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A sexta-feira 13 no Reino Unido

Dia desses me peguei lendo spoilers sobre The Crown. Era um apanhado inspirado nas agências de checagem de fatos criadas para combater notícias falsas. Quer dizer, elencaram algumas passagens polêmicas e separaram o que é histórico do que foi romanceado.

Li sem receio de estragar a diversão. Mas entendo que é algo pessoal e advirto: vou contar nos dois parágrafos seguintes a cena que mais me marcou para então introduzir minha avaliação sobre o que aconteceu ontem lá entre os ilhéus.

Apaixonada por cavalos e corridas, a rainha Elizabeth andava decepcionada com o desempenho de sua tropa. No muxoxo, tornou-se saudavelmente vulnerável aos conselhos do chefe de suas cavalariças, Lord Porchester, carinhosamente tratado por Porchie, que a estimula a viajar para conhecer novas técnicas de preparo dos animais. E lá vão eles.

Muito sutilmente o roteiro sugere um namoro. Entregues à afinidade da paixão pelos cavalos, armam piquenique, jantam a sós e ela exige não ser incomodada pelos demais serviçais. Dedicação total a Porchie. (Vá lá, mais dois parágrafos-spoiler.)

Na volta a Londres, despachando em seu gabinete residencial, recebe a visita do príncipe Philip padecendo de notável dor-de-cotovelo. Ele assunta sobre a viagem, ela confirma tudo o que pode ser confirmado com naturalidade. Então ele dá a volta na escrivaninha, a beija na boca e se despede.

Neste momento a corda e a caçamba do tesão explodem no ar. Isto é: poder e pudor tomam a cena. Animada, a rainha avisa que subirá dentro de um minuto. O príncipe para, faz meia-volta e indaga se entendeu o recado, ao que ela decreta: sim, pensei nisso. Colosso de cena.

Tudo isso para dizer que são assim os ingleses. Deixam rolar porque acreditam que ao cabo tudo se ajeita a favor deles. Talvez seja próprio da Coroa, que tem motivos para acreditar nisto, e acabou contaminando a nobreza, que contaminou a burguesia, que contaminou o carvoeiro.

Não vejo outra explicação para eles terem abraçado assim a incerteza confirmada nas eleições de ontem, terceira em cinco anos e com o referendo sobre o brexit no meio. O líder conservador Boris Johnson, que fala em hard-brexit, obteve retumbante vitória. A oposição mais densa, Trabalhista, também apostou no vai ou racha e permitiu ser liderada pelo correligionário mais inflamado, Jeremy Corbyn, afundando-se.

Mais grave: 1/3 do eleitorado (32,75%) não compareceu para votar. Vá lá, inverno alto, dia curto, chuva, voto facultativo etc. Mas a rigor era o brexit, determinante para o futuro já a curto prazo.

Nesta sexta-feira 13, o que era previsível aconteceu. Os jornais escoceses amanheceram autorizados a falar em independência e permanência da União Europeia. E sobre como pode reagir a Irlanda do Norte, com o passado recente tão conturbado e uma fronteira com a Irlanda que vale por uma cicatriz, ninguém se arrisca a fazer previsões.

É inacreditável. Da Europa o Reino Unido teve tudo que quis. Manteve moeda própria, bem como sistema de pesos e medidas e até posição ao volante, tanto político quanto no automóvel. E mesmo assim, aprontaram uma dessas – ou será exatamente por isso? Na cabeça deles, quando o Big Ben disser que é sábado, a sexta 13 será passado. Eu duvido.

 
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Democracia inda que tardia

Está em voga falar sobre os tantos livros recentes, vendidos aos milhares mundo afora, que tratam do ocaso da democracia. Meu palpite, contudo, é que deveríamos pensar se ela algum dia se estabeleceu.

