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Supremo PSIU

Marco Aurélio Mello, meu ministro querido, em Gramado falou à Rádio Gaúcha sobre o caso da censura no STF: “Mordaça, mordaça.”

MAM parecia ser o único membro da Corte ciente de sua natureza. Os demais, passando pano para evitar acirramento da crise institucional, talvez não percebam, mas a agravam.

Porém, não tardou para que o decano Celso de Mello percebesse a possibilidade de frango histórico, ao que emendou: “censura é perversão da ética do Direito.”

Enquanto isso, no Senado, requentavam a CPI da Lava Toga. A digressão para o prédio Legislativo da Praça dos Três Poderes entra assim, de supetão, pelo que o Senado tem em comum com o Supremo, não por suas diferenças. Explico.

Senadores e ministros do STF, respectivamente, representam os estados e zelam pela Constituição. E têm mais poder que deputados e outros magistrados justamente para poderem se comportar como Marco Aurélio, com independência e altivez, inclusive em relação aos anseios da sociedade como um todo ou de pressões de grupos destacados. Mandato mais longo ou vitalício, colégio menor ou menor ainda, responsabilidades exclusivas.

O sistema é bem desenhado para proporcionar equilíbrio. Se não funciona, a culpa também é nossa. Nós, o povo, também somos culpados. Para atar com a “mordaça” denunciada pelo Marco Aurélio, cito a lei do PSIU, da qual só lembramos quando a música do vizinho desagrada. Sendo do nosso gosto, pode até aumentar.

Voltando para o Supremo: quando um ex-presidente muito popular chicaneou para prejudicar um condenado, os mesmos que hoje atacam Dias Toffoli e Alexandre Moraes o aplaudiram. O advogado responsável pelo caso protestou e foi expulso do plenário por seguranças.

Mesmo tendo acontecido em plenário, centro das chamadas “dependências” da Corte, que Toffoli e Moraes extrapolaram para todo território nacional a fim de arbitrar a censura, o então presidente procurou vias legais para representar o advogado, que foi defendido pela OAB. Acabou que a Procuradoria da República não reconheceu o pleito de sua Excelência e a Justiça arquivou o caso.

Seria o mesmo fim da censura de Toffoli e Moraes, posto que a PGR Raquel Dodge apontou a ilegalidade do inquérito sem a participação do Ministério Público e defendeu sua anulação e arquivamento, sendo ignorada por Toffoli.

Voltando para o Senado, a CCJ recusou a constitucionalidade da proposta de CPI da Lava Toga. O Regimento da Casa manda que casos recusados sejam arquivados. Mas a pressão popular fez com que o presidente Davi Alcolumbre decidisse levar a proposta a plenário. Errou e há consequências.

Os senadores que quiserem de fato trabalhar pela melhora do nível do STF que se valham da sua prerrogativa de recusar ou aprovar as indicações do Poder Executivo. Repito: suas excelências têm oito anos de mandato e representam os estados, não a população, justamente para ter independência tanto em relação aos demais poderes quanto à pressão de grupos da sociedade.

Por fim, O Antagonista e a Crusoé, sites censurados por Tofolli e Moraes, não faz tempo sugeriam que Luiz Fux fosse homenageado por censurar a entrevista que a Folha de S. Paulo faria com Lula na cadeia.

Ontem Toffoli recuou inclusive da censura a entrevista com Lula. Vitória das instituições. A nós, o povo, cabe zelar por elas.

 
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A origem da família Bolsonaro e um mergulho em sua piscina de ódio

Quem primeiro me falou do Bolsonaro foi um amigo que frequentava Brasília semanalmente. Apesar de chamar a ditadura militar de Redentora, tendo inclusive servido no gabinete do Gama e Silva, redator do AI-5, é um amigo querido.

Anos atrás, entre umas e outras num fim de tarde em São Paulo, me contou que tinha descoberto um tipo curioso na Câmara dos Deputados. Incrédulo porém fingindo endossar a grosseria para me provocar, disse de um cartaz que o surpreendera numa incursão ao Anexo III. Em referência à esperança dos descendentes dos mortos no Araguaia em enterrar seus ancestrais, o pôster debochava “quem procura osso é cachorro”.

Sim, o autor é o atual presidente da República. O mesmo que, quando deputado na CPI do mensalão, teve a brilhante ideia de levar ao depoimento de José Genoíno o seu torturador. Diante da crueldade atroz, a sessão foi suspensa e Genoíno não falou. Como teriam acabado o inquérito e o governo Lula sem a interferência cretina, jamais saberemos.

