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Vassoura de bruxa no governo Bolsonaro

Com o que havia sido publicado até a noite de sexta-feira 18/1, Flávio Bolsonaro não era investigado nem tinha necessariamente culpa no cartório. Escrevi a respeito no texto anterior.

Inclusive a entrevista exibida naquela noite pela TV Record, gravada durante a tarde, era baseada na investigação sobre os queirozes, e até aquele momento implicavam, além de Fabrício e sua filhas, o primeiro-casal da República, Michelle e Jair.

Então veio o Jornal Nacional e enriqueceu o caldo mostrando que o senador eleito Flávio Bolsonaro, vulgo Zero Um, recebeu R$ 96 mil em dinheiro vivo num período de cinco dias, entre junho e julho de 2017, fracionados em 48 depósitos de R$ 2 mil. O ora ministro Sérgio Moro já escreveu que a prática indica lavagem de dinheiro e tentativa de driblar o COAF – órgão que agora está sob o seu guarda-chuva.

A coisa não parou por aí. Nesta manhã de segunda-feira 21/1, aniversário de três semanas (!) do governo Bolsonaro, já é público que Flávio Bolsonaro comprou R$ 4,2 milhões em imóveis num período de três anos, o mesmo em que Fabrício Queiroz movimentou R$ 7 milhões.

Com salários brutos de R$ 25,3 mil e R$ 10 mil respectivamente, Flávio e Fabrício atribuem a riqueza ao empreendedorismo. O deputado e senador eleito teria duas franquias de chocolates e investimentos imobiliários, e seu assessor “fazia dinheiro” comercializando caros usados.

Para quem entrou para a vida pública tendo só um Gol 1000 declarado por patrimônio, Flávio personifica o “sonho americano” representado pelas réplicas da Estátua da Liberdade instaladas na Barra da Tijuca e nas fachadas das lojas Havan.

A piada pronta, ingrediente básico da crônica política brasileira, fica por conta do endereço do imóvel original da fortuna de Flávio Bolsonaro: o descolado bairro das Laranjeiras. E outra: entre as receitas clássicas da Kopenhagen, marca representada pelo deputado, se destaca o chocolate Chumbinho.

Bom, tudo isso muda a explicação sobre a apelação de Flávio ao Supremo. Tendo acesso à investigação do MP-RJ sobre os dados do COAF, Zero Um correu para debaixo da toga do ministro Luz Fux. Pode ter sido um ato desesperado para salvar a própria pele, como aponta o pedido de anulação de provas. Mas não altera o fato de que, levando oficialmente a peleja à Brasília, prejudicou – e muito – o próprio pai.

Note, freguesa: o governo tem vinte dias, os poderes Judiciário e Legislativo ainda estão de folga e já temos esse espetáculo burlesco. Com o fim do recesso a tendência é piorar.

Como antecipei aqui, a suposta base do governo rachou antes de tomar posse em disputas internas, viagem à China, OakLavo dizendo que não é “guru dessa porcaria”, ativista filiado ao PSL acusando membro da comitiva chinesa de ter traficado cocaína no acampamento pró-impeachment.

Com a abertura do ano Legislativo, que deve começar em batalha campal pela Reforma da Previdência, o estica-e-puxa vai se acentuar. Pelegada, militares, barnabés, a fim de manter seus privilégios, ajudarão muito o trabalho da oposição.

Lembrando que CPI é um instrumento da minoria, precisando de apenas 1/3 de uma das casas legislativas para ser instalada, a chance da oposição emplacar a CPI do COAF é enorme. E, como também já botei aqui, há motivos para justificar a convocação de figuras centrais do governo, entre elas os super-ministros Moro, PaGue, o vice-presidente general Mourão e a primeira-dama Michelle Bolsonaro.

Piada derradeira, em homenagem ao empreendedorismo cacaueiro do senador Bolsonaro, a operação Furna da Onça poderia ser rebatizada por Vassoura de Bruxa.

 
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Flávio chamou o Hugo e botou fogo no circo do pai

Operado no Einstein pelo melhor médico que existe, um tal doutor Vladmir que, de tão bom, nem sobrenome usa, Fabrício Queiroz mostrou que, na hora do aperto, não economiza.

