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Mais Médicos, menos Márcias – a ideia do Crivella merece atenção

Anteontem o prefeito Marcelo Crivella publicou na Folha um artigo onde afirma ter a solução para o mais médicos. É a PEC 77, de 2014, então aprovada com a ajuda do ora presidente eleito Jair Bolsonaro.

Basicamente a lei permite que os profissionais de Saúde das Forças Armadas, Bombeiros e Polícias Militares trabalhem em postos de saúde ou hospitais municipais, estaduais ou federais, como já era permitido que trabalhassem na iniciativa provada em horário de folga.

É, por assim dizer, uma Operação Delegada (DEJEM) invertida. Quem mora em São Paulo conhece o programa, onde prefeituras podem contratar Policiais Militares em horário de folga, que trabalham fardados. Sou favorável que a DEJEM seja estendida à iniciativa privada, exclusiva a Pessoas Jurídica, incluindo associações de moradores e comerciantes.

O prefeito carioca não diz o total de médicos e enfermeiros militares disponíveis no Brasil, mas sugere que há o suficiente para suprir os 8.332 cubanos que, teoricamente, abandonarão o país depois de Cuba reagir às declarações desastradas do presidente eleito cancelando sua participação no Mais Médicos.

Para além da turma da ativa, o prefeito soma os militares da Reserva. Resta saber se não há conflito em receber aposentadoria ou soldo equivalente e salário simultaneamente.

Curiosamente o artigo não teve repercussão. Mais atenção teve o General Mourão, apostando que metade dos médicos cubanos deve optar por pedir asilo e ficar por aqui. É compreensível, dada a permanência do clima eleitoral e sua influência na sociedade, inclusive na cobertura jornalística.

Paulo Guedes não foi perguntado ou evitou falar a propósito. Está se contendo nos assuntos econômicos. Mas por princípio é de se imaginar que, dependesse dele, os recursos do programa Mais Médicos destinados a exames clínicos e preventivos, fossem transformados em vouchers para a população se cuidar como bem entender.

De novo, tendo a concordar. Notadamente na parte clínica, acredito que com o modelo do velho médico de família, que atende as pessoas dentro de casa, verificando não só as condições de saúde, mas também a situação das próprias casas, só teríamos a ganhar em custo e benefício com o “pergunta lá no Posto Ipiranga da saúde”. Fora a vantagem política de diminuir o programas “Mais Márcias”, marca do Marcelo Crivella.

Mas a segunda parte do artigo Crivella fala diretamente com Paulo Guedes. É a justa reclamação da atenção à agenda municipalista na revisão do Pacto Federativo. Anota o prefeito que em 2017 o Rio mandou R$ 160 bilhões para Brasília e recebeu de volta míseros R$ 4 bilhões.

Claro que falta uma autocrítica ao prefeito Crivella. As isenções de IPTU e ITBI, impostos municipais, no Rio de Janeiro, privilegiam mais da metade dos endereços na Cidade Maravilhosa, já descontadas as favelas. Outro imposto municipal, o ISS, somado ao IPTU, tem pelo menos R$ 12 bilhões em haver concentrados em apenas quinze dos maiores devedores. Não cobra por quê, prefeito?

 
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“Se começar nesse tom comigo, a gente vai ter problema.”

 

“Se começar nesse tom comigo, a gente vai ter problema.” Nadadora de longa distância, a juíza Gabriela Hardt começou o interrogatório do ex-presidente Lula sufocando o folego que o petista imagina ainda ter.

Malandramente, Lula sofismava sobre a propriedade do sítio de Atibaia, enquanto a acusação era sobre ele ter se beneficiado das obras realizadas no local.

Os pedalinhos com os nomes dos seus netos, os remédios de manipulação com o nome da finada dona Marisa, a adega invejável e a coleção de camisetas de clubes de futebol com Lula grafado nas costas, somadas a e-mails e telefonemas provam que a família Lula da Silva era assídua por lá. Sem ter como negar o fato, Lula tentou escapar fingindo não saber do que era acusado. Não funcionou e agora a defesa quer falar de novo, caso a juíza venha a ser substituída.