De lá pra cá, meu amigo, historiador amador dos nomes de família, pesquisou sobre os Bolsonaro.

Pelo lado paterno Jair Messias descende de italianos e alemães. O bisavô alemão, Carl Hintze, chegou ao Brasil ainda criança em meados da década de 1880, tendo portanto aproximadamente cinquenta anos no través da Segunda Guerra Mundial, e nada indica que tenha deixado o país no período. Ainda assim, sabe-se lá por que, o bisneto gosta de dizer que o ancestral foi soldado de Adolf Hitler. Resta agora saber se acha que o bisavô era de esquerda.

O lado italiano paterno é do Vêneto e a grafia original do nome é Bolzonaro, que deriva de um tipo específico de seta usada na besta, hibrido de arco e flecha e carabina medieval que voltou à voga no atentado que matou estudantes na escola de Suzano. A diferença da seta bolzon está na ponta em forma de parafuso, feito um rabo de porco.

Na migração para o Brasil os Bolsonaro vieram como meeiros do baronato do café em Amparo-SP, coincidentemente cidade natal do meu amigo, e então mudaram-se para Campinas – ou “região da Grande Amparo”, como prefere o historiador.

Mais tarde escalaram em Piracicaba, depois subiram para Guararapes, noroeste do estado, e enfim se estabeleceram em Xiririca, atual Eldorado Paulista, cuja maior atração é a Caverna do Diabo.

Em Xiririca ficava a fazenda Caraitá, do coronel Jaime Almeida Paiva, pai do deputado Rubens Paiva, torturado e morto pelo DOI-Codi, cujo corpo permanece desaparecido. O coronel Paiva foi prefeito pela Arena, partido da ditadura, e seu filho Rubens Paiva era deputado pelo PSB, agremiação de intelectuais progressistas contrários à ditadura e à luta armada. Na praça matriz em 1970 o guerrilheiro Carlos Lamarca baleou três ex-colegas de Exército.

Flávio Bolsonaro, filho ZeroUm e membro mais enrolado do clã nas súcias milicianas, escreveu a biografia do pai. No trecho em que fala do Jair criança em Xiririca, evidencia a raiz do ódio que cultivam.

Nos dias do verão inclemente do Vale do Ribeira, Jairzinho invejava as piscinas da fazenda Caraitá, e à tarde, na praça, caçava no lixo os palitos de picolés Kibon chupados pelos meninos ricos, na expectativa de encontrar um vale-brinde. De noite, contou o Presidente outro dia, mijava na cama e se sentia culpado.

Há cinco anos, na ocasião da inauguração do busto em homenagem a Rubens Paiva na Câmara, a besta atacou: “Teve o que mereceu, comunista desgraçado, vagabundo!” E disparou a flecha física, não em forma de rabo de porco feito a bolzon, mas numa cusparada. Bem parafusado no DNA dos Bolsonaro, o ódio do tempo de pobreza permanece na riqueza.

Hoje a família tem dezenas de lojas de móveis, eletrodomésticos e autopeças, investimentos imobiliários e fazendas de banana, setores que coincidentemente mereceram do deputado defesa de intervenção estatal, seja econômica ou contrária a políticas com presença relevante na região, como demarcações de terras indígenas, quilombolas e de preservação ambiental.

Por outro lado, o desgosto com a desigualdade social parece superado. A avó de Michelle Bolsonaro, doente e miserável, mora numa favela do entorno de Brasília e não vê a bisneta, filha caçula de Jair, há pelo menos seis anos. Provavelmente ignora que, tendo apartamento próprio no DF, o então deputado pegava auxílio moradia em dinheiro e usava para “comer gente”. E, em que pese o calor recorde do verão passado, não foi convidada para um mergulho na piscina do Alvorada, a apenas meia hora de seu barraco.

 
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Paulo Freire parece mais inspirado em Locke do que em Marx

Paulo Freire parece mais inspirado em Locke do que em Marx

A sanha nacional em destruir nossos ativos parece não ter limite. Artistas, intelectuais e outras personalidades em geral amiúde são malhadas feito Judas em Sábado de Aleluia.

Mais recentemente vieram as instituições e entidades. Congresso, política, Judiciário, imprensa, universidades, igrejas, ONGs, empresas. Alguém há de dizer que deram motivos, como se um automóvel pudesse ser culpado por um atropelamento, e não a pessoa que eventualmente o conduzia.