Morador de uma casa sem reboco em Taquara, no Rio, bairro pobre que faz divisa com Cidade de Deus, o amigo do presidente Jair Bolsonaro gastou muito mais do que conseguiu como chofer de Flávio Bolsonaro e boqueiro de automóveis para passar a virada do ano no Morumbi, em SP.

Quem poderá dizer que está errado? Saúde em primeiro lugar. O resto se ajeita. E que bom foi vê-lo convalescendo bem, com disposição até para uma contradança de Ano-Bom. Isso é o que vale.

Num distante segundo lugar, outra especialidade que merece esforço financeiro hercúleo é advogado. Vai economizar com isso daí? Depois entra bem e vai reclamar pra quem?

Igual a Queiroz, Flávio Bolsonaro não economizou. Mesmo sem ser investigado, chamou o Hugo. Mais exatamente, doutor Hugo Mendes Plutarco, constitucionalista brasiliense, que ajuizou no Supremo o pedido de prerrogativa de foro para o cliente, no que foi atendido pelo ministro plantonista Luiz Fux.

Em matéria de comunicação, posso afirmar que a estratégia é camicase. O alicerce da grife Bolsonaro é a crítica dos privilégios chapa-branca – ainda que tenha se lambuzado a vida toda com cada um deles – e da intransigência com a corrupção. Flávio literalmente chutou o pau da barraca.

Juridicamente, quem é do ramo afirma que o primeiro filho botou fogo no circo do pai (antecipei a impressão aqui). Ao cabo do recesso, o caso será analisado e relatado pelo ministro Marco Aurélio Mello, que usa toga à prova de bala e, de leão a palhaço, nunca receou o picadeiro.

Pior: por envolver um senador, na Corte o caso pode evoluir para a Primeira Turma, que inclui o decano Celso de Melo, Carmen Lúcia, Gilmar Mendes, Edson Fachin e é presidida por Ricardo Lewandowski – todos já muito elogiados pelo clã. Ainda: subindo para Brasília, o caso deverá ser analisado pela PGR Raquel Dodge, e não mais pelo até aqui condescendente e limitado MP-RJ, o que obrigaria a procuradora pedir ampliação da investigação, dado o envolvimento direto de Michelle Bolsonaro no caso.

Tudo isso pode dar em nada e voltar para a Guanabara, posto que existe no Supremo o entendimento de que o foro privilegiado é restrito a atos praticados durante o mandato da autoridade que dele goza. Mas como não está regulamentado, tudo pode acontecer.

 
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“Nova política” enferrujada

Órgãos públicos de todas as esferas administrativas não podem mais exigir reconhecimento de firma. Nem autenticação de cópia de documento. Ou pedir apresentação de certidão de nascimento e muito menos título de eleitor. Agora o servidor deve comparar a assinatura do cidadão com o documento de identidade.

Mais: cada repartição poderá criar um grupo de trabalho próprio para identificar burocracias e procedimentos exagerados e propor sua simplificação.

Agora adivinhe entre dois tipos de político quem é o autor da lei: um aristocrata pernambucano, hexaneto de colonizador, filho de governador, industrial, ex-presidente de entidade patronal, ex-deputado federal e atual senador pelo PTB; ou um youtuber que acabou de aterrissar em Brasília e botou pra quebrar.

Creio que a pegadinha está clara. O autor da lei, sancionada em setembro pelo presidente Michel Temer e já em vigor, é o senador Armando Monteiro (PTB-PE). Na última eleição ele disputou e perdeu o governo de Pernambuco. Perderam mais Pernambuco e o Brasil, que ficarão sem um quadro desse quilate.

De Serra Talhada para São Paulo, no final do ano passado o prefeito Bruno Covas conseguiu aprovar a reforma da previdência paulistana na Câmara Municipal. Essencialmente, aumentou a contribuição dos funcionários públicos de 11% para 14%. Isto é, igual o sorriso do Mario Quintana, pouco para quem dá e muito para quem recebe.

Ainda é algo paliativo, mas deu fôlego às contas da prefeitura e, minimamente, foi bom verificar a sensatez dos vereadores ao recusarem a ideia de usar possíveis recursos de privatizações para custeio da máquina, que a rigor é a mesma coisa que vender a prataria para fazer supermercado.

