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Pais e filhos ou Piu!

Não quero ouvir mais nem um pio, Piu!

Quem não teve pelo menos uma passagem dessas com os pais não foi suficientemente criança e provavelmente acabou graduado na Fundação Getúlio Vargas.

Parênteses: o estilo na primeira frase foi roubado do Ensaio sobre a cegueira do xará Saramago. Tinha cá na estante e admito sem vergonha que é minha primeira vez. Estava lendo dois livros ótimos porém graves, Escravidão do Laurentino e Tormenta da Nagamine, que por sanidade mental tive que adiar a conclusão. Sigamos.

Das piadas correntes nesta quarentena está a dos filhos e netos que não conseguem segurar seus velhos em casa. Neste aspecto mais uma vez sou privilegiado. Meus pais estão trancados e mesmo os tios bolsonaristas-negacionistas que emigraram para a terra plana nas redes sociais, cá, na esférica, estão cada vez mais em casa e obedientes ao isolamento. Quem tem bofe, tem medo.

Uma das piadas boas é a da filha que proíbe a saidinha da mãe e ouve, Mas todo mundo está saindo, Você não é todo mundo. Vingança!

Inacreditável é ver as piadas, que na vida privada têm graça, acontecendo oficialmente e justo na Presidência da República.

Na semana passada houve uma reunião ministerial. Dois dos ministros mais populares, trabalhando horizontal e harmonicamente pelo isolamento social a fim de arrefecer a curva de contaminação da Covid-19, Mandetta da Saúde e Moro da Justiça, estavam presentes.

Mandetta disse ao chefe, que em uma entrevista ameaçara o Brasil de estar presente no transporte público em São Paulo, Se o senhor for a ônibus ou metrô, serei obrigado a criticá-lo, E eu vou ter que te demitir.

Sem poder vir a São Paulo, Bolsonaro foi ao comércio da Ceilândia, onde vivem os velhos da família da primeira-dama, que ele não visita nem recebe, e abraçou a gente que estava pelas ruas.

Traduzindo para a vida doméstica, Não quero ouvir mais um pio, Piu!

Doutor Mandetta, um técnico diligente que vem fazendo um esforço tremendo trabalho político para equilibrar a relação com a chefia, quando por ela deveria ser obedecido numa pandemia, enviou à sua equipe, bastante insatisfeita e desestimulada pelos desmandos e desatinos, Carlos Drummond de Andrade, No meio do caminho havia uma pedra.

Se Bolsonaro é uma toupeira que estaciona diante da pedra, Mandetta tem sabido contorna-la. Mas até quando? E quanto tais contornos, que de alguma maneira endossam as sandices planaltinas para o grande público, podem ser letais?

O mesmo vale para o subjugado super-ministro Moro, que baixou portaria avisando que os desobedientes poderiam sofrer sanções que chegam a pena de até dois anos de quarentena no xadrez.

Enquanto isso, ZeroUm apresentou como curado por um remédio que ainda está em teste um idoso que não contraiu o novo coronavírus, ZeroDois afirma que o artista Daniel Azulay morreu de leucemia e não da Covid-19, ZeroTrês festeja a ida do pai às multidões.

A formação de caráter dessa família mostra o que Jair, como messias, criminosamente pode fazer do Brasil. Pela vida de milhares, urge que seja impedido de continuar.

 
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Seremos ricos como nunca antes

O presente é amargurante, desesperador. O futuro imediato será tétrico, deprimente. Mas a tempestade há de passar, a primavera vai chegar, e o mundo que restará para ser vivido pode ser combinado. As notícias que temos para já apontam um porvir longínquo e alvissareiro.

Posso estar otimista demais. Mas igual ao ficar em casa se possível é questão de sobrevivência, física e psicológica, respectivamente. (100% de isolamento não teremos. Então meu muito obrigado às turmas da saúde, da ciência, abastecimento, distribuição, mobilidade, garis, policiais, bombeiros, porteiros, governantes responsáveis.)

Minha esperança vem de uma constatação: o covid-19 causa uma doença aguda, potente, avassaladora, que não pode nem deve ser medida pela necrocontabilidade da proporção de mortes em relação a outros males. Estes são muitos, crônicos, a começar pelos problemas causados pela desigualdade social perversa e pelo descaso também perverso com o meio-ambiente.

A miséria é o que há de mais caro no mundo. Nada custa mais dinheiro do que a pobreza. E destruir recursos naturais não é o caminho para combate-la. Insisto: o modelo econômico de produção e consumo desenfreados que fazem dos EUA, China e Japão grandes potências, se escalado de 1,7 bi de pessoas para sete bilhões, explodiria o mundo.

