a família Bolsonaro, como se até anteontem não estivessem abraçados, tendo sido eleitos juntos, com o mesmo discurso de ódio, moralismo e destruição “de tudo que está aí”.

É como se sacos de farinha pudessem ser repartidos exatamente ao meio. Quem acredita nisso acredita em qualquer coisa, até em comprimido de farinha.

No breu do beco-sem-saída em que nos metemos, a briga-de-foice grassa, deitando tripas pelo chão. O diálogo com gente outrora moderada – ou pelo menos controlada pelo processo civilizatório – vai se tornando impossível. Hoje vale mais lembrar de como certas pessoas costumavam ser do que procurar saber se estão bem.

A conjuntura é tão maluca que, segundo pesquisas, ao mesmo tempo que o distanciamento social arrefece, a maioria da população segue apoiando a adoção de um lockdown. É como se, sabendo que dói menos arrancar o curativo de uma vez, a falta de coragem nos impusesse o autoflagelo de puxa-lo aos poucos.

E o deprimente é notar que nada disso é novo. O bolsonarismo é o velho malufismo, porém mais tosco, vulgar, despudorado, reacionário. Assim como o é o nós contra eles.

A miséria das favelas e rincões, a pobreza e insegurança permanente mesmo de quem a vida inteira trabalha, o desprezo pela Cultura, a falta de Educação, o descaso com a Saúde, as desigualdades todas também sempre estiveram aí. Nosso “vale quem tem”, “deixa morrer”, “meu pirão primeiro” são estruturais.

Comecei a quarentena esperançoso, sofrendo mas nutrindo a possibilidade de uma mudança comportamental diante do desastre, como uma enchente avassaladora que afoga e fertiliza. Mas a realidade vem impondo a falta de ar.

Quando e se a pandemia passar, lamentavelmente continuaremos divididos entre os que vivem e morrem sufocados, e os que vivem, morrem e deixam morrer indiferentes, confortados pelo autoengano.

 
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É tarde

O inquérito sobre a interferência do presidente da República na Polícia Federal corre na PGR. Augusto Aras deve falar até o final da semana, quando saberemos se a investigação vira ou não denúncia.

E onde esteve ontem o investigado? Na PGR. No mínimo é inoportuno. Com um pouco mais de severidade, não estivéssemos nós nos acostumando ao absurdo a cada dia, haveria espanto geral.

O mesmo ou ainda mais acintosamente já foi feito outro dia com o Supremo Tribunal Federal, levados de supetão para uma reunião improvisada com o presidente do colegiado. O vídeo, transmitido ao vivo pelas redes do bicão, deixa claro que a intenção era transferir para o Judiciário a responsabilidade da condução da luta de todos nós contra a pandemia.

Pouca gente no mundo pensa como Bolsonaro sobre como combater a praga. O presidente prefere se voltar de costas aos nossos vizinhos mais amigos, com casos exemplares na Argentina, comercialmente terceiro parceiro do Brasil, e Uruguai e Paraguai, politicamente mais próximos do governo atual. Jair Bolsonaro se alinha ao ditador da Venezuela ou ao populista socialista do México, todos os três negacionistas da ciência.

Ainda sobre o Supremo, sem qualquer pudor Bolsonaro ameaça o tribunal, dizendo que segura sua matilha, que pede o fim do Judiciário, caso o Judiciário faça suas vontades. Matilha esta que ele defende armar e atua para tanto, através de portarias que permitem o aumento da compra de munições e dificultam o rastreamento destas e de armas.

Em paralelo, na crise entre Executivo e Judiciário, surge uma nota ameaçadora do ministro general Augusto Heleno, de pronto apoiada por dezenas de oficiais da Reserva do Exército.

Voltando à possível interferência na Polícia Federal, batalha travada por Bolsonaro com o até anteontem ídolo dos bolsonaristas Sérgio Moro, hoje amanhecemos com novos indícios. O governador do Rio, outrora aliado de Bolsonaro, acordou com equipes da PF dentro do Palácio das Laranjeiras, sua residência oficial, e outras equipes em sua casa no Grajaú, no escritório de sua mulher, entre outros endereços.