De qualquer maneira, custou caro. Secretarias, subprefeituras e outros cargos foram disponibilizados ou mantidos com os nobres edis. Na primeira tentativa, ainda sob o breve João Doria, o vereador Massataka Ota (PSB) ousou fazer oposição e perdeu vinte cargos.

A cereja do bolo no toma-lá-dá-cá veio com o decreto, baixado de supetão pelo prefeito Covas e sem ouvir a Câmara, oficializando burocracias mil para os aplicativos de carona na cidade, como Uber, 99 e Cabify. Doce na boca do vereador Adilson Amadeu, que segue encantando incautos taxistas. (Sobre máfia de alvarás, frotas e pontos, a gestão segue fingindo que não vê.)

E a velinha, quem soprou? Sem dúvida, o partido Novo, que em seu aniversário de dois anos da primeira eleição, entregou-se sem pudor à velha politicagem.

Tendo feito campanha defendendo com vigor a liberdade dos aplicativos e da livre iniciativa em geral, a vereadora Janaina Lima (NOVO) votou a favor da reforma da previdência e, sim, chegou a protestar contrariamente ao decreto dos apps. Mas se comparada à gritaria dos outro “novo”, Fernando Holiday (MBL/DEM), podemos dizer que foi bastante tímida.

A explicação para a posição da vereadora chegou na edição de hoje do Diário Oficial. Candidato derrotado a deputado estadual pelo partido Novo, João Grande, que também defendia a liberdade para aplicativos, ganhou a subprefeitura de Pinheiros.

É a mais emblemática, mas não a primeira demonstração de contaminação do Novo. Se institucionalmente o partido teve êxito quando dissuadiu internamente a ideia da vereadora Lima em criar o feriado da Mulher Empreendedora, rasgou o próprio estatuto ao manter filiado Leandro Lyra, vereador carioca que desdenhou da regra combinada e tentou saltar da Câmara do Rio de Janeiro para a Federal com mandato pela metade.

Igual fez Janaina Lima, o partido vetou a tentativa, publicou carta, mas deixou estar. Derrotado na eleição, Lyra reassumiu a vereança e parece estar em paz com a legenda.

Sabe aquela cor laranja que distingue o Novo? É ferrugem.

 
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Previdência desarmada

Supondo que a Bic planaltina tivesse ontem deslizado sobre a proposta de reforma da Previdência, e não sobre alterações normativas para posse de arma de fogo, pode-se imaginar que efeito sobre o chamado mercado seria igual ao verificado com as ações da Taurus Armas.

Até anteontem chamada Forjas Taurus, a companhia mudou de nome na véspera do decreto e, no Dia D, viu suas ações despencarem em quase ¼, mais exatamente 22,2 %. Queridinha do mercado desde que Bolsonaro passou a ser candidato viável, a ação preferencial da Taurus disparou de R$ 2 em agosto para R$ 8,86 na manhã de terça-feira, e fechou a R$ 6,4 no fim da tarde. Miriam Leitão explica bem por que (O Globo).

Taurus é um papel marginal, de baixa liquidez e ruim de transar. Mas no mercado tem tesão para tudo e uns e outros devem ter ganhado seus caraminguás brincando com o investimento. Com certeza rendeu conversas excitadas nos treinos de corrida hoje pela manhã. Uhu.

Politicamente a medida tem dois lados. Muito aquém do que o candidato Bolsonaro prometia, como porte liberado e fuzil 762 para fazendeiro, a rigor o decreto foi um traque. Já para quem não pode sequer ouvir falar em pólvora, foi um estrondo. Para o governo a parte boa é desviar a atenção geral para o que realmente importa: medidas consequentes para Segurança Pública e agenda econômica que possa desafogar o brasileiro que está latindo no quintal para economizar cachorro. Pistolinha é o novo “menino veste rosa, menina veste azul”.

Para além dessa discussão diversionista, o mercado segue trabalhando com a certeza de que o paiol do governo está abastecido de popularidade para fazer passar a reforma da Previdência. Do financeiro ao imobiliário, do agro ao industrial, passando pela alta expectativa popular com a economia, a esperança com o governo depende diretamente do êxito do ministro PaGue.