Outra cafajestagem, ofuscada pelo tranco da doutora no depoente, foi o traço machista da resposta de Lula sobre a cozinha: “Não sei se a senhora é casada, mas seu marido entende pouco de cozinha, como eu.” A juíza ainda se deu ao trabalho de explicar que é divorciada e que não manja de cozinha.

É malandragem porque Lula não só entende de cozinha como gosta de falar a respeito, exaltando seu ensopado de coelho. É machista porque sugere que lugar de mulher é na cozinha e ainda mexe com a velha relevância do casamento para a mulher. Funcionou, tanto que a juíza respondeu, passando recibo.

No mesmo dia, 14 de novembro, Bolsonaro foi à Justiça Eleitoral. Na sede do TSE, ameaçado por pelo menos 17 inconsistências em sua prestação contas eleitorais, pediu desculpas à presidente Rosa Weber por insistir na dúvida sobre a lisura do processo, repetindo várias vezes que desconfiava das urnas e que sua não eleição seria fraude, ao que chamou de “caneladas”, atribuindo à temperatura elevada da campanha.

Bolsonaro é tão malandro quanto Lula. Ora, alimentar a desconfiança sobre as urnas, as instituições, a democracia não foi uma “canelada” que escapou no calor do embate, mas sua plataforma de campanha – uma das únicas, somadas a outras declarações cafajestes contra mulheres, gays, negros, pobres.

Mais experiente do que a colega da primeira instância, a ministra respondeu presenteando o presidente eleito com um exemplar da Constituição Federal. Luva de pelica contra cafajestada.

Exemplos de semelhanças entre os dois velhacos poderiam acabar por aí, mas foram além na semana que passou. A tão criticada diplomacia ideológica lulopetista foi substituída por seu equivalente ultraconservador delirante, como provam as posições do diplomata militante e chanceler indicado Ernesto Araújo.

Ainda antes da indicação já levávamos pitos da China, Europa, Egito / países árabes, Mercosul e até Cuba. Quando começar viajar de fato com seu chanceler, será comum Bolsonaro ouvir da comunidade internacional a frase que a juíza Hardt disse a Lula: “Se começar nesse tom comigo, a gente vai ter problema.”

 
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O novo chanceler e o tio do pavê

Igual a tudo na vida, tem um lado bom na escolha do novo chanceler Ernesto Araújo, que é deixar claro ao Brasil e ao mundo o que é o governo eleito. Retrato fiel da visão de mundo bolsonarista, a indicação do próximo ministro das Relações Exteriores pode render críticas diversas ao presidente eleito, exceto a de ser incoerente.

Militante do movimento chamado transnacional antiglobalista, crítico do que acredita ser o marxismo cultural, ameaça à soberania das nações, à família, à tradição judaico-cristã, que entende por civilização ocidental, Araújo terá poder para alinhar o Brasil às ideias que publica em seu blog.

Igual a tudo na vida, de novo, haverá consequências, e a maneira como somos vistos pelo mundo indica quais serão.

O Guga Chacra tuitou hoje que o chamado Ocidente, basicamente Europa, EUA e Canadá, exclui o Brasil e a América Latina do grupo. A ideia aparentemente nasce com o cientista político estadunidense Samuel Huntington, teórico do choque de civilizações, que entende a AL como um subgrupo da civilização ocidental. E note que, para Huntington, Austrália e Nova Zelândia pertencem ao primeiro time. Note também que Ernesto Araújo atualmente é diretor do departamento dos Estados Unidos, Canadá e Assuntos Interamericanos no Itamaraty.

A questão geográfica não tem mais tanta relevância. O que define Ocidente é a influência cultural greco-romana / judaico-cristã / Reforma Protestante / Iluminismo / Renascentismo. Argumentar que o Brasil tem muito de tudo isso misturado é irrelevante, e menos por termos somado ao caldo ingredientes indígenas, africanos, árabes e orientais, e mais porque a rigor somos marginais para a civilização ocidental.