É comum o quiproquó. Falam tanto do horror do comunismo, como se este em algum lugar tivesse existido. Nunca aconteceu. As comunas da Europa mediterrânea até que chegaram perto pelo compartilhamento de máquinas, produção e força de trabalho, sem esquecer do bandolinista sem vocação para agricultor ou artesão, mas cuja poesia é reconhecida como necessária para aliviar a faina. Não por acaso, os índices mais altos de satisfação com a vida são encontrados por lá.

Muito diferente é o regime socialista imposto pela força em alguns países, corriqueiramente chamados de comunista, mas que de comunistas tinham no máximo uma inspiração, confortável e convenientemente esquecida  sempre que a dominação dos povos era concretizada.

A mesma coisa acontece com o cristianismo. Em nome de Jesus fizeram e seguem fazendo cruzadas que, ao que tudo indica, o Nazareno reprovaria e daria a própria vida combater. O que me faz lembrar da cena da confissão do Michael Corleone ao cardeal Lamberto junto a uma fonte no Vaticano. O futuro papa apanha uma pedra porosa imersa há séculos em água, bate com ela na borda da fonte e revela seu interior seco. Metáfora: qual a pedra em água, o Ocidente vive há séculos imerso em cristianismo mas não o absorve.

Com a democracia o fenômeno é semelhante. Recentemente houve revoluções, mais recentemente incluímos analfabetos, pobres, mulheres, algumas idas e vindas, autoritarismo, guerras, genocídios francos ou dissimulados, tudo para sintonizar a marcha histórica a favor de quem sempre nela mandou: o capital.

Então voltamos ao Poderoso Chefão III, quando demônio Luchesi explica: dinheiro é uma arma, política é saber quando espremer o gatilho.

É natural que a turma considere os políticos culpados por tudo o que não dá certo. O sistema é desenhado com essa intenção. Culpado é quem teoricamente tem conferido o poder para espremer o gatilho. Mas na prática isso só pode acontecer se quem tem a posse da arma decidir empresta-la.

Tenho pra mim que todo a instabilidade social espalhada pelo mundo deriva do desequilíbrio financeiro. Em que pese as selfies terem faces variadas, na raiz o problema é o mesmo: aflição com as contas que vencem mês a mês. Os mesmos Estados Unidos, que festejam o pleno emprego, têm centenas de pessoas desabrigadas. O sujeito trabalha diariamente, ganha salário, mas não tem onde morar. Na Califórnia, com empresas valendo trilhão, falam de cinquenta mil pessoas vivendo em barracas ou automóveis.

E como reagem os bilionários? Com filantropia. Ou pilantropia. E o cordão da bajulação agradece de joelhos. Ai de quem disser ridículo ou imoral que meia dúzia de pessoas se julgue sabedora do que fazer em educação e saúde, ameaçadas pela mesma austeridade que produz tais fortunas, ou que proponha financiar a proteção do meio-ambiente com o dinheiro que vem do parafuso de produção e consumo que o destrói. Isto não é democracia, mas plutocracia, como sempre foi.

Não há alternativa para a crise social mundial ou da democracia fora da distribuição de renda que garanta o básico a cada pessoa. E o círculo para que ela funcione passa por cobrança de impostos e decisão democrática sobre o investimento social básico. Quer dizer: educação, saúde, Justiça, liberdade, proteção do meio-ambiente e todo outro tema essencial deve respeitar um patamar mínimo, abaixo do qual ninguém jamais estará. Para além dele, podemos conversar sobre quais degraus desejamos galgar coletiva ou individualmente. Mas só a partir dele.

Esteja à vontade quem quiser chamar de utopia. Mas na verdade é democracia – goste-se ou não dela.

 
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Já era

Agora é questão de tempo. Acabou. Mais claro, impossível. Com ou sem Bolsonaro, as vivandeiras estão alvoroçadas, os guardas da esquina estão quicando de alegria, e levará muito tempo para corrigirmos o mau passo. Péssimo passo. O Brasil já endureceu e vai endurecer mais.