É triste que tenha que ter sido assim, na marra, por causa de um vírus. Mas é o fato, irrefutável, e teremos que lidar com ele.

A parte alvissareira é que as respostas na sociedade, parte das empresas e dos governos minimamente esclarecidos – exceções talvez sejam os presidentes do Brasil e do México, tidos como “de direita” e “de esquerda” respectivamente – vão no melhor sentido.

Ontem a Câmara dos Deputados aprovou por unanimidade um pacote de renda básica emergencial por três meses. Ampliou à realidade a proposta do governo que era de R$ 200. As transferências serão de R$ 600 a R$ 1.200 para proteger as pessoas mais vulneráveis.

Importante registrar os parabéns pela luta antiga da Rede Brasileira da Renda Básica, presidida pelo Leandro Ferreira e vice-presidida pela Tati Roque, que esteve nos últimos dias à frente da campanha deflagrada pelo debate que a Mônica De Bolle colocou. A RBRB tem como presidente de honra o sempre senador Eduardo Suplicy, que dedicou a vida ao tema. A canção que hoje me embala é Eduardo e Mônica. E quem um dia irá dizer que não existe razão nas coisas feitas pelo coração?

Os efeitos depressivos do covid-19 na economia estão postos e são inexoráveis, aqui e alhures. Marginais também são, dado que o importante é a vida e sem ela a economia perde a razão de ser.

Pode ser a maior crise econômica de todos os tempos, dividindo o pódio com a quebra da Bolsa de NY em 1929 e a crise dos derivativos em 2008. Uma e outra tiveram respostas governamentais diferentes. A primeira foi pelo New Deal, botando dinheiro nas mãos das pessoas. Alicerçou a economia, que quando foi retomada no macro encontrou bases sólidas. Não fosse assim, o mundo provavelmente teria acabado na Segunda Guerra, sem saúde para se reabilitar. Tão sólidos foram seus efeitos que chegou até quase o fim do século. Tão sólido que permitiu a aventura neoliberal das últimas décadas.

Em 2008 quem mandava era o mercado e o socorro dos governos foi para bancos,  montadoras, firmas imobiliárias, grande capital enfim. Os principais culpados se salvaram e já no ano fiscal seguinte distribuíam bônus e dividendos gordos. Custou caríssimo. A desigualdade galopou, a miséria se esparramou, o 1% vertiginoso e despudorado ficou flagrante. Há alguns anos tentamos pagar a conta, queimando até a democracia e o combinado histórico sobre direitos humanos.

Agora temos uma oportunidade única. A pandemia tornou imperiosa a solidariedade, que vem de solidez, da noção de quem é impossível ser feliz sozinho. Quando for possível voltar às ruas, duvido que tenhamos estomago para passar por alguém com frio depois de gastar quinze minutos combinando o casaco com a calça.

Sem querer abusar de vossa quarentena, freguesa, só mais um parágrafo para conclusão, porque é necessário atar meus palpites confusos por tanta alegria e esperança neste 27 de março.

A imensa riqueza produzida pelo mundo no século 20 foi possível graças ao New Deal do Franklin Dellano Roosevelt, ora redesenhado quase no mundo inteiro. Precisamos mais do que nunca aproveitar o baque e o retiro para pensar o que vamos querer quando a pandemia passar. É nossa oportunidade para sermos ricos pra valer, ricos no que importa, e fundamental para ser rico e viver em paz é saber que ninguém, absolutamente ninguém passa por necessidades básicas.

 
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Fica em casa

Curioso como ainda tem maluco defendendo o maluco maior, aquele do Planalto.
Parte dos malucos são uns velhinhos reacionários que afirmam ter saudades da ditadura militar. Obviamente a afirmação só vale com trocadilho: as saudades são do tempo em que conseguiam ereção e os joelhos não doíam. Não tem relação com o regime.
De qualquer maneira, é de chorar. Choro igual chorou o Guga Chacra. Choro igual chorava o Churchill vendo hospital lotado sob a fumaça londrina ou após uma blitz nazista.
Mas como a quarentena é bipolar e nos leva do pranto à gargalhada entre uma notícia e um meme, para os velhinhos cabe a piada do Napoleão de hospício que é louco mas não é burro: atacam o tempo todo no grupo de família. Mas encarar um trem lotado e gravar um vídeo de apoio ao xarope do Planalto, gravam não.
Fazem muito bem. Fiquem em casa. Podem pirar à vontade, a gente aguenta. Mas fiquem em casa.
Beijos
 
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Tarado, psicopata, facínora – país nenhum aguenta isso

A novidade no pronunciamento de ontem de Jair Bolsonaro é o meio. O ódio escancarado, misturado a cinismo e deboche são uma constante em sua trajetória, assim como sinais trocados que alimentam e confundem apoiadores cegos que mimetizam o discurso tornando impossível qualquer debate consequente. Disseminação de fakenews e guinadas irresponsáveis a la Jânio Quadros, que por sinal usava e abusava da mesma estética populista idem. De novo, nada de novo.

