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Cabe um stop-and-frisk para carros caros

Pelas calçadas de São Paulo dá para sentir na pele, notadamente no arrepio dos joelhos apavorados com os para-choques. Mas escrever a respeito sem dados científicos seria quase tão arriscado quanto ser pedestre na nossa cidade.

Vou dizer e em seguida explico: é muito mais comum, impressionantemente mais comum, que uma pessoa dirigindo um desses jipes enormes e blindados solenemente ignore a presença dos pedestres no trânsito. Amiúde estão ao celular e sequer dão conta de que possa haver alguém a pé, e muito menos que esse alguém sempre terá preferencia.

Note: não é exclusividade. Entregadores e motoristas de aplicativos também fazem o diabo sobre os mais diversos veículos. Mas admito que tendo a lhes dar um desconto tentando imaginar a aflição que é a luta dessa turma pela sobrevivência.

Com ciclistas também são corriqueiras as ameaças. Acho admirável quem consegue adotar a bicicleta na cidade. Mas tem uma parte que parece se sentir moralmente superior e, portanto, merecedora de preferência em qualquer situação.

Porém minha impressão geral sempre foi a de que motoristas de supercarros são especialmente mais agressivos e/ou displicentes. E ai de quem reclama.

A novidade aqui é que a impressão agora tem base científica, ainda que não centrada em São Paulo. De Nevada a Helsinque, dois estudos afirmam que pessoas que dirigem carros caros tendem a ser desagradáveis no trânsito.

Da Universidade de Nevada, a equipe pesquisadora chegou a seguinte equação: a cada mil dólares a mais no preço do carro, diminui em 3% a chance dela parar para a travessia de um pedestre.

Da Universidade de Helsinque, com base em 1.892 entrevistas, o pesquisador Jan-Erik Lönqvist concluiu que “homens egocêntricos, teimosos, argumentativos e antipáticos” têm mais chance de desejarem um carro caro e tendem a violar regras de trânsito com mais frequência do que os demais.

Os dados são de uma matéria da CNN reproduzida no Brasil pelo canal F5, do UOL.

Antes que algum amigo venha me dizer que se lembra do que eu fiz no verão passado, admito várias dessas características em mim e agradeço a Providência que um dia me fez abandonar o automóvel. Das coisas de garoto do século 20 que eu quero superar, o gosto por dirigir está quitado. E agora tenho mais um motivo para recomendar o pedestrianismo como terapia aos meus contemporâneos.

E fica a pergunta sobre como os governos poderiam ajudar mais gente a superar esse frisson. Um palpite vem do acompanhamento das eleições primárias do partido Democrata nos Estados Unidos.

Fortemente atacado pela política stop-and-frisk, por toda a carga de discriminação étnica e social que esta carrega, o pré-candidato Michael Bloomberg também é reconhecido pelas melhoras no transporte durante seus mandatos como prefeito de Nova York, sendo sua então secretária Janette Sadik-Khan festejada em todo o mundo pelo trabalho realizado. E se a chamada capital do mundo é referencia para tantas outras grandes cidades, um stop-and-frisk para motoristas de carros caros, ora com base científica e não mero preconceito, parece boa política pública a ser adotada em todo canto.

Pena que não será para nós, brasileiros. Aqui o presidente da República é contra radares móveis nas estradas, dá mal exemplo pilotando motocicleta com habilitação suspensa e capacete desatado, o governador do maior estado e último prefeito eleito na maior cidade também já teve a CNH cassada e apareceu sem cinto de segurança algumas vezes. São estes os representantes da nossa sociedade.

 
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Definitivamente cúmplices

“Traidor da Constituição é traidor da Pátria.”
“Temo ódio à ditadura. Ódio e nojo.”
Ulysses Guimarães

O presidente da República usou seu WhatsApp pessoal para convocar seus apoiadores para a manifestação de 15 de março, que é contra o Congresso Nacional e o que ele chama de “políticos de sempre”.

Muito bem explicado pela jornalista Vera Magalhães do Estadão, primeiro no furo do site BR Político e depois na coluna impressa de hoje, Jair Bolsonaro usa o Brasão da República como avatar e assina o convite como capitão, não como presidente, e sendo precedido pelo general Heleno (Foda-se o Congresso).