Venho alertando há meses e quem frequenta esta freguesia, concordando ou não, há de reconhecer. Agora já era. Queria eu ter alguma esperança, nem que fosse da mesma dose do Marcos Nobre neste artigo para a Piauí. Está aberto, aproveitem. (Destaque para a passagem sobre PaGue e o Apocalipse.)

Se havia algum desconforto entre os militares, notadamente da Marinha e da Aeronáutica, em relação a Bolsonaro, a Previdência especial da caserna o fuzilou. Agora estão todos felizes e satisfeitos, gratíssimos com o capitão que um dia expulsaram.

A meia-dúzia de colegas estrelados que acabaram no microondas do Vivendas da Barra também hão de digerir o mal estar, posto que é para a felicidade geral da corporação. E porque, apesar da humilhação, no governo entraram mais militares do que saíram. Muito mais. Por falar em sair, consta que é melhor o general Ramos já ir limpando as gavetas.

Ontem, em solenidade na Marinha, Bolsonaro disse se esqueceu que todo poder emana do povo e em seu nome será exercido, afirmando que seu governo está ancorado na caserna, como que avalizando a fala do anfitrião, almirante de esquadra Ilques Barbosa, que apresentou um cardápio de assombrações que teriam ameaçado o “interesse nacional neste primeiro ano de governo”.

Pois é. Já era. Agora é esperar para ver como o troço vai escalar, se via populismo pelas mãos do presidente, prole, PaGue, Moro; ou se nas esteiras dos tanques. Meu palpite: ambos, nesta ordem.

É de amargar. Para como fomos nos meter nessa enrascada de novo há várias explicações, todas inúteis a esta altura. Muita gente vai penar, sobretudo os mais vulneráveis. E apesar da tristeza será curioso acompanhar os desdobramentos, ver os entusiastas de ontem e hoje se borrando amanhã, inclusive a primeira-família.

Na medida do possível tentem manter a calma, proteger uns aos outros e evitar qualquer tipo de bate-boca.

 
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Soube que você pinta casas

Corta. Corta. Corta de novo. Corta mais. Edita. Não tem jeito. Ou outro jeito. Tem que cortar. Sem cortar, muito provavelmente Martin Scorcese não teria entregue Taxidriver, Os bons Companheiros, Casino e outras tantas fitas.

Fico imaginando a dor de condenar à gaveta bordões, diálogos, cenas, sequências inteiras. Cortes, podas, lapidações que transformam filmes em obras-primas. Só que dói cortar. Tenho certeza que dói.

E depois de tanto trabalho conjunto a dor deve se estender para além do diretor ou do roteirista. É de se supor que Al Pacino, De Niro, Joe Pesci e outros bambas dos filmes de gangster, em algum momento, tenham participado da escolha sobre o que manter, o que limar. Meteram cacos. Fizeram melhor uma cena preterida pelos chefes dos estúdios. Trouxeram ideias. E ganhamos Era Uma Vez na América, Touro Indomável, O Poderoso Chefão.

Uma evidência é “Soube que você pinta casas”. Como não dar a luz, literalmente, um bordão desses? Fico imaginando os companheiros reunidos numa ocasião qualquer, lembrando dos cortes que tiveram que assumir, comentando as memórias de Charles Brandt escritas por Steven Zaillian. Vai ano, vem ano, e o assunto volta: “Tinha ficado boa aquela cena, será que a gente fez bem em cortar? / E o Jimmy Hoffa? Que personagem! Eu faria. / Eu também. / E eu.”

De repente começam as comparações entre velhos amigos. Velhas amizades permitem franquezas sem melindres. E De Niro comenta com Al Pacino: “Quando você matou o Turco e o Capitão McCluskey… O Coppola é um craque, a aflição do Mike procurando a arma atrás da caixa de descarga, o pó de sangue no ar… A cena é brilhante. Mas sabemos, pelos laboratórios, que é quase impossível. Um assassinato desses não aconteceria assim perfeito. Eu faria mais bagunçado.” Os demais assentem. E anotam.