Anda assim, nunca um presidente da República valeu-se de cadeia nacional de rádio e televisão para tamanha irresponsabilidade. Trata-se de um tarado, psicopata, facínora.

Se o que deseja vai dar certo a prazo é outro assunto, impossível de responder agora. O fato é que até aqui o ajudou, o elegeu, e mantém acesa a brasa em sua base muscular, que é a seita que segue o mito, não importa o que ele faça ou diga.

Esse músculo, calculo, significa aproximadamente 18% do eleitorado, índice de intenção de votos à véspera do atentado à faca em Juiz de Fora. A ele somam-se mais uns dez, quinze por cento de enrustidos que o seguem à distância. Trata-se no total de um terço do eleitorado, ou o bastante para estar no segundo turno e vencer o inimigo da vez, seja lá quem for desde que seja “de esquerda”, pecha que vale para a maioria de seus opositores.

Porém há os xaropes reacionários como ele correndo na mesma raia. E receio de perder apoio nesse campo é um dos motivos da fala improvisada de ontem, elaborada com ajuda do filho ZeroDois, o Cartuxo, e seu aparelho palaciano conhecido como gabinete do ódio.

Explico: desde o começo da crise do coronavírus o descompasso entre União e entes federativos ficou evidente. Pelo menos 22 governadores se afastaram da Presidência, assim como Legislativo e Judiciário.

Para compensar e tentar reestabelecer a harmonia, o capitão foi aconselhado a abrir diálogo com os governadores via teleconferência. Fez com todos, e ontem só faltava a do Sudeste, incluindo os governadores Doria PSDB-SP, Witzel (PSC-Rj), Zema (nOVO-MG) , Casagrande (PSB-ES). Deu ruim.

Como Doria e Witzel se movimentam para disputar a Presidência em 2022, e por terem ligações eleitorais e ideológicas com o bolsonarismo, o capitão sabe que o maior risco para sua reeleição está dentro de casa, a chamada direita reacionária, não no que é tido por esquerda progressista. A leitura é recíproca, daí os ataques continuados de parte a parte.

O Br Político do estadão, da brava jornalista Vera Magalhães, conta que a teleconferência do Sudeste nesta manhã foi tensa. Doria teria feito críticas, às quais Bolsonaro respondeu com adjetivos pra baixo de oportunista, traidor, demagogo.

Outro motivo foi levantar poeira em torno de Paulo Guedes, fiador e interface do bolsonarismo com o grande capital. Completamente perdido e fora de sintonia com a própria equipe, PaGue se mandou de Brasília para Ipanema e segue em quarentena trabalhando de casa.

Porém, a escalada das falas do ministro, cada vez mais malcriadas e indiscretas, são lidas por velhos conhecidos como pavio aceso – vasto e manjado é o histórico de explosão do distinto.

PaGue tem falado o que quer e demonstra desprezo crescente pela coerência, revela dados sigilosos, imprecisos e incompletos do Banco Central sobre o coronavírus sem compromisso com as consequências, torna público diálogos de articulação com o chefe, como no caso da MP da fome, que permitiria suspensão de contratos de trabalho, encaminhada e depois retirada pelo ministro, que invés de assumir responsabilidade culpou o estagiário pela redação e botou a suspensão no colo do populismo do chefe.

Para completar, o celebrado Dr. Mandetta se encontra em conflito escancarado com o chefe. Não aceita a maluquice do confinamento vertical, que guardaria idosos e deixaria jovens soltos criando defesa imunológica contra a pandemia. O ministro da Saúde segue com a orientação de isolamento horizontal, válido para todos.

País nenhum tem como aguentar essa loucura. Não há governo mas há apoio messiânico ao desgoverno. O que se há de fazer com a Nação prudentemente confinada, ainda que batendo panela diariamente, não se sabe.

A coisa boa é que talvez o Jornal da Globo tenha encontrado a forma de combater a loucura. Ainda ontem, após o pronunciamento, Renata Lo Prete ancorou os fatos tim-tim por tim-tim, contrapondo a fala do presidente com as falas de seus subordinados. Que o exemplo se esparrame por toda a imprensa.