Me parece improvável que um diplomata que defende o Brasil nacionalista antiglobalista latindo grosso no Palácio do Itamaraty nos ajudará nas relações internacionais. Principalmente porque, ao contrário do que pensa o novo chanceler, para o chamado Ocidente a melhor forma de civilização foi conquistada pelas revoluções inglesa, francesa, alemã, estadunidense, que consistem em liberdade, democracia, direitos humanos, tolerância, pluralidade.

Ocorre que na Casa Branca mora um sujeito que pensa parecido com Bolsonaro, e com efeito fortalece o ideário nacionalista no conteúdo e a malcriação na forma. Se vai dar certo a médio ou longo prazo é outra história. O fato é que entre outras barbaridades Trump pôde chamar um louco armado de bomba-atômica de foguetinho, esculachou o presidente francês dizendo que ele só não fala alemão graças à “great América”, mudou a embaixada dos EUA para Jerusalém.

Nosso problema é acreditar que podemos fazer o mesmo. É o que chamei de Complexo de Chihuahua – o cão-rato que, se olhando no espelho, acha que é um dobermann.

Antes da indicação do chanceler já temos problemas sérios para resolver porque fomos retaliados por Cuba. Por Cuba! Imagine o que será de nós se China, mundo árabe, Mercosul, Rússia, União Europeia engrossarem. Reparem na Inglaterra (a Inglaterra!) receando as consequências do Brexit.

Para entender quem somos ante o mundo, repare nas festas de final de ano. Em família, na firma ou entre amigos, você verá que o tio rico, o chefe ou o amigo que paga a conta terão público para as piadas ou histórias mais sem-graça. Agora experimente você, freguês pobre-diabo, fazer a piada do pavê.

 
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Mourão e Macedo serão os beneditos? / J. Levy

Jair Bolsonaro acumula façanhas. Pós facada, converteu votos de grupos vulneráveis que tratou ao longo da vida com desprezo, ganhando peso eleitoral na convalescência que lhe garantiu voto útil no primeiro turno. No segundo turno foi coroado como antipetista. Expressão maior do zeitgeist, o meme antagônico mostrava como: “Não vou perdoar o Bolsonaro por me fazer votar no PT.”

Já presidente eleito, Bolso mistura gols contra e a favor na várzea que a transição de governo virou em poucos dias. Em que pese o esforço admirável de Michel Temer em fazer o melhor que pode, da parte de quem entra a ausência de posições definidas vem tumultuando a partida muito além da conta.

Faltas diversas em política internacional, empurra-empurra com o Congresso, contas eleitorais pra lá de suspeitas, pito público direto da turma do supremo apito e até o juiz da Lava Jato confraternizando com o time vencedor no chuveiro, com direito a perdão público a quem fez gol de mão.

Para a institucionalidade tudo isso é muito ruim. Na economia, os atropelos diplomáticos indicam que a conta pode ficar alta, o rompimento com o presidente do Congresso enterra a possibilidade de votar mesmo parte da Previdência ainda este ano, as contas de campanha mal-explicadas ressuscitam o fantasma de 2014 no TSE.

Como se não bastasse, vem o Armínio Fraga, guru capitalista, lembrar que o sistema econômico tem esse nome porque supera o mercado financeiro, está “umbilicalmente” ligado a temas sociais, e para o governo dar certo, Estado de Direito, respeito às minorias, fim da desigualdade e cultura de paz no combate à violência são fundamentais.

E é aí que entra mais uma façanha de Jair Bolsonaro, por me fazer anotar aqui a esperança de que duas figuras em sua órbita ajudem a nos proteger: General Mourão e bispo Edir Macedo. Bem-ditos sejam.