Ao longo dos anos, acredito, dezenas de conversas assim devem ter se repetido. Até que um deles tomou coragem e disse “Estamos bastante entrados nos anos e boas ideias não faltam para filmar tantas coisas boas que guardamos. Capital para produzir muito menos. Por que não?” Os demais assentem. E combinam: não devemos nada a ninguém. Vamos fazer O Irlandês.

A história oficial é outra e muito mais complexa. Falamos de indústria, 159 milhões de dólares em investimento (podiam ter gastado até duzentos). Consta que De Niro teve que insistir longamente até Pesci aceitar. E a fotografia? Cedemos ao digital ou usamos a boa e velha fita de 35 mm? Trinta e cinco. Fita. Fita. 35. Mas e para a gente ficar com a metade da idade, maquiagem ou computador? Computador.

Meu palpite – e a confirmação definitivamente não me interessa – é que nas raízes da produção a história se desenrolou assim. Ganhamos três horas e meia de ode à amizade, pelas quais devemos agradecer por cada minuto. Obrigado, companheiros.

 
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Bishop na Flip

A turma estava ansiosa na Praça Matriz de Paraty, abarrotada. Era a abertura da primeira Flip, que depois de muito trabalho saía do papel com ajuda da editora inglesa Liz Calder. O homenageado seria Vinícius de Moraes. Sua filha Suzana estava no palco.

Eis que a plateia vem abaixo. Era o Chico, ainda unanimidade, que entrou recitando, ou tentando recitar ante os gritos apaixonados das fãs, Trecho, poeminha lindo do homenageado, seu parceirinho. Note: as fãs estavam acompanhadas dos maridos, que entendiam perfeitamente o furor buarqueano. E lá vai ele:

Quem foi, perguntou o Celo

Que me desobedeceu?

 

Quem foi que entrou no meu reino

E em meu ouro remexeu?

Quem foi que pulou meu muro

E minhas rosas colheu?

Quem foi, perguntou o Celo

E a Flauta falou: Fui eu.

 

Mas quem foi, a Flauta disse

Que no meu quarto surgiu?

Quem foi que me deu um beijo

E em minha cama dormiu?

Quem foi que me fez perdida

E que me desiludiu?

Quem foi, perguntou a Flauta

E o velho Celo sorriu.

Menino de classe média nascido na Gávea, criado em Botafogo e na Ilha do Governador, estudou no Colégio Santo Inácio, graduou-se advogado na escola do Catete, filiou-se ao movimento Integralista –o fascismo tupiniquim, publicou poema na revista Anauê, serviu à ditadura Vargas como censor cinematográfico, foi a Oxford estudar literatura inglesa e então passou no concurso do Itamaraty. Tudo isto ele resumiu assim: Vinicius de Moraes, poeta e diplomata, o branco mais preto do Brasil.

A primeira Flip foi em 2003. Não sei o que seria se o Machado de Assis tivesse ficado com a primeira e Vinicius só entrasse na lista para 2020. Um senhorzinho ébrio, fumante, meio cafa, com esse histórico, tendo feito samba que flerta com uma jovem menor de idade, poemas como Trecho, bastante machista, menino branco, privilegiado e ainda com a pachorra de se dizer “o branco mais preto do Brasil”? Creio que, igual a plateia que o homenageava, o mundo viria abaixo. Mas escandalizado.

Se não, como explicar a reação contra a proposta da Flip em homenagear a poeta Elizabeth Bishop? Ah, nasceu nos Estados Unidos, era lésbica, alcoólatra, depressiva, amiga do Carlos Lacerda e simpatizou com o golpe de 1964. Não pode.

Creia: tamanha foi a gritaria que a direção da festa cogita rever a ideia.