A deputada estrela do bolsonarismo Carla Zambelli, em entrevista a uma radio, antecipou ontem que haveria diligências da PF contra prefeitos e governadores. E vale lembrar que a ministra Damares, na famigerada reunião do dia 22, diz com todas as letras que eles ainda vão mandar prender prefeitos e governadores – como se competência para tanto ela tivesse. O ministro analfabeto funcional da Educação defende o mesmo para ministros do STF.

Sem meias-palavras, o governador Witzel afirmou que a operação Placebo, que investiga desvios nas compras para o combate à pandemia, confirma a interferência da Presidência da República na PF.

Obviamente é necessário investigar e punir malfeitos e desfalques a qualquer tempo, notadamente em meio a uma pandemia com dezenas de milhares de mortos. Inclusive já prenderam gente no Rio de Janeiro.

Mas visto em panorama, o quadro todo é assustador. Tem focinho de criação de polícia política, tem rabo de polícia política, se move como polícia política. Não tem como dar certo. E suspeito que perdemos o momento de frear o movimento sem dores e traumas. E, assim, é o caso de pagar pra ver. É tarde, sei bem. Mas como venho insistindo aqui, é consequência ou morte.

 
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Paulo Marinho, o caseiro do Bolsonaro

Chamado de empresário, Paulo Marinho resolveu contar à Folha algumas passagens da campanha de Jair Bolsonaro à Presidência, notadamente em relação à possível e até provável corrupção de um policial federal, que teria vazado ao então candidato ao Senado Flávio Bolsonaro, o ZeroUm, a chegada da operação Furna da Onça a ele, Queiroz e a atual primeira-dama Michele.

O episódio teria acontecido na metade do segundo turno da corrida eleitoral. Naquele então Queiroz foi demitido do gabinete de Flávio na Alerj, e sua filha Mariana, laranja no gabinete de Jair, também caiu do pé. Em tempo: a moça é instrutora de ginástica especialista em choques elétricos e foi se empregar justo no gabinete onde o torturador Ustra é ídolo.

Também data daquele período a revelação do vice Hamilton Mourão sobre o convite de Paulo Guedes a Sérgio Moro para o ministério da Justiça. A operação Furna da Onça é um desdobramento da Lava Jato no Rio de Janeiro.

E nunca é demais lembrar que o relatório do Coaf chegou ao MP-RJ em fevereiro de 2018, e até novembro daquele ano, que no correr dos meses viu a prisão de vários colegas de Flávio, o TCE inteiro e quatro governadores, justamente pela Furna da Onça, produziu 30 páginas sobre o ZeroUm, e entre novembro de 2018 e fevereiro de 2019, 300 páginas, um DVD e um pen-drive. Impossível não sentir cheiro de gaveta no processo.

À Monica Bergamo, Paulo Marinho contou alguns bastidores da campanha à qual serviu de caseiro para Bolsonaro. Disse que Bolsonaro destrata subalternos e que mal conseguia acompanhar assuntos mais relevantes, que gostava mesmo de papear com a turma da segurança e contar piadas sexistas e homofóbicas.

Contou mais. Ora aliado de João Doria, Merinho disse que a orientação do governador de São Paulo para uma candidatura a prefeitura do Rio de Janeiro era encontrar uma mulher, e citou quem seria, acrescentando que é bonita.

Juntando as coisas dá para entender como e porque, vendo de perto que o “capitão” é um boçal, Paulo Marinho seguiu trabalhando pela sua eleição. Para colocar o boçal no posto máximo da República. São a mesma coisa, a mesma pedra, com a diferença de polimento.

O engraçado é que agora há a suspeita de que o Banco Central devassa as contas de Paulo Marinho. O caseiro de Bolsonaro vive seus dias de Francenildo, caseiro do Palocci, que teve a conta na Caixa Econômica devassada pelo governo Lula.

Mais divertido será se fuçarem direitinho, para saber quanto Marinho botou de dinheiro não contabilizado na campanha. Só um cretino acredita nas prestação de contas da campanha Bolsonaro presidente.