O general e vice-presidente eleito tem evoluído bem em entrevistas, se mostra preparado e com noções claras – ainda que particulares – sobre política interna e externa, é fluente em outros idiomas, cita literatura, cinema e sua paixão por cavalos, características que, somadas e contrastadas com o resto do governo eleito, fazem do quatro estrelas um intelectual cheio de bossa. Ao Roberto D’Ávila, na Globo News, perguntado se praticava polo equestre, devolveu sorrindo: “Não, é um esporte muito violento.” E ainda citou Nelson Rodrigues: “Adoro.”

Nos costumes, área em que Bolsonaro se mostra mais atrasado, o contraponto de esperança para o Brasil, quem diria, vem de Edir Macedo. As galeras pelas redes implicam com a Fernanda Lima, supondo que ela, casada e mãe de gêmeos, pretenda destruir a família tradicional ou que faça campanha velada contra o ex-capitão. Mas quem prega e é ouvido por milhões de fiéis ao redor do mundo defendendo temas progressistas é o bispo, que desde o século passado afirma que a mulher deve decidir sobre o próprio corpo, inclusive com direito a aborto e ressaltando as implicações sociais da criminalização, e sobre homossexualidade diz que aceitaria um filho gay porque “se Deus respeita a livre opção de vida da criatura humana, por que não faria eu? “

Lembrando que o bispo da Igreja Universal do Reino de Deus controla 1) a TV Record, que deu um palanque de presente a Bolsonaro no mesmo horário do debate da TV Globo; 2) o PRB, com 30 deputados federais e um senador; 3) É aparentemente a maior influência em política internacional no governo eleito (o namoro com Israel é evangélico e os judeus estão segurando vela); 4) Anteontem ganhou autorização para criar a faculdade Republicana, voltada pata ciências políticas.

Em tempo: a expressão “será o Benedito?”  vem das especulações sobre quem Getúlio Vargas nomearia para interventor em Minas Gerais. Acabou se confirmando Benedito Valadares, extremamente popular. Foi quem alçou JK à política nacional, que se tornou muito maior do que ele.

Tem um paralelo com Joaquim Levy. Cacifado por Paulo Guedes para o BNDES, está comprometido com uma devassa nas contas do banco, plataforma bolsonarista. Como esse tipo de coisa se entrega mais depressa do que resultados na macroeconomia, em pouco tempo pode ficar mais popular do que o próprio Guedes, tornando-se um substituto conveniente para o até então insubstituível Posto Ipiranga.

 
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Educação? É a mãe!

Gente com os pés no chão merece aplausos. E a maneira como alguém reage a aplausos é um dos melhores indicativos para saber se esse alguém está com os pés no chão.

Portugal está sob aplausos da OCDE pela consistente melhora nos seus índices de Educação. Desde que o Pisa, teste que o chamado “clube dos países ricos” aplica sobre ciências, leitura e matemática começou a ser feito, nos anos 2000, a Terrinha avança um “bocadinho”.

Importante notar que nesse meio tempo Portugal sofreu fortemente com a crise econômica mundial de 2008 e é um dos países menos ricos do clube dos ricos.

O segredo para a melhora constante não foi grande investimento financeiro e tampouco algum plano mágico para o currículo. O que levou os portugueses de quinze anos de idade ao resultado acima da média da OCDE foi apostar além da escola, isto é, na comunidade escolar, espacialmente as mães e as crianças de zero a seis anos, c nos conta a repórter Carolina Pezzoni, da BBC Brasil.

Antonio Gomes Ferreira, sendo diretor da Faculdade de Psicologia e Educação da Universidade de Coimbra, é obviamente alguém que pela profissão e pelo posto merece celebrar o resultado e os aplausos. Só que não. Mantém os pés no chão, afirma que há muito a fazer e baixa a bola geral “O Pisa traduz uma boa evolução, mas não uma boa colocação: Portugal está apenas ligeiramente acima da OCDE, ocupando um lugar apenas mediano”.

E o professor Gomes Ferreira vai além, atribuindo o êxito nacional às mães dos alunos: “O indicador que mais influencia o rendimento escolar é a educação e a escolarização da mãe.”