Hoje está em voga o “lugar de fala”. Trata-se de um conceito relativamente recente que ganhou holofotes no Brasil através da filósofa Djamila Ribeiro, que muito embora não negue a individualidade, enfatiza a legitimidade da fala a depender do lugar donde ela surge. Por exemplo, sobre opressão falam melhor os oprimidos. É compreensível, mas tem gente que não entendeu e está exagerando.

Vinícius subiu o morro, foi ao Candomblé, escreveu O Orfeu da Conceição, viveu na Bahia, fez os afrossambas com o Baden, debochou do distinto que “tem mulher pra usar ou pra exibir”, celebrou a diversidade, a jabuticaba, o tutu de fejão, a cachaça de rolha, apelou contra a desigualdade, lutou contra a ditadura militar porém sem pegar em armas e sempre advertindo a quem brincava com a vida: Cuidado, companheiro!

Mas sei lá se hoje ele poderia dizer-se “o branco mais preto do Brasil”.

Bishop veio ao Brasil, casou-se com a arquiteta brasileira Lota Macedo Soares, viveu em Ouro Preto, observou e retratou com rara sensibilidade a nossa gente, inspirou a criação desses postes altíssimos do Aterro do Flamengo e do Anhangabaú que imitam a luz do luar – vá lá, não são práticos, mas são lúdicos, mas cometeu o equívoco de, influenciada pelo amigo Lacerda, apoiar o golpe. Equivoco este que também foi dele, que acabou cassado anos depois. E agora vamos trata-la assim?

Rapaz, vou te contar. Começo a achar que não temos mais jeito.

 
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O fator Dias Gomes

Dum e doutro lado radicais estrilam contra a TV Globo. É impressionante. Compreende-se a mágoa geral pelo apoio ao golpe do primeiro de abril de 1964, a edição tendenciosa do debate de 1989, o Galvão Bueno. Mas noves fora o último, a empresa fez a autocrítica que a sociedade tanto pede a outras entidades e deu em nada, donde se leva a crer que pouca gente está disposta a pelo menos baixar o tom durante o funeral do diálogo.

Mas a verdade, cientificamente provada, é que notadamente pela dramaturgia a Vênus Platinada ajudou e muito o progresso brasileiro. A pesquisa inteira ainda não está disponível fora da academia, mas o que interessa já é público e prova como e porque as novelas da Globo ajudaram o País.

Trabalho de brasileiros radicados na América do Norte – os economistas Cláudio Ferraz e Luiz Meloni – o artigo Fator Dias Gomes – apelido que surrupiei do repórter Rafael Carriello, que contou a história na Piauí de novembro – prova quanto O Bem Amado contribuiu para a formação de uma consciência crítica sobre o populismo e o coronelismo no Brasil, e com efeito abalou a Aliança Renovadora Nacional, partido da ditadura militar.

A boa relação dos Marinho com a ditadura permitiu a expansão acelerada da emissora pelo País na década de 1970, bem como certa liberdade artística, sem a qual O Bem Amado não iria ao ar. E deu-se o que os ditadores não previram: nas cidades onde o canal 5 chegava, a Arena definhava.

Mais exatamente, os pesquisadores cruzaram os dados relativos ao conteúdo de crítica política das novelas com os resultados das eleições municipais de 1972, 1976 e 1982, e concluíram que, ao reconhecer em Odorico o coronel local, a turma foi se libertando. Viva Dias Gomes, o nosso Molière!

Sei que a luta é inglória e que a implicância com a Globo não vai passar, muito menos por minha causa. Mas se esta freguesia pensar nos grupos mais vulneráveis, mulheres, pretos e pardos, nordestinos, favelados, gays, imigrantes, será difícil negar o papel do plim-plim na harmonização social brasileira.