Faz tempo que digo e repito aos que botam lenha na fogueira que esse tipo de fogo é incontrolável e só interessa aos carcarás. Em vão. Mas eu não desisto.

A vítima mais recente é Paulo Freire, tido como maior intelectual brasileiro na área da Educação, terceiro nome mais citado em trabalhos sobre ciências humanas em todo o mundo, graças ao método de alfabetização que criou na Universidade do Recife e provou ser eficaz alfabetizando 300 boias-frias em 45 dias na cidade de Angicos-RN nos anos 1960.

Atacar Paulo Freire como faz a súcia bolsonarista é malhar a um só tempo uma trintade, incluindo a pessoa, a entidade e a instituição.

O problema todo no entendimento parece vir do golpe de 1964. Como o êxito de Freire o credenciou para o programa de alfabetização de João Goulart, acabou embrulhado no recorrente pacote mentiroso da ameaça socialista que serviu para justificar a ditadura militar. Nem Freire nem Jango eram marxistas, mas ao se atreverem a trabalhar pelo progresso e pelo equilíbrio social, sofreram com os ataques da reacionaria empedernida que nos assola.

O Método Paulo Freire é simples como tudo o que é genial. Bota a cartilha tradicional de parte e busca reconhecer o aluno e sua cosmovisão. Então usa palavras presentes na vida da pessoa para alfabetiza-la através da alfabetização. As duas etapas seguintes são assustadoras: conscientização de mundo por meio da análise dos significados das palavras e formação de pensamento filosófico, separando mito de razão.

Não é difícil entender por que Bolsonaro repudia o MPF. E também por que alguém que abandona cartilhas e imposições pode ter lido Marx e concordado em alguns pontos, mas jamais ser considerado marxista.

Doutro lado, para Locke a linguagem era uma questão filosófica. Ele diz que a Língua só existe se a palavra for entendida e tiver o condão da comunicação. Isto é, “Eva viu a uva” pode fazer sentido numa escola em Roma, mas na Angicos da metade do século passado poderia ser repetida dez mil vezes sem significar nada. Que uva? Já “Chico chupa caju” tem a força do costume, que fala mais alto do que a natureza.

Se esta freguesia notou lógica e psicologia no parágrafo acima, saiba que concorda com Locke e entende o princípio da sua filosofia da linguagem, que condiciona a existência de uma ideia a sua comunicação em ato. E que, vote em quem votar, também concorda com Paulo Freire.

 
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O vômito iminente

É preciso muito esforço para acompanhar a cena política nacional sem ceder à deselegância. Reflexo perfeito do clima nas ruas e nas redes, as formas de tratamento se deterioraram ao nível do absurdo, com consequente prejuízo do entendimento de qualquer outro tema.

Nada indica que o despudor seja superficial, como a espuma da onda que ferve quando quebra na areia, ou de uma vaia em minuto de silêncio. Isto é, a água em si é limpa, mas participando de uma onda, faz espuma. O indivíduo na arquibancada é bom, mas desumanizado pela massa, vaia um momento solene.

A espuma brasileira atual se parece mais com a da água podre, poluída, que vem do fundo e permanece, mesmo em remanso, em bolhas grandes e encardidas, arfando como um porco nos estertores.

E o pior é que, qual o idiota que vai aplaudir ou vaiar o espetáculo que acontece em campo, atento exclusivamente ao lado da torcida em que está, assistimos à podridão como se dela não fizéssemos parte, avalizando o absurdo institucional.

O ministro PaGue ser chamado de tchutchuca pareceu deselegante aos que fingiram não ouvir o distinto, discursando oficialmente em missão internacional, dizer em inglês que o presidente da República tem colhões. E vice-versa.

Com efeito, o mesmo esquema releva o absurdo que é um país com treze milhões de desempregados e outros tantos desalentados, com a economia do primeiro trimestre acabando em depressão, ter no ministério correspondente um maluco chamado de Posto Ipiranga, que fica ao lado da bomba brincando com um isqueiro, ameaçando auto explosão.

Daí a aplaudir sua exaltação às leis ultraliberais quando bajula o mercado, e relativizar intervenção presidencial no preço do diesel para evitar reação de um grupo organizado, é apenas coerência na incoerência. E vice-versa.

Projeto não há, nunca houve. Quem fingiu acreditar na sintonia entre PaGue e Bolsonaro participa diretamente do vexame. Que acrescente ao gadus morhua da Sexta-Feira a leitura de Perdoa-me por Me Traíres, do nosso grande dramaturgo.