Ainda: “”Se temos hoje mães mais educadas e mais encorajadas, é natural que tenhamos crianças mais capazes de se inserir na escola, de se envolver e de evoluir na escola.”

Mais: “Os países que apresentam melhores resultados educacionais são aqueles que são mais coesos socialmente, e geralmente são também sociedades menos violentas, mais eficientes, mais igualitárias, com mais qualidade de vida e bem-estar.”

Fico me perguntando como o Brasil espera resolver os problemas de Educação insistindo nesse modelo onde os filhos dos ricos são criados por babás e os filhos das babás são criados por ninguém.

 
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Bill Gates colocou duzentos milhões de dólares na privada

Crônica publicada no projeto Esquina Encontros Sobre Cidades do Estadão

Bill Gates botou mais de duzentos milhões de dólares na privada e foi a Pequim mostrar o resultado. Tendo em mãos um frasco contendo fezes humanas, abriu sua conferência na exposição Vaso Sanitário Reinventado.

Proporcional a um vidro de maionese, o frasco continha cocô só até a metade mas foi o bastante para transmitir a importância da mensagem: aquela pequena dose provavelmente incluía duzentos trilhões de rotavírus, vinte bilhões de bactérias Shigella e cem mil ovos de vermes parasitas.

Estar na China também contribuiu para o impacto, posto que automaticamente multiplicamos os números acima por 1,38 bilhões de pessoas / dia / ano e, antes de fechar a conta, nos lembramos que somos sete bilhões com pelo menos algo em comum.

Ocorre que, segundo a Organização Mundial da Saúde, 2,3 bilhões de pessoas não têm acesso a saneamento básico. No Brasil, estima-se que metade dos domicílios careçam de esgoto.

Com a explosão urbana ao redor do mundo, as comunidades surgem e crescem sem que a rede de saneamento seja capaz de acompanha-las, indicando que o modelo tradicional de coleta, usina de tratamento e redistribuição de água potável se tornou impossível, e talvez jamais seja universalizado.

O presidente da República Popular da China e Secretário-Geral do Partido Comunista Xi Jinping, atento à questão comunitária, ordenou que a chamada “revolução sanitária” fosse prioridade em seu governo.

No evento que durou três dias, vinte novas tecnologias para melhorar o saneamento básico foram apresentadas. Todas elas têm em comum sistemas que separam líquidos, sólidos e neutralizam elementos nocivos à saúde humana e ao Meio-Ambiente.

Depois de sete anos de investimentos em pesquisa, a Fundação Bill & Melinda Gates afirma que a questão tecnológica está resolvida e o próximo passo é fazer a conta fechar. Mesmo descontando os custos com água e produtos para tratamento de esgoto, o preço das novas tecnologias ainda precisa cair dez vezes para se tornar viável.

Palpite: incluir na conta o custo das obras para instalação de rede de esgoto e estimar o total de despesas em saúde com doenças relacionadas à falta de saneamento básico deve aproximar a revolução sanitária do seu objetivo.

Com todos os países e blocos diplomáticos se borrando de medo da tensão comercial entre chineses e americanos, a presença de Bill Gates em Pequim faz lembrar da visita do Secretário de Estado Henry Kissinger ao primeiro-ministro Chu En-lai em 1972. O anfitrião serviu chá, tratou de amenidades e propôs: “Vamos conversar sobre o que nos une.”

 
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A coisa não pública é melhor que a estatal e que a privada

Entro no site da minha escola e vejo a celebração: Universidade Presbiteriana Mackenzie – eleita por 7 anos consecutivos a melhor universidade não pública do estado de São Paulo.

É mesmo uma maravilha mas o que eu queria dizer é da importância do termo “não pública”, muito diferente de “privada”.

Na onda liberal que chegou ao Brasil, quebrando a torto e a direito conforme a conveniência do palestrante, o debate vai morrendo afogado antes de chegar à praia.

Num extremo, gente que acha que o Estado tem que fazer quase tudo, notadamente Educação e Saúde. No outro, a turma da autoconfiança cega pela certeza de que o boi só engorda sob o olhar do dono. E como se não bastasse, ainda têm os malucos que acham que pode haver um dono do Estado – mas esses vamos deixa pra lá. Hoje é sexta-feira.