 
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Enem, o exame do Brasil

Nascido no Senado, que é a casa de representação dos estados, o adiamento do Enem 2020 teve 75 votos favoráveis e um contrário. Quem votou sozinho contra? Flávio Bolsonaro. O Zero Um.

Na Câmara, casa que representa a população, a ideia foi recebida e encaminhada para votação com urgência, com previsível derrota do governo, que se antecipou e adiou oficialmente o exame.

O ministro da Educação, analfabeto funcional, que marca em seu currículo ter dormido na casa de Olavo de Carvalho, foi contrariado. Por ele, o exame seria mantido, alheio à realidade de grande parte dos estudantes brasileiros, vítimas da pandemia aguda que escancara nossa desigualdade crônica.

A vitória, contudo, foi concebida na sociedade. Pressão, participação, comprometimento, solidariedade que sacudiu o Congresso e dobrou o governo. Acredito que tenha sido a aula mais importante não da pandemia ou de 2020, mas do nosso tempo. Guardem bem a lição, estudantes. Guardem para a vida toda.

O problema geral foi a necessidade de estudar remotamente, desde casa, de um dia para o outro. Ninguém estava preparado, seja técnica ou pedagogicamente. Uma ou outra escola conseguiu se adaptar, um ou outro aluno também. Mas, no todo, ficaram todos perdidos: alunos, professores, pais (mães, né, minha filha?).

Houve destaque para a dificuldade de estrutura da maioria dos estudantes. Casas pequenas, amontoadas, conexão de internet fraca, máquinas compartilhadas com outros familiares e muitas vezes aquém dos sistemas das escolas.

Mas a verdade é que ainda temos muita gente com dificuldade de acesso a lápis e borracha. O drama dos pais no começo do ano para compra de material escolar sempre é notícia. Vai ano, vem ano, há avanços, mas em geral pouca coisa muda. O drama está lá, escandaloso, disputando manchete com enchentes e deslizamentos. E nos acostumamos a um e outro.

O adiamento, que a princípio deve ser de trinta ou sessenta dias, não é nada se comparado ao nosso atraso histórico.

 
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Tucanaram o lockdown

Bruno Covas e João Doria sabem que a gente precisa de lockdown. Mas falta coragem para decretar. E a solução não podia ser mais PSDB: tucanaram o lockdown. Só falta o Zé Simão cravar.
Inventaram a antecipação de alguns feriados para um batidão de seis dias. A ideia é baseada no domingo, quando o isolamento social chega a 56%, míseros 56%, mas é o que se consegue com conversa.
Espero que ajude, cada vida salva contenta, mas duvido que funcione. O domingo em casa é antes cultural do que pontual. Porém domingo só é domingo quando espaçado por outros seis dias. Seis domingos seguidos são férias.
Dos serviços autorizados a funcionar, chamados essenciais, quais ficarão fechados? Restaurantes funcionam normalmente em feriados e não vão parar as remessas por viagem por ser feriado. Talvez a demanda aumente – afinal, feriado é dia de festa e permite um e outro gosto.
Em domingos e feriados a oferta de transporte coletivo diminui. Mas quem tem que sair de coletivo na quarentena vai continuar saindo durante o super feriado, só que mais apertado.
E o problema central é do exemplo dos andares de cima. O que tem de cretino por aí usando a dificuldade de isolamento nas favelas e o desespero das pessoas pelo pão de cada dia para furar quarentena e tomar vinho na casa dos amigos é uma barbaridade.
Os costumes dos andares superiores são de uma escrotidão atroz. A cultura é de uma cretinice sem tamanho. Com a maioria em home office, como se fizesse diferença de onde se trabalha, usaram o Primeiro de Maio para esparramar corona no litoral e interior em caravanas fúnebres. Na metade do mês, as taxas de contaminação na capital era de 700%, e 3.300% no litoral e interior. Gente assassina.
Combinam festinha presencial para ver live show na internet! E a desculpa é: ah, com tanto pobre, quarentena é impossível. Pois é. 50% não têm saneamento básico, então parem de lavar as mãos e vão cagar no mato.
O feriadão tucano só não será mais do mesmo se houver bloqueio nas estradas. Passam os essenciais, abastecimento, socorro etc. Os demais não só não passam como são multados.
Mas sequer para tanto há peito no governador. O prefeito de São Sebastião, vendo a população apavorada, disse à CNN que tenta falar com o governador para combinar como fazer o bloqueio e não é atendido.
Previsível. A imagem de Doria derreteu nessa classe media deslumbrada. E ele sabe que, entre gente que não se importa em matar, não será reconhecido pelas vidas que conseguir proteger.
É de amargar. Hoje superamos as mil mortes diárias no Brasil. 1.170 mortes nas últimas 24h. E mesmo assim há desinformação, nagacionismo, desdém com a pandemia e com a vida alheia.
Dá vontade de desistir. Vamos todos para a vala comum de uma vez. Antecipem o carnaval e faremos uma super quarta-feira de cinzas.
 