Outros exemplos pululam. Para ficar em três:

Grupos indígenas que confraternizam em Brasília há quinze anos, na maioria das vezes em harmonia, em 2019, a pedido do GSI, serão recebidos pela Força Nacional, autorizada pelo ministro Sérgio Moro – o mesmo que curiosamente não cogitou usar a força do Estado para libertar territórios controlados por milicianos, onde prédios desabam matando gente, e paióis com 117 fuzis são descobertos, ou garantir o abastecimento das cidades em caso de paralisação dos caminhoneiros.

A ministra Damares, responsável pelas políticas públicas para mulheres, se abana de tesão falando do deputado Tulio Gadelha, e à deputada Tábata Amaral diz que, de tão linda, “nem precisava abrir a boca”. Lembro que Vera Fischer estreou no cinema assim. Explicou que não sabia atuar e o diretor devolveu: se ficar pelada, não precisa falar. Era pornochanchada.

E o tinhoso, que mora nos detalhes, segue firme aprontando as suas e desviando a atenção. O presidente Bolsonaro, que se fantasia de ridículo misturando chinelos, camisa de futebol e paletó para despachar com ministros, agora estuda proibir uso de calça jeans nas repartições da Esplanada dos Ministérios. Elegância…

Não sei quanto tempo o intestino brasileiro vai suportar. Minha esperança é que, depois do iminente grande vômito nacional, a gente respire fundo, lave o rosto e volte a dizer bom dia, com licença, por favor, obrigado, cultivando modos mínimos no trato para colher respeito e coerência nos diálogos.

 
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19 de Abril, dia das causas urgentes

Antecipando as celebrações pelo 19 de Abril, Dia do Exército Brasileiro, o Parque do Ibirapuera recebeu a exposição tradicional de equipamentos militares no final de semana.

Mais caprichada do que em anos anteriores, contou com demonstração de equipamentos, passarela sobre o lago, robô militar, oficina de camuflagem para crianças, apresentação da Banda Sinfônica e outras formações.

Data repleta se significados, o 19 de Abril merece ser lembrado. Em 1648 juntaram-se brasileiros índios, pretos e brancos para expulsar os invasores holandeses que dominavam a região em torno do Recife-PE.

É, portanto, símbolo de integração nacional, mensagem maior que o Exército procura transmitir, apesar das manifestações e provocações lamentáveis de autoridades egressas de seus quadros, como o presidente da República e seus familiares, que procuram encrenca onde não temos.

19 de Abril também é o Dia do Índio e de Santo Expedito, um dos chamados santos guerreiros da Igreja Católica, conhecido por atender causas urgentes.

A causa urgente no Brasil atual é missão mundana e está nas mãos dos generais que povoam o governo federal, e que em ampla maioria vêm se mostrando os guardiões do bom senso.

O general Mourão costuma usar a imagem da Cavalaria, dizendo que o governante deve ter as qualidades do ginete: luvas de seda, pernas de aço e cintura de borracha. E a verdade é que, muito melhor do que o ministro PaGue, que na eleição prometia domar Bolsonaro mas caiu da boleia, os generais vêm demonstrando desempenho superior.

Logo no começo do ano foram eles que tomaram as rédeas e arrefeceram a inflamação da BolsoFamília por uma solução marcial para a Venezuela. Augusto Heleno insiste para que os ZeroFilhos se comportem nas redes sociais; Santos Cruz prega justiça social “não tem cabimento numa mesma sociedade uma pessoa ganhar mil e outra ganhar 50 mil”; e o próprio general Mourão gasta a maior parte do tempo tentando consertar as declarações absurdas do Presidente, como as mais recentes sobre o nazismo.

De alguma maneira eles parecem compreender o tamanho do problema que ajudaram a criar nas últimas eleições. Apesar de institucionalmente o Exército ser Estado e não Governo, a turma da Reserva sabe que, se der bobagem, a festa do pijama acabará numa ressaca tremenda.

Também olham para a Nação com responsabilidade. Frequento o Ibirapuera diariamente e sinto o clima com os praças que fazem exercício por lá. Transbordando de orgulho pelo serviço militar, repetem entre si algumas das declarações bélicas do Presidente, como que ignorando o fato de que, se alguma delas for levada a sério e a coisa sair do controle, são eles que estarão na infantaria.

 
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Petrobrás, carnaval e procissão

O tal mercado reagiu estarrecido ao canetaço do presidente da República sobre a política de preços do óleo diesel da Petrobrás, e as ações da companhia desabaram somando R$ 32 bilhões em perdas em curto espaço de tempo.