Note: o avatar com o Brasão da República atenta contra a República. O presidente eleito pelas urnas despreza a Presidência da República e a democracia, preferindo ser capitão e subalterno a um general. Com trinta anos de mandatos e três filhos com cargos eletivos, ataca “os políticos de sempre”. Sinais trocados são sua especialidade.

Ainda: no tuíte de hoje, admitindo que enviou o convite em vídeo para seus contatos, o que a rigor é a confissão do crime de responsabilidade, mais sinais trocados, acusando quem constata o crime contra a República de querer “tumultuar a República.”

Nada disso é novo. O governo atual trabalha pela venezuelização do Brasil, as semelhanças de estilo e do roteiro estão na cara, só não vê quem não quer. Desde generais palacianos até atos chamados pelo próprio governo contra as instituições. Mas ele faz questão de a toda hora se antagonizar com a Venezuela para confundir a população. Sinais trocados mais uma vez.

Já falei aqui e insisto: não há mais na sociedade apoiadores do governo atual. São todos cúmplices do projeto de destruição institucional. E os integrantes nomeados do governo, de ministros a postos de escalões inferiores, que ainda queiram zelar pelas próprias biografias, deveriam, no mínimo, entregar os cargos.

E a miliciocracia segue em marcha. Trato dela no meu último texto e quero acrescentar: Olavo de Carvalho oferece seus cursos de graça para policiais e a Igreja Universal mantém um programa de acolhimento para policiais – algo que o Estado deveria fazer e não faz.

Quem quiser participar e até apoiar esse projeto deve saber o que está fazendo. E deve admitir que é cúmplice de uma cruzada contra a democracia e a República.

 
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Miliciocracia ou ai de ti, Faria Lima

Em São Paulo, no estacionamento de um shopping na rodovia Castello Branco, um policial civil, acompanhado da mulher, rendeu a prefeita de Vera Cruz, Renata Devito (PSDB), que voltava de uma audiência na capital. Arrancou a placa oficial e a chave do carro, emendando que a prefeita não poderia estar naquele local.

No vídeo que rola pelas redes sociais, a prefeita pede a um assessor que avise o governador e o policial devolve “Que se foda o governador”, e a impede de sair do veículo. Ostentando uma arma, ameaça: “Aqui é polícia. Se sair eu atiro!” Foram todos para a delegacia, onde a Corregedoria da Polícia Civil autuou por dano ao patrimônio público e lesão corporal o policial, que pagou fiança e partiu.

No plenário da Assembleia Legislativa da Bahia, durante o debate sobre a reforma da Previdência para servidores estaduais, um policial sacou a arma e ameaçou o deputado Alan Sanches (DEM), favorável a proposta que acabou aprovada em dois turnos.

Policiais militares do Ceará, amotinados, roubaram viaturas e tocaram o terror na cidade de Sobral, reduto eleitoral da família Gomes. Em motim, tomaram um quartel e impediram que os colegas saíssem às ruas para as rondas regulares.

Destemperado, o ex-governador e senador Cid Gomes avançou com uma retroescavadeira contra o portão que os amotinados encapuzados impediam. Acabou baleado no peito.

Casos assim sempre foram comuns nas periferias. Parte da sociedade fez vista grossa. Parte aplaudiu. Até que em 2018 foram eleitos nos principais estados e para a Presidência da República candidatos que em palanque incentivavam e encorajavam os excessos. Ano e pouco depois, chegamos a tal estado de coisas.

Não dá para dizer que vai acabar mal. Já deu ruim. O tal guarda da esquina descontrolado, termo atribuído ao então vice-presidente Pedro Aleixo, receoso com o efeito do decreto do AI-5 sobre as pequenas autoridades, que sempre tendem a exagerar mais do que as altas, como num telefone-sem-fio maldito, aparentemente já não pode ser controlado.

O Brasil está sob uma miliciocracia. E se alguém disser que esta foi eleita nas urnas, não será exagero. Salve-se quem puder.

PS: convém ao baronato de todo Brasil, que contrata bico de polícia para a segurança particular de suas famílias e patrimônio, se perguntar de que lado da guilhotina estão suas tropas. Ai de ti, Faria Lima.