A diferença é que a reforma da Previdência tem que passar pelo Congresso. Não pode ser feita por decreto. E, mesmo que pudesse, se vier morna como a norma para armas, será vomitada. Se vier com a chicana usada no decreto armamentista, que escolheu e fixou como referência dados de 2016, e não de 2018, idem.

Problema: os lobbys dos principais privilegiados estão fortíssimos. Funcionários públicos são os grandes poderosos no Legislativo. A primeira base eleitoral de cada congressista é feita de barnabés indicados e/ou concursados nos trens da alegria. No Executivo, só no auge da ditadura militar se viu tamanha festa do pijama – nem o Marechal Castello Branco teve tantos auxiliares militares. Conciliar essas turmas com o interesse nacional será difícil.

PaGue terá que decidir entre traque e estrondo e nos ouvidos de quem. Se errar, poderá ver o mercado derretendo como as ações das Forjas Taurus.

* O conteúdo foi alterado

 
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Três notas sobre armas

1) O presidente Jair Bolsonaro já perdeu uma arma pessoal para o crime num assalto;

2) O enteado de Fabrício Queiroz suicidou-se com a arma do padrasto em casa;

3) As armas fabricadas no Brasil são de péssima qualidade. Há relatos de policiais feridos em serviço por disparos acidentais. Num paralelo entre o governo atual e um mais antigo de memória infame, armas brasileiras são o que Fernando Collor chamaria de “carroças”, criticando a indústria automotiva nacional. Quase trinta anos depois, ricos continuam importando carros que salvam vidas e pobres seguem morrendo em lamentáveis carroças.

 
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Pátria armada, Brasil

Rufo de tambores pelo decreto armamentista de Bolsonaro. Mas o que deve sair da assinatura é um traque, ainda que aos ouvidos de quem rejeita a flexibilização soe como estrondo e, aos que esperam viver em Dallas, possa parecer chabu.

O que há de mais perigoso no decreto é o brasileiro. O comentário do general Augusto Heleno é indicativo. O ministro relacionou mortes no trânsito com mortes causadas por arma de fogo para defender o novo texto. Tanto carros quanto armas matam em torno de 40 mil brasileiros por ano, respectiva e aproximadamente 38 e 44 mil pessoas.

Olhando como tratamos de forma irresponsável a posse e o uso de carros, fruto de uma cultura enraizada de impunidade, irresponsabilidade, sensação de poder e individualismo que se retroalimentam, podemos antecipar o efeito da medida armamentista. Não pelo que estará escrito na regulamentação que estará em vigor, mas pela maneira como a sociedade deve recebe-la. O Código de Trânsito é respeitável. Mas funciona?

No uso de carros compramos carta, dirigimos bêbados, desdenhamos da burocracia de licenciamento, das regras de segurança, permitimos que menores guiem. (Sim, a primeira pessoa é parte da autocrítica.)

Com armas não deve ser diferente. Note: ela não vem num momento minimamente arrazoado. Pelo contrário, chega como cumprimento de promessa de uma campanha pra lá de apaixonada. A confusão entre o significado de posse e porte está posta. O efeito pode ser nocivo.

Por outro lado, não me parece razoável colocar o país inteiro no mesmo pacote. As condições de vida e de presença do Estado num país continental variam muito. Bem como as condições sociais. Por quê o grande varejista bilionário, vivendo no Jardim América em São Paulo, pode ter um exército com centenas de seguranças armados, e o dono da venda na Transpantaneira não pode ter sua carabina?

Quando falamos em Segurança, a impressão geral é que tratamos de polícia. Só que não. A sensação de impunidade está diretamente ligada à desigualdade. Há um abismo entre o tratamento que o jovem maconheiro da classe média e o favelado recebem da polícia. Vale também para os delitos grandes ou pequenos. E as pessoas sentem isso. Traduzindo, o desespero social é uma questão antes de Justiça do que de Segurança.

Para mim o Instituto Sou da Paz acerta na crítica às premissas do decreto atacando esse ponto. Apesar de menos burocrático, na letra da lei ter arma em casa continuará sendo acessível para muito poucos. De novo desigualdade – que é o outro nome da injustiça.

 
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A Previdência e a Festa do Pijama

O governo atual aproveitou diversos militares da Reserva em sua composição. A Festa do Pijama só não é o novo Trem da Alegria porque este segue firme, como sempre, promovendo filho de vice-presidente e nomeando amigos políticos do titular e dos príncipes consortes.