Se eu pudesse e se meu dinheiro desse, comprava lá uns papéis para aproveitar a recuperação iminente. Sei que seria uma decisão egoísta, pensando só em mim, mas a lógica do chamado mercado é esta.

Curioso o “mercado” chorar os R$ 32 bilhões perdidos. Não faz tempo, menos de um ano atrás, a Petrobrás deixou o preço do diesel correr solto e veio a paralisação dos caminhoneiros, impondo o desabastecimento às cidades brasileiras e prejuízos em todos os setores, incalculáveis pela abrangência, mas estimados em R$ 75 bilhões – e sobre a economia real, física, não nos painéis eletrônicos do dinheiro virtual dos investidores.

Quando Paulo Guedes resolveu abraçar Bolsonaro, mostrando-se disposto a pagar qualquer preço pela volúpia em provar que sabe tudo, notadamente aos colegas economistas que dele zombaram durante décadas, antecipou que, se não fosse do seu jeito, deixaria a vida pública e voltaria para a privada. Repetiu várias vezes a ameaça, feito um catioriño de madame, um tchutchuco que late mas não morde.

Ontem, definitivamente desautorizado pelo chefe, PaGue meteu o rabo entre as pernas e foi chorar no Leblon. Papel ridículo dói em qualquer um, e a dor aumenta proporcionalmente quando a pessoa se leva mais a sério do que seus pares.

O tal mercado, que quis enxergar em Bolsonaro um bom caminho, ultimamente vem festejando a possibilidade de autonomia do Banco Central. Pelo que apurei, continuam acreditando, em que pese o canetaço na Petrobrás.

É assim o mercado. Trabalha por conveniência, tanto faz a realidade e muito menos os princípios éticos. Os mesmos que choram o canetaço são os que assistem tranquilamente o desmonte do sistema de freios e contrapesos criados por Pedro Parente há alguns meses, com a intenção de conter a possibilidade de desmandos que nos entregaram o Petrolão.

Desde que Roberto Castello Branco assumiu a estatal por indicação de PaGue, a concentração de poder vem crescendo de forma pornográfica. Como se fosse uma empresa vulgar, na nova estrutura da Petrobrás o presidente ganhou poder de dono, centralizando decisões principalmente no que tange a venda de ativos da corporação. Acionistas minoritários e a própria União não poderão mais opinar ou sequer avaliar e se pronunciar sobre a venda do controle das subsidiárias. É escandaloso. Mas isso daí, para o mercado, tá ok.

Não por acaso, há quem suspeite que a desvalorização dos papéis interessa especialmente à turma que está de olho nas privatizações dos ativos da Petrobreas, daí o carnaval em torno do canetaço combinar tão bem com a procissão silenciosa ante a pornografia administrativa.

 
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A estética dos cem dias

Jair Bolsonaro surgiu em frente a um painel com o número cem estilizado, sendo o número um sucedido pelo símbolo do infinito deitado, como se fosse dois zeros, mas que também é um oito evidente, que formaria um 18.

Então tirou da cartola dezoito ações. Não dezessete, seu número de legenda, que chegou a mencionar como “bom número” para a quantidade de ministérios durante o governo de transição; nem dezenove ou vinte, mas dezoito, indicando uma amarração estética com o logotipo do evento, como se não bastasse a sugestão de infinito, que não harmoniza bem com democracia e alternância de poder.

No discurso breve e atrapalhado, motivo de chacota que não víamos desde a passagem de Dilma Rousseff, sobrou estética. O “mar revolto”, citado pelo porta voz, foi a deixa para o Presidente falar em “céu de brigadeiro”, como que representações do presente a ser enfrentado e a promessa de futuro, além de sinalizar para a Marinha e a Aeronáutica, duas das forças menos alinhadas – ou mais constrangidas e preocupadas – com a associação dos militares ao governo.

O anúncio do décimo terceiro para o Bolsa Família é um aceno para os estratos sociais que mais rapidamente se decepcionaram com o começo do governo, e que foram decisivos para o êxito eleitoral. São basicamente os lulistas frustrados com o amargor econômico, ainda mais amargo depois da doçura experimentada no começo do século. A deputada federal Bia Kicis tratou de amarrar o enredo, dizendo que com a medida Bolsonaro subtraía o 13 da esquerda, número de legenda do PT.

Quem já leu sobre Joseph Goebbels, esteta do nazismo, sabe do poder de comunicação da estética e das mensagens subliminares.