Talvez mais fácil seja reconhecer o retrocesso. Como pode a Regina Duarte, que quando Malu Mulher era hostilizada pelos reaças na ponte-aérea, hoje relativizar o bolsonarismo? Ou o Silvio Santos, cujos calouros eram avaliados por Elke Maravilha, Dercy Gonçalves, Roberta Close, Aracy de Almeida, Sérgio Mallandro, Sônia Lima e Pedro de Lara ou Wagner Montes fazendo os vilões reacionários, estar hoje nesse papel? Da Record nem vou dizer. A TV dos Festivais!

Porém, ao que tudo indica e talvez mereça ter os dados cruzados com a representação política atual, no mesmo esquema do “Fator Dias Gomes”, seja a ascensão simultânea dos programas policialescos, sensacionalistas e de pregação religiosa raivosa. As sessões de ontem da CPMI das Fakenews e da Previdência estadual na Assembleia Legislativa de SP foram de ruborizar o Ratinho. Mas agora é tarde.

 
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Um cabo, um soldado e um contador

Me lembro de uma crônica do Luís Fernando Veríssimo onde um personagem narra em primeira pessoa como é tratado: me chamam de doutor, mas sou rico, não doutor.

Pude experimentar a sensação lá pelos vinte anos, ao ganhar um sedã escuro. Cheguei no posto de gasolina que frequentei a vida inteira sendo tratado pelo nome e, ao ser reconhecido a bordo do carro bacana, a brigada amiga exclamou: fala, doutor!

O mesmo fenômeno aconteceu com o Posto Ipiranga. Não o de combustível, que ainda vai pagar caro por ter ido de bordão a apelido do fiador deste governo desastroso, mas com o próprio ministro PaGue.

Pelos falsos pudores tão bem cultivados, a elite financeira nacional precisava de uma desculpa para admitir simpatia pela agenda Bolsonaro, e PaGue surgiu como o ideal. Não pelo histórico acadêmico-econômico, mas pelo financeiro. Traduzindo: PaGue é aceito por ser rico, não por ser doutor. Ou por outra: é doutor porque é rico, não pelo título que, sabe-se lá como, tirou em Chicago.

Curioso como a elite é ralé. No sentido arendtiano. No buarqueano, PaGue é o barão da ralé.

Ocorre que, vendo seu pacote de reformas adiado pelo chefe, simultâneo ao ocaso da agenda Chi-Chi (Chile – Chicago), que lhe é tão cara, PaGue estrilou. Foi a Washington e fez os avisos e sugestões que queria. Incluindo câmbio alto e até AI-5 em reação a um levante similar ao chileno. As consequências estão aí: câmbio alto, prejuízo com EUA, relações institucionais abaladas.

Como tudo pode piorar, as notícias de oscilação positiva na economia, que estão nas manchetes dos principais jornais do país, são questionadas por um dos mais prestigiados e conservadores jornais econômicos do mundo, o inglês Financial Times (FT) – que por sinal há uma semana elogiava o pacote PaGue.

O FT desconfia dos dados do Ministério da Economia sobre o PIB (Nelson de Sá desenhou aqui.). Desconfiança baseada na revisão dos números exatamente na semana em que o ministro sofria revés político e nos estoques publicados nos balanços das empresas, altos demais para combinarem com aquecimento econômico. E Michael Stott, editor do jornal para América Latina, perguntou no tuíter se podemos confiar nos dados da maior economia da região. É grave. Gravíssimo.

Se a desconfiança internacional se confirmar, estaremos fritos. No lugar do AI-5, ou de um cabo e um soldado, PaGue terá dado um golpe com um contador.

Mesmo assim, a Faria Lima acaba de levar a Bolsa a 110 mil pontos, recorde histórico. Definitivamente, Paulo Guedes é o Barão da Ralé.

 
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O dia em que João Doria evitou um massacre

Corria bem o convescote. Até que… Mas antes vamos contextualizar.