Por princípio, nada contra. O presidente Bolsonaro é militar, escolheu seus “pais intelectuais” neste universo e, como todo filho desgarrado que dá a volta por cima, agora faz as pazes convidando os velhos que o repreenderam na juventude para um ágape.

Prestigiadíssimos nas cerimônias de troca de comando, com destaque para a Marinha, arma mais elegante, a qual o presidente da República compareceu num charmoso iate Cabras-Mar escoltado por borrachudos, e do Exército, estrelando o carismático general Villas-Boas, os militares vêm sendo bastante paparicados.

Na berlinda, uns falam disso, outros daquilo. Mas sem exceção todos falam da Previdência, sem o cuidado de evitar parecer legislar em causa própria.

Quem defende os militares no governo diz que eles são bem-formados, patriotas, capazes e devem ser aproveitados. Beleza, dá para segurar a narrativa numa boa. Dizem também que são disciplinados – em que contrapese uma tonelada de fatos históricos, incluindo a trajetória do próprio presidente da República.

Os mesmos defensores, por acaso, são os que falam com mais vigor a favor da sabedoria e capacidade de depuração do “mercado”, onde vigoraria a verdadeira seleção natural, sem margem para nomeações citadas no parágrafo um.

Para quem ainda não percebeu, aí entra o conflito. Se os militares da Reserva têm tanto a oferecer ao governo, por quê haveriam de ser desperdiçados pela iniciativa privada?

Que ninguém se surpreenda com as próximas composições de conselhos e até de diretorias dos bancos, empreiteiras, industrias e entidades daqui pra frente. Haverá militares. Pelo menos um para cada – igual dizem do sorteio de automóveis promovido pela Febraban nas festas de fim de ano para o Judiciário.

Mas não exatamente pela lógica da seleção natural, que só será provada na próxima mudança de governo. Isto é, quando o peso da caserna não for tão relevante, trabalhando no mercado sobreviverão exclusivamente os muito bons. Quantos serão?

Sabendo disso, eles insistem em regime de Previdência diferenciado para a classe. Vá lá. Não estão sozinhos. A batalha setorial pela brasa mais intensa juntará assombrosos cardumes de sardinhas capazes de esvaziar Ipanema em domingo ensolarado. PaGue que se cuide no footing.

Por coerência e afirmação do jactado senso de patriotismo, que seria maior do que o de qualquer outra classe, das duas lógicas os militares deveriam escolher uma.

 
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Correr sob a tempestade

O vento já tinha soprado: chuva. E eu, exausto às 15h00 daquela terça-feira, sigo sem saber se não entendi o recado ou se aceitei o convite.

No meu itinerário, de obrigatório, só passar no café Munik para acertar uma pendura. Aproveitei para tomar outro curto. Então deixei para trás a Zé Maria Lisboa e desci a Pamplona já me esquivando dos primeiros pingos – ou suingando a procura de mais gotas. Vai saber…

No Jardim Paulista horizontal a chuva já caía forte, embalada pelo vento. Os estalos no céu ecoavam espantando a cachorrada que costuma latir a quem passa. Exceto um labrador, que gosta mais de água do que dos próprios tímpanos.

Quando alcancei a Veneza, a rua já fazia jus ao nome, e o balanço das árvores, como que prometendo a criação de pontes instantâneas não era animador. Que fazer? Voltar ou seguir? Me deixei levar.

Na Manoel da Nóbrega o horizonte oferecido era um paredão de chumbo, que cindia a cada minuto com relâmpagos de ofuscar. No Deixa-Que-Eu-Empurro, esperando o verde, os carros que passavam pareciam mais assustados do que eu. Curiosa proteção que sufoca. Ou seria a liberdade que encoraja?

Encosta ao meu lado um ciclista, desses bastante equipados, inclusive com barba nômade, que talvez notando minha excitação, comenta: “Não é uma delícia correr sob a tempestade? Na Estrada dos Romeiros é maravilhoso. Se puder experimente.” Partiu.

Entrei no parque aparentemente vazio. Ondas no lago. Os jatos da fonte, como velas, se apagando subjugados pela força da natureza, que como vela inflava a lona de um vendedor de coco.