Tudo isso e muito mais aponta que os detalhes estéticos são minuciosamente pensados pelo bolsonarismo. A aparente – e apenas aparente – tosquice de seu estilo de vida, do pão sem prato com leite condensado, passando pela prancha para coletiva de imprensa, até o chinelo com paletó e camiseta para receber auxiliares no Alvorada, contrastam fortemente com o onipresente Hélio Negão nas aparições de um político que coleciona declarações racistas, com o elegante alfinete de gravata com a bandeira do Brasil usado em viagem internacional, ou a composição da sala de café da manhã usada para receber jornalistas no Planalto.

Resta saber quem está por trás disso tudo. É alguém competente. Teoricamente seria o ministro da secretaria de Comunicação, mas os sinas são anteriores ao governo e o novo ministro, que acaba de assumir, só pode ser responsabilizado se trabalhou oficiosamente desde quando não se sabe.

Há paralelos estéticos com outros políticos populistas mundo afora, conforme citei aqui. E a proximidade da BolsoFamília com Steve Bannon, e deste com outros atores que se valem dos mesmos artifícios, faz a pulga atrás da orelha merecer atenção.

Mas o clássico brasileiro é sem dúvida Jânio, cujas semelhanças com Jair saltam aos olhos. Usava caspa artificial, paletó mal cortado e modos chulos em público, e em privado vestia roupa boa e se comportava como um lorde. Sabemos como acabou, porém convém imaginar como seria Jânio equipado de redes sociais.

 
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Tapa na peruca

Roberto Campos, ao receber um prêmio, caprichou o seguinte: Diferente das roupas de baixo, que só devem aparecer pontualmente, a modéstia não deve aparecer jamais. E eu adoro ser homenageado.

Em 2017 já se falava bastante da reforma da Previdência e, sem base técnica para falar de Economia, anotei em maio um palpite político, chamando a reforma de peruca. Está aqui.

Em 2019 o debate da Previdência segue uma peruca gigantesca e talvez ainda mais cruel, tanto quanto o ridículo pode ser. E a unanimidade aplaude, burra como também só ela pode ser.

Evoco Nelson Rodrigues porque a personalidade mais importante para o Brasil atual seria um dramaturgo talentoso, corajoso e obsessivo, capaz de iluminar a sociedade com holofote de ribalta.

Na falta de alguém da mesma altura, fico com o próprio Nelson e empresto a frase dele para homenagear André, filho do seu amigo Otto Lara Resende: Só os profetas enxergam o óbvio.

O jornal Valor Econômico é o palco do melhor debate acadêmico sobre Economia que este século já viu e começou com um artigo do ALR, atraindo gente boa. Pelo WhatsApp rola o paper completo, com tudo que tem direito: filosofia, fontes, ressalvas, autocritica e a mensagem fundamental.

Basicamente ALR explica: A) Sobre finanças e investimento “que é o gasto do governo que cria a moeda, e não a disponibilidade de moeda que viabiliza os gastos do governo”;  B) Questão fiscal: que a natureza dos impostos é distribuir e realocar dinheiro, não capitalizar o Estado; C) Política: “A razão nas questões de políticas públicas, relacionadas aos déficits do governo e à dívida pública está com Mosler e os defensores da Teoria Monetária Moderna (MMT na sigla em inglês): o governo não está sujeito a restrição financeira e a dívida pública não é um fardo para as próximas gerações.”

João Sayad entrou na dança festejando o ar fresco. Esticou os suspensórios a la Bob Fields e estalou um alto lá que deve sacudir a unanimidade que repete sem “análise, descrição, contra-argumento” a já hostil ameaça de caos caso a Previdência não seja reformada.

Vai além o Sayad, contrapondo a certeza de hiperinflação caso o déficit e a dívida pública cresçam. Ora, EUA, China e Japão fizeram mais da metade da dívida do mundo e, pelo menos no Japão, o problema é deflação.

Ambos, André e João, usam filosofia para explicar que as finanças não são um caso isolado. Muito pelo contrário, pertencem ao todo e, tanto no princípio quanto no fim das contas, devem servir às pessoas.

E especialmente o Sayad encerra com uma beleza de parágrafo que, noves fora a dispensável modéstia, aponta o caminho:“A previdência gasta mais ou menos R$ 600 bilhões por ano, sem o déficit. Com estes mesmos gastos, é possivel pagar R$ 2 mil por ano para cada brasileiro desde que nasceu. Com esta renda, pode-se levantar crédito, garantir uma aposentadoria, e muito mais. Um brasileiro de 60 anos teria R$ 120 mil de renda extra. Sua família, R$ 360 ou R$ 480 mil. Para 90 % dos brasileiros, é uma fortuna. O efeito sobre a juventude seria imenso – menos violência, mais educação. Para os velhos, mais segurança. Para os desempregados, mais amparo. É uma ideia radical e, aqui, mal formulada. Mas muito melhor do que exigir 30 anos de contribuição das novas gerações. Alguns países já adotam esta alternativa.”