Numa manhã de sábado, véspera das eleições presidenciais de 1998, dezenas de Porsches se reuniram na avenida Europa, Zona Oeste da cidade de São Paulo, e saíram em cortejo pela rodovia dos Bandeirantes até Indaiatuba, interior do estado. O destino era o Helvetia Polo Clube, condomínio dos mais exclusivos do mundo.

Num dos gramados infinitos do local, os carros foram dispostos para apreciação do público, que também contava com uma partida do nobre esporte para se entreter. Era o Porsche Polo Day, criado por João Doria Júnior, ora governador de São Paulo, com quem eu estagiava naquele então. Creiam: aprendi muita coisa com ele e sou grato.

Como da batalha equestre a turma entende pouco ou coisa nenhuma, e no final das contas os Porsches, apesar de lindos, são muito parecidos, o público se concentrou em torno das tendas que ofereciam um convescote impecável, com uísque sessenta anos (juro) e champanhe de verdade. Nas rodas de conversa, os chapéus dos presentes prevaleciam sobre os carros e os cavalos.

Então chegou a hora das premiações, que servia de reclame, posto que alguém estava pagando a festa e obviamente esperava retorno pelo investimento.

Eram vários os troféus: carro mais bonito, mais conservado, mais colorido, equipe vencedora, equipe perdedora, jogador artilheiro etc. E além dos canecos cada premiado receberia mimos dos patrocinadores: garrafas magnum, relógios suíços, artigos franceses em couro, tudo das melhores marcas que o mercado de luxo foi capaz de produzir.

Problema: a festa estava tão boa que ninguém queria saber da premiação. Mas a ideia é que cada um pagasse pela tarde ouvindo os nomes dos que fizeram os cheques. Impasse.

Foi quando João teve a ideia de sortear meia dúzia de folhinhas que a famosa marca italiana de pneus criou sob inspiração da decoração das borracharias. São obras de arte, hoje peças de colecionador, com uma dúzia de top-models  fotografada por quem mais entende de luz no mundo. Critério do sorteio: quem chegar antes.

Foi um estouro de manada. Em questão de minutos, depenaram o palco, o pódio, tudo. Sobrou uma estatueta em prata do Joãozinho Caminhador porque eu consegui salvar, e depois com pesar devolvi ao representante da marca.

Em seguida, atônitos, nós da organização não sabíamos o que fazer. E surgiu a dificuldade intransponível: perguntado sobre o relógio de milhares de reais que usava no pulso, igual a um dos que seriam entregues como prêmio, um jovem de aparentemente quinze anos respondeu: é meu, ganhei do meu pai. Deixamos pra lá.

Fico imaginando como acabaria aquele dia se João Doria já fosse o chefe da polícia em São Paulo. Sobre o massacre em Paraisópolis o governador disse que a política não vai mudar e que as ações contra o crime, como roubo, vão continuar.

Receio que aquela tarde acabaria exatamente como acabou. O protocolo aparentemente é esse mesmo, dois pesos, duas medidas. O garden party duraria por horas a fio, assim como o pancadão de Paraisópolis durou. Mas pelo menos não teríamos enterrado nove jovens que tinham entre quatorze e 23 anos.

 
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Fuscão Preto, a águia e o Falcão

“Um dia acordei injuriado e liguei pro Bush”, dizia Lula quando presidente. Naquele período o Palácio do Planalto e a Casa Branca tinham boa relação. Os presidentes tinham afinidades múltiplas, assim como quando sob FHC e Bill Clinton. Já o Obama, justo ele!, foi pego grampeando a Dilma.

Hoje Bolsonaro amanheceu com um tuíte do Trump. Nem deu tempo de celebrar o artigo insano do seu secretario de imprensa publicado na Folha, que obviamente o presidente leu escondido.