Pensei em me esticar na estação do Santander, mas definitivamente o aço não combina com descargas elétricas estourando no céu.

Igual a toda gente eu aprendi que ante a tempestade o caso é de se recolher. É o que os bichos fazem – noves fora o labrador e os cisnes negros. Uma eventual freguesa bióloga por favor me explique, se puder, por quê sob a chuva de vento as aves brancas se concentram em maioria às margens do lago, e as negras ficam brincando contra a correnteza.

Meu olhar intrigado para as aves devia ser igual ao das pessoas abrigadas para mim, que da marquise me olhavam como a um fugitivo do Pinel. Bem diferente eram os outros poucos corredores, que se sob o sol cruzam indiferentes os demais, sob chuva escancaram solidariedade. Os malucos se identificam.

Entendo quem foi ao parque aproveitar uma tarde de verão e preferiu o abrigo da marquise para não voltar ensopado. Mas não entendo a multidão que fez o mesmo nos banheiros, especialmente pela vastidão de cheiros que o toró proporciona. Para eles a expressão de incompreensão foi recíproca.

Ir à praia à noite, comer salada de tomate com cebola de manhã (obrigado, tia Maúcha!), pegar sessão da tarde no cinema em dia “útil”. E correr sob a tempestade. Recomendo.

Chuva é água benta.

 
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Michelle e Jair ao mar

Queiroz é a herança maldita que Bolsonaro deixou para o primeiro filho. Quando Flávio nasceu, Fabrício já era amigo de Jair. Puxadinho eleitoral do pai, o varão teve que guardar o esqueleto em seu gabinete na mal-assombrada Alerj.

Flávio não é o único puxadinho. Seus irmãos Carlos e Eduardo também são; assim como Rogéria, mãe dos três, foi um dia. E o mais recente chama-se Hélio Bolsonaro, ou Hélio Negão, deputado federal eleito que trabalha como sombra de Jair.

A diferença entre Flávio e a família é nítida. Dos que falam, ele é o único que parece razoável – e todo mundo sabe como alguém razoável incomoda gente ensandecida. Desenhando, é aquele amigo que no quebra-pau faz o deixa-disso, em contraponto aos que entram dando voadora. Talvez isso explique o isolamento de Flávio na família.

Para gente razoável é constrangedor ter explicar o inexplicável, donde se compreende que Flávio tenha fugido da audiência no MP-RJ marcada para ontem, quinta-feira dez de janeiro. Assim como Queiroz, preferiu ir ao SBT. Porém, quando abriram-se as Portas da Esperança…

Flávio pontuou que não tem como saber  o que seus funcionários fazem fora do gabinete, ao passo que Jair já afirmou que sim, sabia dos rolos do amigo Queiroz.

Flávio foi além, dizendo que a soma dos salários de Queiroz e família chega perto do total detectado pelo COAF. Ora, o salário de Nathalia Queiroz ela recebia do gabinete de Jair, enquanto dava expediente em academia de ginástica no Rio de Janeiro, e transferia tudo para a conta do pai, Queiroz, cujos cheques foram parar na conta de Michelle Bolsonaro.

Desenhando de novo, o que está nas entrelinhas de Flávio, ato falho ou não, é o seguinte: Queiroz trabalhava em seu gabinete, onde dava expediente e recebia salário. Se ele tinha uma filha laranja no gabinete do Jair, que transferia dinheiro para a conta da Michelle, problema deles.

Sendo deputado estadual e senador eleito, Flávio goza da prerrogativa de marcar data e local para falar ao MP. Sendo presidente da República, Jair tem prerrogativas ainda mais amplas, inclusive a de só responder pelo que fez durante o mandato. Resta saber o que protegerá a primeira-dama Michelle Bolsonaro.

Lá em Minas Gerais a ex-primeira-dama Carolina Pimentel se viu enrolada na Justiça e seu marido, o ex-governador petista Fernando Pimentel, a fez secretaria de Estado para garantir foro privilegiado.

Michelle Bolsonaro talvez não tenha a mesma sorte. Se Jair topar abrir mais uma vaga na Esplanada para protege-la, ou mesmo substituir alguém – quiçá a famigerada Damares – além de piorar a situação política pode não resolver a jurídica, posto que entendimentos recentes restringem o foro privilegiado a atividades diretamente relacionadas ao cargo em exercício.