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Miudinho

Ouço muito na voz do príncipe Paulinho, mas talvez seja do craque Martinho, ou ainda, qual a Teresa da Praia, não é de ninguém o partido alto Miudinho – ô devagar miudinho, devagarinho…

É o que tem embalado minha quarentena. Vou, finalmente, aprendendo a fazer as coisas com calma. Tirado o rancão inaugural, quando suava na faxina da casa toda de uma vez, nos outros dias suava com os exercícios atrasados desde muito, tentava fazer andar a fila da leitura que se acumulava na cabeceira, tomava todo sol possível no dia, cumpria quaresma severa ou, finda esta, me entregava a bebedeiras profundas, e muito, muito cigarro, redes sociais, TV, os excessos foram amainando e a moderação vai se tornando o costume.

Começou quando resolvi cortar o cabelo. Acho que foi, apesar de tudo, uma sensação de falta do que fazer. Cabelo ondulado tem a vantagem de entregar a ponta que pode ser podada. Meti a tesoura. Gostei. Não porque precisasse, nunca dei muita bola e menos ainda em quarentena. Mas pareceu terapêutico. E como não é todo dia que tem ponta se entregando, levei um três dias cortando. Semanas depois, repeti a dose ao longo de mais três ou quatro dias.

Influenciou a faxina. Pra que fazer a casa toda no mesmo dia? Exaure e, claro, os últimos cômodos acabam não merecendo a atenção dos primeiros. A coisa evoluiu a ponto de dividir os próprios cômodos em parte. Cozinha, por exemplo. Um dia é uma bancada, outro a geladeira, num terceiro o fogão, depois dele a pia, o piso e por aí vai. Miudinho.

Com ginástica é mais fácil. Sempre um prazer adia-la. Devagarinho. Tem dia que vale só se espreguiçar longamente. Com sol também. Ajuda em várias frentes, inclusive o humor. Mas não precisa ser todo dia, como ele mesmo sugere, se escondendo de vez em quando atrás das nuvens.

Orgulhoso mesmo estou do controle etílico. Pela primeira vez na vida passei a seguir a linha do final de semana. Sempre preferi beber desde segunda-feira, quando só tem profissional na rua, e deixar os finais de semana para os zé festinha. Agora, porém, alguma rotina parece interessante e vou esperando as vontades clarearem até quinta ou sexta, quando descubro quem mais quero rever.

Os gostos seguem parecidos. Com gin, vinho e cerveja estou civilizadíssimo. Sábado e domingo pela manhã fiquei em três gin-tônicas respectivamente. Um lorde. Vinho, idem. Começo pouco antes da refeição e encerro logo depois para a sesta. O fim da garrafa vai durante um zoom ou tevê no fim da tarde. Ah, a cobertura jornalística, que vem sendo primorosa especialmente na TV Globo e me absorveu na largada, também já está controlada. No Netflix maratonei Fauda na largada e agora nada me anima pra valer.

O diabo continua sendo a paixão. Uísque, quando diz alô, demora a se despedir. É aquilo que o Tom Jobim definiu tão bem: a primeira cerveja é uma delícia, a última, uma merda; o primeiro uísque é uma merda, o último, uma delícia. E haja últimos.

 

 

 
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