 
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Cúmplices

Dia sim, outro também, o presidente da República procura um enrosco. Com jornalistas, empresas de mídia, governadores, nações amigas, ONGs, partidos políticos – sejam adversários ou aquele pelo qual se elegeu –, Judiciário, entidades e instituições como a OAB ou órgãos oficiais, como INPE, IBAMA, FUNAI. Todo santo dia.

Imagine viver assim seu cotidiano pessoal, freguesa. Todo dia um enrosco, no condomínio, na vizinhança, na família, no trabalho, na escola, no clube, na igreja, no banco, no bar. Seria exaustivo, inviável, impossível. Com o país não é diferente, mas é pior, mais grave.

Pior porque o que a autoridade máxima do país faz afeta a todos nós. A começar pela deterioração das nossas relações pessoais. Pelo exemplo dado, a normalização da grosseria e do absurdo vai corroendo a sociedade e os prejuízos estão aí. Basta abrir uma rede social para constatar as pessoas se afogando em perdigotos.

E afeta também o governo, é claro. O ministro da Educação nem merece comentário. O da Justiça crê que escrever “não entre em facções” nos presídios pode ajudar a resolver o problema, tanto quanto a ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos crê que pedir para os jovens esperarem para fazer sexo pode ser efetivo.

O ministro da Economia, se contrariado, profere grosserias, degenera suas relações políticas e atola reformas, então pede uma, duas três, mil desculpas. E reincide. E ameaça deixar o cargo. Mas não deixa.

O autoproclamado vice-ministro da Agricultura, baluarte do baixo clero pecuarista, evoca lei da mordaça contra servidora em audiência pública.

A pergunta que fica é quanto tudo isso tem entre método e improviso? Quanto tem de tática em, por exemplo, ofender a jornalista Patrícia Campos Mello para abafar as relações da família Bolsonaro com milicianos e a preocupação com os registros de comunicação do capitão Adriano, e quanto é só o que ele sempre foi?

Ser um deputado insignificante e propor fuzilamento do presidente da República, negar a ditadura, defender tortura, zombar de filhos de desaparecidos na  para conseguir ser entrevistado pelo Jô Soares é uma coisa. Ser o próprio presidente da República e continuar assim é outra bem diferente.

Tenho pra mim, e não é de hoje, que, sabendo que seu governo não se sustenta pelo diálogo e dentro do equilíbrio de poderes, Bolsonaro busca um motivo que justifique um regime endurecido ao modelo daquele que ele adora e durou entre 1964 e 1985. Mas antes pelo que eles não falam do que pelo que falam em público.

Hoje tivemos um indicativo bastante claro. No embate entre o Legislativo e o Executivo sobre o controle orçamentário o governo não fez a lição de casa e a negociação gorou. E numa transmissão ao vivo pela internet direto do Planalto o Brasil ouviu a solução proposta pelo general Heleno: “Não podemos aceitar esses caras chantagearem a gente o tempo todo.” E arrematou: “Foda-se!” Teria ainda sugerido a Bolsonaro que incitasse suas falanges a saírem às ruas, como já fizeram contra o STF e o Congresso.

Quem não vê a gravidade de tudo isso precisa de um tratamento urgente. E a quem vê e mesmo assim segue apoiando o governo urge admitir cumplicidade no desmonte da Democracia.

 
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Jóias Brutas

Um amigo purista defendia o cinema raiz, e raiz, para ele, é cinema de rua, fita no rolo, atenção à fotografia, luz enfim. E sem pipoca.

Estava o meu amigo de bode com cinema em shopping com serviço de garçom, cheiro de trufa-diesel no ar, poltrona-leito etc. Aliás, ele dizia que há algumas que sacodem de acordo com o que acontece no filme. Seria a tecnologia 4D.

Pra valer mesmo ele defendia o clima de ir ao cinema, da sala de cinema, da cidade que merece ter cinema. E está certo. Assim como está certo, ou pelo menos tem meu apoio, com o bode em relação às ofertas das chamadas “experiências” hoje em dia. Uma sessão de cinema não basta? Tem que ser 4D? Vá então experimentar um na Rua Aurora. Dizem que por lá chega a 5D.

Mas o que eu queria dizer é que, se a fita é boa, boa é a fita até na TV. O Irlandês vi na TV e fico aborrecido com quem prefere comentar que assistiu em parcelas. Geração da ejaculação precoce é curiosa. Topa dez horas de congestionamento pra passar feriado na praia, outras dez de rave tecno, mas não aguenta uma história de duzentos minutos.