A beleza do termo “não pública” é mostrar, para um lado, que a sociedade organizada pode prestar com excelência os serviços essenciais, inclusive saúde e educação e, para o outro lado, que a inexistência de um dono tende a ser melhor.

Excelência em serviço “não público” em Educação vale da universidade à escola de base, e melhor do que eu argumentar é citar os exemplos: São Luiz, Santa Cruz, Santo Américo, Dante Alighieri, Mack, PUC, FAAP.

Para falar de Saúde dá para ir na mesma linha: Oswaldo Cruz, Santa Catarina, HCor, Sírio Libanês, Albert Einstein, Santa Casa de Misericórdia (foi quem salvou a vida do presidente eleito).

Todos as entidades dos dois parágrafos acima criaram, através das décadas, modelos semelhantes de controle e participação social.

Ah, mas custa caro e pouca gente pode pagar. Será? Vale a pena se desarmar e pensar nas possibilidades de parceria. Em Educação Fernando Haddad fez os vouchers do FIES e do PROUNI. Na Saúde João Doria fez o Corujão.

Na Habitação Lula fez o Minha Casa, Minha Vida, Gilberto Kassab fez o Jardim Edith, Geraldo Alckmin fez o Complexo Júlio Prestes. Temos PPPs exitosas em Transportes, Energia, Saneamento e até em Segurança.

Na iniciativa privada o conceito “não público” também parece funcionar melhor. As maiores e mais longevas empresas do mundo são as que conseguiram superar a figura do dono ou sua família, substituídos por conselhos e milhares de acionistas.

Inclusive no primeiro setor temos bons exemplos. FHC privatizou a Vale, que se agigantou, e fez a maior reforma agrária. No agro, os melhores casos estão em empresas ou cooperativas que superaram o sinhozinho ou o coroné.

Hoje as empresas mais valiosas ainda têm donos, é verdade. Apple, Amazon, Alphabet, Microsoft, Facebook. O que todas têm em comum? São jovens, só existem porque o Estado americano criou a internet e estão causando problemas graves mundo afora justamente pela concentração de poder.

Duvido que o mais fervoroso liberal encontre argumentos para defender a manutenção desse estado de coisas. E deus nos livre de quem possa imaginar algum Estado controlando tudo isso. A saída para a sociedade é clara: tomar as rédeas ou cair do cavalo.

 
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Lei Onyx

Roberto Requião, quem diria, merece aplausos. Em sintonia com seu conterrâneo Sérgio Moro, próximo ministro da Justiça, o senador do MDB do Paraná apresentou o PL 434/2018 que acrescenta à lei 12.850/2013 “a possibilidade de o juiz conceder perdão judicial em caso de crimes eleitorais, contra a administração pública e contra o sistema financeiro nacional caso o réu demonstre arrependimento, confesse a prática do crime e apresente pedido público de perdão e dispensa da pena.” A notícia é da repórter Juliana Braga, da Coluna do Estadão.

Faz sentido. Na primeira entrevista coletiva concedida depois de aceitar o convite do presidente eleito Jair Bolsonaro – cuja data permanece misteriosa –, perguntado sobre a situação jurídica do colega de equipe Onix Lorenzoni, Moro respondeu que o deputado “admitiu o erro, pediu desculpas e tomou providências para repara-lo”.

É bonito ver como a política engrandece e enobrece corações e mentes. Bastou que o até anteontem implacável magistrado trocasse a toga pela cartola para que, como num passe de mágica, o espírito do juiz se tornasse compreensivo, solidário, maleável. O efeito republicano é fantástico. Pela primeira vez em muito tempo não se via os Poderes funcionando com tanta afinação.

 

 

 
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Ministério da Família

Vão dizer que eu sou implicante com o Bolso. Paciência. Ocorre que, até quando eu gostaria de elogiar, o presidente eleito acaba me decepcionando.