Ora, se precisamos de um esforço político hercúleo para passar a reforma da Previdência, por que não assumir uma briga maior a favor de uma solução maior, melhor, sintonizada com a atualidade e livre do ridículo da peruca?

Fato: viveremos mais e trabalharemos menos. O modelo de produção e consumo chinês ou americano, que proporciona pleno emprego para 1,7 bilhão de pessoas, se expandido para sete bilhões explodiria o planeta. A coisa mais cara que existe é a pobreza. E num mundo tão polarizado, a Renda Básica Universal é das poucas agendas capazes de unir extremos, de São Paulo a Karl Marx, de Davos a Porto Alegre, de Paulo Guedes a Eduardo Suplicy, transformando a ferradura em aliança.

André, João e Valor Econômnico, obrigado.

 
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Bordel estatal

O mundo nem sempre foi assim. Na Grécia Antiga, muito antes da privatização entrar em moda, havia bordeis estatais e o preço do michê era regulado pelo governo. Consta que havia até um tipo de bolsa família, digo, bolsa folia, para garantir que nenhum cidadão fosse privado de uma alegriazinha eventual.

Mas este não era o único valor democrático envolvido – considerando o contexto helênico. Pelo amor trabalhavam mulheres de todas as idades, jovens rapazes atléticos e a freguesia era majoritária mas não exclusivamente masculina.

A cidade para além de aceitar aprovava o programa – com trocadilho. Atribuído ao poeta e estadista Sólon, gerou benefícios diversos, como redução de conflitos, emprego, renda, turismo (o Distrito da Luz Vermelha leva tanta gente para Amsterdã que a prefeitura pensa em proibir turistas no local para não atrapalhar o andamento dos trabalhos) e fortalecimento econômico.

No plano da ficção a melhor história de estatal do amor é Pantaleão e as Visitadoras. Ainda não li o livro, mas assisti ao filme inspirado na obra do marquês de Vargas Llosa, locado na floresta amazônica do seu Peru natal.

Pantaleão é um militar exemplar, burocrata diligente, e recebe a tarefa de organizar um serviço de visitadoras para acalmar o ânimo dos soldados que servem na selva. Missão dada, missão cumprida. Seus relatórios de atividades são primorosos.

Engana-se quem imagina escrevo sugerindo que o governo atual poderia ter algum tipo de serviço semelhante, quiçá capaz de aliviar o twitter.

Venho motivado pela excelente matéria do Rogério Gentile na Folha de hoje, narrando o caso que acabou com Justiça decidindo que prefeito não pode ceder área pública a bordel.

Contando um quarto de século, a história se passa em Rosana, cidade do interior paulista, onde em 1994 Tia Joana inaugurou a boate Corujinha, primeira casa da Vila das Garotas, com direito a discurso do então prefeito Jurandir Pinheiro, que viabilizou a “obra”.

Caso raro de política pública que não é descontinuada pelos sucessores, a vila atravessou múltiplas gestões e fez a fama da cidade, carinhosamente apelidada de Rozona.

Jurandir Pinheiro, falecido em 2014, era do PSD clássico, aquele do Tancredo. Seu sucessor, Newton Rodrigues, falecido em 2005, era do PPB (atual PP, descendente da Arena malufista). A ex-prefeita Sandra Kasai, do PSDB, cassou os alvarás da vila, mas porque o (adivinha!) Ministério Público mandou. E com a decisão judicial, sobrou para o prefeito atual, Silvio Gabriel, tomar de volta o terreno.

Mau presságio para o alcaide Gabriel, do PSD vigente, é a lembrança da experiência que seu presidente Gilberto Kassab teve encrencando com cafetão aqui em São Paulo.

Quando Oscar Maroni fez o hotel Bahamas, 40% financiado pelo BNDES, Kassab implicou, se não me engano, por conta da rota do aeroporto de Congonhas. Talvez tivesse razão, mas o hotel continua lá, bem como o lupanar, e atualmente é no pé do ex-prefeito que a Justiça se encontra.