Outro dia o Netflix me ofereceu Joias Brutas. Ofereceu de bandeja, primeira oferta. Achei estranho porque não tinha ouvido falar. Não teve nem de longe o cartaz que O Irlandês mereceu. Mas como era com o Adam Sandler, peguei. Colosso de obra dos irmãos Safidie.

O enredo não tem nada de novo. Pelo contrário, é o clássico O Velho e o Mar ou semelhante, mas com um Santiago menos virtuoso, que pedala as contas numa loja de joias da caótica rua 46 em Nova York, não na pureza do mar cubano.

Sandler está um gigante. Gigante. Quem o vê gruda no sofá, respira curto, machuca as unhas puxando pelinha, range os dentes, fuma um maço inteiro. Em classificação de “experiência”, deveria estar na categoria 6D.

 
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Fantasia

Quando vi a diva Alessandra Negrini com a cara pintada como uma índia, pensei: vai dar bode. E me assustei. Linda e pujante, ela ia acompanhada de Sonia Guajajara e outras lideranças do ativismo indígena. Mas deu bode mesmo assim.

Me assustei porque como paulistano tendo a achar normal que todo paulistano se reconheça como índio. Mas tenho acompanhado o carnaval de rua em São Paulo e o debate em torno da chamada “apropriação cultural”, e meu susto vem em perceber que achei que ia dar bode um milésimo de segundo antes de notar como estava linda a Alessandra.

Me esforço pelo reconhecimento, sei da dificuldade de me colocar no “lugar de fala” de quem bate o pé e insiste que a indumentária comum de determinados grupos não deve ser confundida com fantasia para outros.

A companhia da índia Guajajara teoricamente avalizava a personagem da atriz. Mas mesmo que não houvesse o aval, para mim deveria parecer natural que uma pessoa ligada a São Paulo, desfilando como rainha do Baixo Augusta, um dos maiores cordões da cidade, que reúne milhares no histórico caminho de Pinheiros, fizesse um gesto à índia Bartira, madrinha de todos nós paulistanos.

A diva Negrini frisou que o gesto era uma posição política contemporânea: a defesa dos povos indígenas, seus territórios e culturas, ainda e atualmente cada vez mais ameaçados. Porém me parece que, se a historia fosse conhecida e reconhecida, o debate público estaria em melhor situação.

Outro dia fui brincar na Charanga do França em Santa Cecília. Era um domingo de sol bravo e lancei mão de um acessório genial e milenar usado por quem entende de sol bravo: o turbante. Não exatamente um turbante, mas uma canga de praia atada como se o fosse. É perfeito. Protege o coco e a nuca, com um pouco de gelo de hora em hora mantém a cabeça fresca, segura o suor da testa e, na volta, protege o pescoço do velhinho do ar-condicionado do Metrô. Não digo que deu bode, mas sei que há quem classifique como apropriação cultural.

Sábado último fui ao piquenique carnavalesco Não fui eu, foi ontem. E a canga virou sarongue. Alguém poderia dizer que é apropriação cultural malaia. Outrem que seria piada com o feminino. Mas ninguém disse. Muito pelo contrário, fui elogiado. E ainda tive a oportunidade de falar muito do Flávio de Carvalho e da imensa vontade de que a saia seja socialmente aceita como traje masculino em São Paulo. Há quase 80 anos o polímata atravessou o Viaduto do Chá propondo o uso e até hoje a moda não pegou, infelizmente. Cresce, mas ainda não pegou.

Parênteses: um dos problemas da saia é a falta de bolso. Requer pochete, que voltou à voga. Ou mochila. Como não acho bonita a primeira e a segunda me mata de calor, pensei numa guaiaca. Mas daí vem o risco de dizerem apropriação cultural gaúcha.

Não espere conclusão, freguesa. Admito que estou confuso e me esforçando para entender todos os lados, completamente aberto ao diálogo. Mas gostaria de deixar um ponto, que me associa à Alessandra Negrini: e se a gente entender a fantasia como gesto político no sentido mais puro da palavra, por que não aproveitar o carnaval para se associar às demais culturas e tradições?