Ainda ontem especulava-se sobre quem estaria à frente do ministério da Família. Fiquei de olho na equipe de transição para quiçá conseguir um furo sobre as diretrizes da nova pasta. Acionei ferramenta de busca automática para ser avisado sobre qualquer movimento.

Hoje pela manhã, balde de água fria. O Antagonista deu que um dos filhos do ex-capitão afirma que papai desistiu da Família, assim, com F maiúsculo, significando o ministério.

Ainda que não tenha votado nele, me sinto frustrado. A promessa de um ministério inteiramente dedicado à reestruturação da família, somada ao compromisso de voltarmos a ser o que fomos há cinquenta anos era acalentadora.

Contribuiu para aumentar minha expectativa os termos da conversa entre Bolsonaro e Michel Temer. Segundo o presidente eleito, o presidente atual está disposto a colaborar com o novo governo “no que for possível”.

Ligando lé com cré, considerei que, estando Temer enrolado com a Justiça, não será possível aproveita-lo no próximo governo, que obviamente será pautado pela probidade. Pegaria mal. Daí que a única possibilidade de colaboração que posso imaginar é a indicação da primeira-dama Marcela Temer para ministra da Família. Bela, recatada, do lar e acostumada à serenidade dos áureos tempos da sagrada instituição, seria formidável.

Minha preocupação maior é com o prazo. Mais urgente do que a Previdência é o país saber como será o próximo carnaval, que pela tradição mais recente despontará nas principais capitais brasileiras trinta dias depois do desfile de posse.

Da parte das autoridades convém amaciar os militares e o juiz-ministro, que serão homenageados com máscaras, fantasias e marchinhas, às quais não estão acostumados. É claro que pelas ruas teremos tenente beijando cabo, general comendo brisadeiro, aspirante cheirando lanceiro e outros chistes desse povo cafajeste. Meretríssimas de mini-toga, bidês da lava jato, Têmis balançando as vergonhas também prometem.

Da parte da família urge uma cartilha para saber como deverão se comportar as senhoras honestas, isto é, as casadas. Continuarão submetidas à doutrinação de igualdade? O tal empoderamento seguirá impedindo que o homem de bem possa brincar o carnaval sem ouvir mimimi? Ou não é meritório que o homem que trabalha possa foliar três, quatro, no máximo trinta dias sem dar satisfação em casa?

Para não dizerem que não tentei ajudar, segue minha sugestão: ouçam o Ary Barroso.

“Fica decretado que o homem que sair pela avenida de camisa amarela poderá exibir à sua senhora um sorriso de ironia e desaparecer no turbilhão da galeria, bem chumbado, bem mamado, atrapalhado. Poderá o homem de bem cantar a Florisbela, desde que volte ao lar até às cinco horas da manhã de uma quarta-feira, cantando a Jardineira. A mulher honesta deve esperar seu pedaço tendo em mãos um copo d’água com bicarbonato e gostar dele assim, certa de que ‘passada a quarta-feira ele é pra mim’. Brasil acima de tudo e Nosso Senhor do Bonfim acima de todos.”

 
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Ah, insensatez…

A cerimônia de aniversário de 30 anos da Constituição, ontem, no Congresso, ficou marcada pela troca do nome do tenor escalado para cantar o hino nacional.

Jean William, nos conta Mônica Bergamo na Folha de hoje, foi apresentado como Jean Silva, por receio dos organizadores em desagradar o presidente eleito Jair Bolsonaro, que poderia confundir com Jean Willys. Logo ele, que deve tanto do seu protagonismo às contendas com o colega deputado, reeleito pelo Rio de Janeiro.

Lendo a coluna me lembrei da frase do meu professor de Filosofia e Ciências da Religião Gerson Leite de Moraes.

Dias antes das eleições, notando o sentimento social, pontuou a aula com esta máxima: “A tradição judaico-cristã sobreviveu a Kant, Hegel, Marx, Nietzsche. Não se preocupem com Jean Willys.”

 
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