Como de costume, o presidente dos EUA avisou pela internet que vai rever a folga dada ao aço e ao alumínio brasileiro e argentino para compensar a desvalorização do real e do peso em relação ao dólar. Isso uma semana depois de, em Washington, o sabe-tudo Paulo Guedes avisar que o dólar seguirá alto em relação ao real.

Ato contínuo, Bolsonaro correu para o quebra-queixo matinal e disse que, se necessário, telefonará para Trump. Não duvido. Meios não lhe faltam. Falta o que dizer. E receio que repetir “i love you” terá o mesmo efeito de quando dito pessoalmente. Isto é: nulo.

Talvez seja melhor usar um clássico brasileiro para ocorrência de chifre. Fuscão Preto, que por sinal é feito de aço. Para facilitar, tem até versão traduzida pelo Falcão. É isso! Para enfrentar a águia, vamos de Falcão.

Enquanto a turma não entender que passarinho não acompanha gavião, é o que teremos.

 
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Inês pode ser a sua filha

Já estive em Paraisópolis e andei pelas vielas e becos onde morreram pisoteadas nove jovens na madrugada de sábado para domingo. Posso afirmar que até o ar tem dificuldade de circular por elas. Agora imagine cinco mil pessoas desesperadas, correndo de tiro, porrada e bomba.

Passadas 24 horas, surgem análises dizendo que à polícia militar, responsável pelo tumulto, falta treinamento e preparo. Nada mais falso. Do ponto de vista da estratégia de guerra, o massacre foi um sucesso. O absurdo é tratar civis como adversários de guerra.

Os vídeos gravados por moradores mostram que os policiais envolvidos na operação conheciam bem o local. Encurralaram o baile e criaram a panela de pressão perfeita. Deu no que deu. Ou no que queriam que desse.

Daí que falar em falta de treinamento é no mínimo equivocado. O problema é o tipo de treinamento. A forma de comando e a cultura dentro dos quartéis, historicamente violentas e dirigidas para pesar sobre pobres, pretos, periferias.

Pelas condições da vida que tive, desenvolvi ótima relação com policiais. Cresci frequentando palácios. Em alguns períodos tive que andar escoltado por militares à paisana, dos quais fiquei amigo.

Talvez por isso, quando converso com policiais desconhecidos, haja um reconhecimento, um respeito mútuo que vai além do que ocorre entre pessoas com tipo físico e CEP semelhante ao meu. Faço piada com PM que finge não ver maconheiro rico na Maria Antônia e beleza. Reclamo tranquilo de viatura impedindo calçada, sobre piso tátil para orientação de cegos, quando deixam o motor ligado sem necessidade, ou quando passa ciclista na calçada e a autoridade não se manifesta. Por isso dizem que sou um irresponsável. Sou, mas não por isso.

Faço elogios e sugestões também. Por exemplo usar o que há de lúdico na força para criar elos com a sociedade civil. Como? Relações públicas. Animais da cavalaria e do canil,  motocicletas e outras viaturas de cerimônia, se disponíveis para selfie aos finais de semana, sobretudo para crianças em parques, poderiam desenvolver uma relação melhor para todos dentro de alguns anos.

E para já é fazer valer a propagada hierarquia militar para mudar a orientação. Se funciona para evitar massacre em pancadão ou rolezinho na Vila Olímpia, tem que funcionar nas periferias. Mas enquanto a posição oficial for que a abordagem na Oscar Freire não pode ser igual a de Parelheiros, as coisas só vão piorar.

Para encerrar, se por acaso alguém desta freguesia defende o excludente de ilicitude do ministro Moro, que a rigor é licença para matar, pense de novo ou admita que é demofobia. Não passou nem deve passar no Congresso. Mas já chegou ao guarda da esquina. E quando o monstro cresce, a PUC vira Paraisópolis e as meninas da classe média morrem queimadas. Então você vai chorar como se o cheiro do gás lacrimogênio chegasse pela TV a cabo. Mas será tarde. Inês será morta. E Inês pode ser a sua filha.

 
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