 
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Paulo Guedes bronzeado e o brasileiro corado

O bronzeado de Paulo Guedes, adquirido nas merecidas férias (sim, merecemos o silêncio do ministro PaGue mesmo que por alguns dias) foi curtido em Miami e desfilado em Davos.

Ocorre que, se na Flórida há gente celebrando o dólar mais alto da história porque assim as cidades ficam mais caras e com efeito livres das empregadas domésticas, em Davos a turma anda preocupada, e muito, com a desigualdade.

No Estadão de sábado o polímata Thomas Eckschmidt fez um resumo da última rodada do clube dos ricos, se concentrando em um termo novo: capitalismo stakeholder. Quer dizer, a crença de que só o lucro salva e que as empresas devem trabalhar para seus acionistas deve ser superada. Em seu lugar entra o capitalismo consciente e a ideia de que empresas são parte de um ecossistema.

Isto é, sozinha a empresa não existiria. Ela depende de gente, funcionários e consumidores, clientes e fornecedores; depende do meio-ambiente; só pode prosperar se gerar valores para além dos financeiros: sociais, emocionais, ambientais etc. Só assim poderá dizer que prosperou. Só assim a conta fecha.

Mais que bacana, é urgente que economia deixe de ser confundida com meras finanças. Economia = finanças + sociedade + meio-ambiente. Se um steakholder for esquecido, o prejuízo é de todos.

Importante 1: ninguém em Davos é bonzinho. Só são mais inteligentes ou espertos e podem pagar por inteligências assessórias. Perceberam enfim que ser rico em dinheiro não basta. Ninguém estará confortável num iate se houver gente faminta e miserável nas praias.

Importante 2: Ser rico não basta. É preciso continuar rico. E para tanto a economia precisa girar, circular. E esta vai parar se prosseguirmos com o sistema que faz hoje oito homens terem mais riqueza material do que a metade mais pobre da humanidade. Ainda: o inverso é verdadeiro, quando todos ganham, as empresas ganham mais. Larry Fink, CEO da Black Rock, que administra seis trilhões de dólares (o PIB da Alemanha é de US$ 3,7 trilhões), defende a ideia desde 2017. E o próprio Eckschmidt mostrou em seu livro Fundamentos do Capitalismo Consciente (Harvard) que, num prazo de vinte anos, empresas que adotam o capitalismo consciente deram resultado sete vezes superior à media do mercado (S&P 500).

Se parece comunismo, deixe o tabu de lado e relaxe, freguesa. É isso mesmo. A antítese do capitalismo é o socialismo, e o comunismo é a síntese entre ambos. Capitalismo foi bom para criar riqueza e teve êxito: há riqueza suficiente no mundo para que ninguém fique abaixo de uma linha de dignidade. O socialismo foi bom para repartir riqueza mas falhou na produção. Nosso futuro depende do reconhecimento das virtudes de ambos, caso da China. E sim, isso é muito próximo do comunismo.

Não adianta citar Cuba ou URSS. Nesses lugares houve socialismo e ditadura, que não é comunismo. O que mais se aproxima do comunismo, além da China, são as comunas mediterrâneas da Itália ou da França, onde a produção é coletiva e compartilhada, do azeite, do vinho, do pão, da passata, inclusive com o músico que não planta, não colhe, não pisa a uva, mas toca o bandolim sem o qual não ninguém consegue tocar a vida.

Saber dessas coisas, do entendimento que enfim chega a Davos, proporciona um sopro de esperança. Acalanta. Mesmo que seja utópico ou no mínimo distante, ainda que urgente. Mudar o costume é dureza. Principalmente quando se tem um ministro da Economia como Paulo Guedes, que tem horror a pobre, chama servidores de parasitas e não se vexa em xingar de feia uma senhora, professora e  casada com o presidente da França. Imagino a vergonha que nós brasileiros passamos com as conversas que PaGue teve em Davos. Ele bronzeado e o brasileiro corado. Tá puxado.

 
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É impossível que ainda haja sequer um apoiador do governo Bolsonaro

É impossível que ainda haja sequer um apoiador do governo Bolsonaro. Não pode haver. Daqui pra frente, definitivamente, quem apoiar o bolsonarismo deve ser tratado por cúmplice.