 
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Estupidez e burrice ou Moro em segundo lugar

Drauzio Varella é médico oncologista. A profissão da medicina a gente associa com a cura. Mas na especialidade da oncologia muitas das vezes a cura não é possível, e o papel do profissional é amenizar o sofrimento.

Drauzio é tão bom em amenizar o sofrimento alheio que o faz até escrevendo. Seus livros e artigos têm a capacidade de melhorar a vida de qualquer pessoa a qualquer tempo.

No dia 31 de março a Folha publicou um artigo seu intitulado Estupidez e Burrice, enfermidades de cura difícil, mas que a leitura, se não resolve,  ameniza.

O articulista médico contava a origem do PCC, organização criminosa nascida nos presídios paulistas que se tornou multinacional e mais poderosa que muitas das forças oficiais do Estado, mais organizada que diversas das nossas instituições.

No estatuto do “partido”, ou a “Constituição” do PCC, um item fala de seu DNA: “combater a repressão dentro do sistema prisional” e “vingar a morte dos 111 no massacre do Carandiru”.

Sim, o abuso do Estado, igual a tudo na vida, tem consequências, e uma que o massacre de 111 presos gerou foi a criação do PCC, que agora ninguém mais sabe como resolver.

Ao contrário do que a burrice e a estupidez acreditam, forte é quem protege, não quem ataca. O Estado, sendo a única instituição que pode se valer legitimamente do uso da força, carrega com a legitimidade o ônus da prudência redobrada. Se não por princípio de um governante eventual, por cautela, e pela noção de que, havendo reação contrária, será proporcional à sua força gigantesca, seja em potencia ou covardia.

Vem sendo lembrada à exaustão a frase do vice-presidente Pedro Aleixo quando da assinatura do AI-5. Se ele disse mesmo não importa, mas a imagem do exemplo superior sobre o “guarda da esquina” dificilmente será superada.

Me abstenho de rememorar tudo o que o presidente da República representa. Os sentimentos que ele desperta estão na sociedade, que muito por conta deles o elegeu. O problema é que uma vez eleito ele segue botando lenha e, pior, agora conta declaradamente com um aliado ídolo nacional, de fala mansa e que simboliza a Justiça. Ele mesmo, Sérgio Moro.

A proposta de relaxamento do tal excludente de ilicitude defendida pelo ministro da Justiça, a fim de amenizar para o agente policial que mata “sob forte emoção” em “regiões de pouca urbanização”, e com dificuldade “para diferenciar cidadão de bem de meliante” é pimenta no caldo cultural simbolizado por Bolsonaro e seus dedinhos.

Desenhando, o ministro Moro quer legitimar o “engano” dos militares que fuzilaram com 80 tiros o músico Evaldo Rosa dos Santos na frente do filho de sete anos e ainda debocharam da viúva.

Não é de hoje que pretos são fuzilados “por engano”. A novidade é propor autorizar o “engano”.

Serve para todo mundo. Sérgio Cabral Filho merece a cana? Claro. Precisa ser transportado com correntes aos pés? Não. Michel Temer parece corrupto? Sim. Precisa ser preso na rua por homens armados de fuzil? Não. Um preso pode ir ao velório do neto? A maioria deles, sim. Sendo preso por corrupção, como Lula, precisa de escolta fortemente armada? Não.

Todos os exageros acima têm nexo direto com o encorajamento do guarda que estrangulou à morte o filho de uma mãe que simultaneamente ele chamava de puta;  com o dos guardas do Metrô Bresser que deram uma cotovelada e um soco numa mulher ontem à noite; com o marmanjo que deu uma gravata numa jovem magricela que o provocou domingo na Paulista, apoiado por um casal de senhores marombados enquanto os três homenageavam a Lava Jato.

(Witezel e seus snipers, Doria fazendo festa em torno da tarefa dura da Rota em abater uma quadrilha fortemente armada miram 2022 e acertam os próprios pés.)

A notícia ruim é que a última pesquisa do Ipespe mostra que, apresentados aos nomes de uma dúzia de personalidades, 67% dos entrevistados aprovam a atuação de Sérgio Moro.

A notícia boa é que Moro ficou em segundo lugar, indicando que sua atuação é aprovada por aparentar relação com a Justiça, não  relação com sugestão de abuso de poder. De onde eu tiro a conclusão? O primeiro da lista, com 73%, é Drauzio Varella.

Então, por gentileza, peço a esta freguesia que esparrame o artigo do Drauzio em suas redes. Eis o link: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/drauziovarella/2019/03/estupidez-e-burrice.shtml

Agradecido.

 
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