No navio dos Bolso, a fila na prancha está tão embolada quanto dentro do Planalto. Flávio deixou claro que não quer se molhar. Jair tem bom colete. E Michelle, sabe nadar?

 
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Gabrieéla, fala Gabriéla…

O processo contra Lula não é político – ou pelo menos não exclusivamente. Notadamente no caso do sítio em Atibaia, há provas para muito além do que o vulgar chama de batom na cueca para embasar a denúncia do MP.

Da adega aos pedalinhos, passando por e-mails e telefonemas, chegando a camisetas de futebol e remédios de manipulação com os nomes do ex-presidente e sua falecida senhora, é óbvio que os Lula da Silva usufruíam do lugar, comprovadamente reformado por empreiteiras enroladas no petrolão.

Sabendo disso, a defesa se sacode e concentra o argumento nos indícios de politização do caso, e a Lava Jato retribui:

1)   o então juiz Sérgio Moro levantou parte – e apenas a parte referente a Lula e Dilma – da delação de Antonio Palocci às vésperas da eleição;

2)   General Mourão disse que Moro esteve com PaGue tratando de sua ida para o ministério da Justiça no mesmo período, este que coincide com a publicação do relatório do COAF sobre o laranjal da família Bolsonaro, encontrado na operação Furna da Onça, desdobramento da Lava Jato.

O ministro Moro tem obrigação de esclarecer cada ponto, até porque se furtando de faze-lo, desgasta sua imagem, atrapalha o governo e… favorece Lula.

Nesse teatro não tem ninguém bobo. Mas Lula é politicamente muito mais esperto do que Bolsonaro e Moro somados, como prova o resultado da eleição: de uma cela em Curitiba, elegeu todos os governadores do Nordeste e o PT fez a maior bancada da Câmara Federal.

Antes que alguém apaixonado discorde, rogo para que olhe a evolução de Bolsonaro, que parece continuar em campanha, buscando manter e ampliar os dividendos eleitorais que o antagonizar com Lula proporciona. Ainda soma êxitos com seu eleitorado, mas deveria se lembrar que assim alimenta Lula.

O risco dessa conta apaixonada, principalmente para quem ama Bolsonaro porque odeia Lula, é que se o governo atual continuar derrapando como nunca antes na história deste país se viu numa largada, aumentam as chances de vitória futura do lulismo.

Sobre a parte técnica das alegações finais da defesa, ouvi um amigo advogado criminalista sobre o trecho que pede prescrição da possível pena, dada a idade do réu e dos crimes de corrupção e lavagem de dinheiro.

Ainda que a estratégia mais comum de defesa seja levantar a lebre da prescrição só depois da sentença em primeira instância, até porque a pena em concreto é a base para o cálculo temporal, o doutor crê que, dada a politização do caso, os advogados de Lula optaram por se antecipar.

Se, conforme alega a defesa, o marco do do crime denunciado pelo MPF for 2004, quando da nomeação de Renato Duque e Paulo Roberto Costa na Petrobrás, considerando a idade de Lula, o crime prescreveu. Por outra, se o entendimento for que os Lula da Silva terem usufruído das benesses é o crime em si, a data pode variar até anteontem. Resta agora a juíza Gabriela Hardt falar.

No geral, o que mais impressiona na atualidade é como as mulheres vêm sendo tratadas. Lula sapateou no caixão de Dona Mariza, alegando que, mesmo que ela soubesse do rolo, e contando os laços afetivos, não significa envolvimento dele. Pior: Emílio Odebrecht, um cavalheiro, sustenta a narrativa em sua delação.

Do lado antagonista, o inédito discurso de primeira-dama em posse, em qualquer língua, somado ao uso de uma camiseta com a frase da juíza Hardt, multiplicado pelo envolvimento direto com o caso Queiroz, joga D. Michelle na arena. Na mesma linha foi a mulher do juiz Moro, pedindo nas redes que os brasileiros “parem de reclamar” do governo.

Eu, que sou velhinho, recebo isso com pé atrás. O Poderoso Chefão já ensinava a distinção entre soldados e civis, entre quem vai para “os colchões” e quem fica protegido em casa – homens ou mulheres. Tempos modernos?

 
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