Nem falo de Adriano da Nóbrega, miliciano morto no domingo passado, na Bahia, pelas polícias daquele estado e do Rio de Janeiro. Ex-comandante da tropa de elite da PM fluminense, o ex-militar estava foragido e foi morto numa emboscada que a versão oficial quer transformar em troca de tiros. Curioso tiroteio entre um batalhão e um homem cercado que não deixa vestígios.

Apelidado de Urso Polar em função do porte físico e da frieza emocional, o miliciano hibernou por um ano até ser morto no sítio do vereador Gilsinho de Dedé, do PSL de Esplanada-BA. Hibernou tão quietinho que foi esquecido pelo ministro da Justiça Sérgio Moro, que o excluiu da lista dos 27 criminosos mais procurados no Brasil.

Alvo do Ministério Público do Rio, que cercou membros do chamado Escritório do Crime, milícia fluminense que extorque, tortura e assassina, Adriano já tinha sido preso três vezes por assassinato e tentativa de, mas acabou inocentado. Em tais ocasiões foi defendido por Jair Bolsonaro e condecorado por Flávio Bolsonaro, que empregava em seu gabinete a mulher e a mãe do miliciano.

Amigo de quartel de Fabricio Queiroz, por sua vez amigo há quarenta anos de Jair Bolsonaro, segundo o MP-RJ o miliciano cedia suas contas bancarias para o faz-tudo do atual presidente da República operar o dinheiro da rachadinha recolhido entre os funcionários do gabinete de Flávio.

Antes de morrer, Adriano revelou temer ser vítima da chamada queima-de-arquivo, que é quando um bandido mata seu comparsa buscando o silêncio eterno. A quem interessaria Adriano morto?

Para citar só mais três ministros muito falantes deste governo, o analfabeto funcional da Educação insiste que fez o melhor ENEM da história e nomeia um criacionista declarado para a presidir a Capes.

PaGue, da Economia, xingou de parasitas os funcionários públicos e embolou sua agenda de reformas: da administrativa, atropelada pelo próprio Guedes, tentou mudar de assunto para a tributária, atropelada pelo presidente da República em blefe contra os governadores, e agora já se fala em pacto federativo, ou justamente a ordem inversa do que havia sido proposto. É um desgoverno completo.

A terceira seria Damares Alves, da Família, com sua campanha de celibato para jovens prevista para o carnaval, e a ideia de impor aos beneficiários do Bolsa Família um tipo de coaching “para ensinar uma mãe a ser mãe”. (A confusão no Bolsa Família já soma um milhão de pessoas nas filas das cidades mais pobres do Brasil.)

Como se não bastasse o que está acima e muito mais, ontem na CPMI das fake news um depoente mentiu copiosamente e insultou a repórter da Folha de S. Paulo Patrícia Campos Mello, sugerindo que ela ofertava sexo por notícia. É asqueroso, abjeto, inominável. Mas como tudo pode piorar, o filho ZeroTrês do presidente da República, deputado Eduardo Bolsonaro, endossou a canalhice em suas redes sociais.

Por tudo isso encerro repetindo: ninguém mais pode ser apoiador deste governo. Quem quiser insistir, acostume-se a ser tratado por cúmplice.

 
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Burrice artificial

Encontro o Cláudio Moura Castro na Veja com uma preocupação que também é minha: revolução tecnológica. Espantado, o colunista se pergunta: se os romanos, salvo engano pais dos aquedutos, já tinham torneiras em casa, como podem os chuveirinhos higiênicos pingarem invariavelmente?

É algo que me aflige para além do banheiro. Por preguiça – que é a mãe de grande parte dos avanços tecnológicos – instalei um chuveiro higiênico na cozinha, cuja mangueira alcança o fogão, me liberando do esforço de carregar caldeirão cheio d’água pelo menos antes do macarrão ou de ter que baldear água para não deixar os caldos ferverem. Só que pinga, e parece que não tem jeito.

No banheiro não tenho e só uso chuveirinho alheio em último caso. Sou bidê futebol clube. E que surpresa foi saber por outro Castro, o Ruy, na Folha, que o casal mais refinado dos Anos Loucos, Zelda e Scott Fitzferald, ao entrarem no Ritz em 1924, imaginaram que aquela peça exótica era uma banheira de bebê, e nela lavaram a pequena Scottie durante a longa temporada que ficaram em Paris. Por essas e outras discordo do Ruy e evito biografias tanto quanto chuveirinhos higiênicos.

Ah, antes de prosseguir, uma explicação: venero a preguiça como mãe da evolução tecnológica por imaginar a biografia do sujeito que descobriu a roda. Deve ter ouvido muita barbaridade dos que o viam sentado, observando e pensando, invés de ajudar a carregar pedra. O mesmo deve ter sofrido quem pensou no aqueduto e assim por diante.

Mas o que eu queria dizer é que, ao contrário de tantos, tenho receio zero sobre os avanços tecnológicos, notadamente os mais recentes e tão temidos, como a inteligência artificial, a internet das coisas, a biotecnologia. Aceito o medo como parte do espírito humano e suspeito que quem controlou o fogo provavelmente ouviu críticas de gente que acreditava ser “melhor não bulir com essas coisas que são de Deus”, quiçá tenha morrido queimado numa fogueira acesa com própria técnica.

Toda minha aflição é com o perigo da burrice artificial. Igual a tudo na vida, toda obra humana – e especialmente a tecnologia, vítima frequente da ansiedade e da aceleração – a revolução tecnológica é vulnerável à burrice. Avião, dinamite, energia nuclear, algoritmos. E se os humanos burros já parecem invencíveis, a iminência de robôs autônomos programados por eles me provoca calafrios. Oremos.

 

 

 
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A enchente é um presente – ou deveria ser

São Paulo alaga. Sempre alagou. Aliás, esta terra foi escolhida justamente pelos benefícios que os alagamentos oferecem.

Por favor não se assuste, possível freguesa. Sei do caos instalado depois do toró da madrugada. Sabemos todos. Há sofrimento e prejuízo. Possivelmente morte. Mas a culpa não é do alagamento. É nossa. Toda nossa. Culpa da nossa incapacidade de aprender com a história. Nossa própria história. A história do nosso chão. E dos nossos rios, do nosso clima.

Esta cidade começou num morrote em forma de delta entre os rios Anhangabaú e Tamanduateí. Presente da Natureza, a elevação topográfica proporcionou a formação de uma vila simultaneamente protegida das águas e com todos os benefícios que ela traz.

Logo ali, ao pé dos barrancos, os rios ofereciam quase tudo e de colher para os primeiros paulistanos: água de beber, cozinhar, lavar. Peixes amanheciam dispostos no vale como que num milagre, bastando catar um logo depois da cheia para almoçar. A esmola era tanta e tão farta que a turma desconfiava. Daí no nome do rio, que em tupi significa rio do diabo.

As mesmas cheias fertilizavam o vale, onde era possível plantar e ter outros tipos de alimento à mão. Viaduto do Chá tem este nome em referencia à plantação da erva.

Até a mobilidade nos foi dada de presente pelos tantos rios. Na esquina do Pátio do Colégio, sob o que é hoje a rua 25 de Março, há um córrego de onde os monges do Mosteiro de São Banto embarcavam os bens que produziam e levavam de barco para comercializar ao longe. Partindo da Ladeira Porto Geral, São Bernardo do Campo era logo ali.

Porém, através dos 466 anos, especialmente no século XX onde o Homem achou que tudo podia, cometemos a proeza de não só recusar o presente, como acabamos com ele. Canalizamos córregos, retificamos rios. Literalmente cuspimos no prato em que comemos. E hoje, mais uma vez, amanhecemos afogados no nosso próprio cuspe.

As imagens que chegaram pelo WhatsApp logo pela manhã trouxeram um cenário caótico, mas que nada tem de novo. Ou por outra: a novidade são as escolas dos filhos das classes dominantes alagadas. Prejuízo material grande, mas que será sanado rapidamente. Ruim será se não for aproveitado.

Dentro do caos há uma coisa boa, uma oportunidade didática que os dirigentes das escolas deveriam aproveitar, inclusive estendendo a outras escolas do mesmo padrão não afetadas: convocar alunos e pais para a limpeza da lama. Sete Léguas, enxada e vassouras para todos. E ao final da faxina uma aula com autocritica histórica, frisando que aquele cenário, já sanado, é a realidade da imensa maioria das pessoas, que não têm a mesma possibilidade de resolver os prejuízos materiais e emocionais, e muito menos influência política para evitar que o caos se repita, e se repita, e se repita.

 
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