 

 

 
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Seu destino é o bar

Tenho pensado no Washington Olivetto depois do sequestro. Já em casa, depois de um trauma violentíssimo que absolutamente ninguém deveria sentir na pele, ele tem dois pedidos: coxinha do Frangó e cheeseburger da Forneria.

Pediu para comer em casa, porque provavelmente também sentia saudades dos seus, da sua gente, das suas coisas, do seu canto.

Penso no cavaleiro Washington porque também estou confinado, igual a todo mundo que pode e tem o mínimo de noção de sociedade. Posso pedir em casa uma comida saudosa? Posso. Mas não peço. Não é o que me faz falta. O que me faz falta é sair de casa e ver minha cidade.

Quero flanar pelas calçadas. Ir ao parque. Abrigar corpo e espírito numa delícia de museu ou galeria. Esse dia há de chegar. Mais cedo ou mais tarde há de chegar. E quando for, da minha parte será carnaval.

E como em todo carnaval diligente, a primeira parada será num botequim, onde um garçom querido nos espera com as varizes e o sorriso rasgados. Ah, não tem sorriso? Não importa. Meu coração ama inclusive e, não raro, principalmente, os garçons mal humorados. Ama a restauração toda.

Ocorre que, com todo mundo guardado pela quarentena imperiosa, a ampla maioria dos bares e restaurantes estão fechados. Fecho com eles.

Porém, a depender do tempo que durarem as portas fechadas, é quase certo que não encontraremos porta aberta no dia em que portas as das nossas casas finalmente se abrirem. Parece um cenário absurdo, eu sei. Mas quem duvida que o absurdo acontece não está em 2020.

Entendo que pode parecer egoísmo, com tanta dor e sofrimento nas notícias de perto e de longe, ficar aqui pensando aonde vou comer e beber quando puder ir. E pode até parecer otimismo, afinal quem tem garantia de que estará lá no dia?

Mas para quem está preocupado com as pessoas, este é o número: seis milhões de empregos estão ameaçados pela quebradeira que o coronavírus pode impor à categoria. Na escalada padrão, incluindo as famílias, são aproximadamente vinte milhões de pessoas afetadas. Ou dez por cento de toda a população.

Agora, se a preocupação é com a economia, ou meramente financeira, a conta servida fria fica até mais fácil. Ninguém precisa ser especialista para saber o que significa 10% da população, pessoas economicamente ativas, expulsas do mercado de consumo.

Num jogo de palavras, resta saber o que queremos fazer da restauração. Nas cidades, nas estradas, nas praias, no sertão. Se dentro na normalidade todos pagamos para ter calçadas, parques, praças, museus, por que não deveríamos pagar para proteger, na excepcionalidade, nossos bares e restaurantes?

Em tempos recentes pagamos para salvar montadoras, companhias aéreas, bancos. Não uma, mas várias vezes. Com uma diferença fundamental sempre lembrada pelo embaixador da Johnnie Walker: a Escócia tem mais patrimônio em uísque do que a Inglaterra tem em ouro – sendo que uísque a gente bebe.

Escolhemos viver juntos, em cidades, entre outras coisas porque nelas temos um bar ali na esquina. Agora estamos fisicamente separados, confinados, mas juntos em sentimento. Quando a pandemia passar, vamos querer nos encontrar. E o nosso destino é o bar. Vamos salvar os nosso bares!

 
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Mate as saudades de você

Há quanto tempo você não sente saudades, freguesa? Não saudades de alguém querido, um momento, comida, um lugar. Saudades de você. De quem você é. Ou de quem quis ser antes de sucumbir aos padrões inventados sabe-se lá por quem.

Na tranca, me desespero com o futuro imediato no Brasil. Receio que será tétrico, pior do que tem sido alhures. Nosso pacote nacional de enfrentamento à pandemia é o mais tímido do mundo, mesmo considerando que todas as medidas anunciadas serão realizadas.

Mas para além da devastação estou otimista. E é justamente por sentir que as saudades de nós mesmos afloram na intimidade forçada com nós mesmos.

Insisto: noves fora velocidade e potência, o novo coronavírus nada traz de novo. Desde sempre os pobres, as minorias, os mais vulneráveis pagam as contas da humanidade. Pobreza é o que há de mais caro. A novidade é que talvez agora, obrigados a estacionar, a gente pare para pensar sobre o que fizemos das nossas vidas.

Quando foi que nos rendemos ao individualismo, ao egoísmo dos últimos tempos? Meu palpite é que por conveniência social fomos nos entregando, e a cada passo nos distanciando de nós mesmos, do que queríamos, desejávamos, sonhávamos.

Igual a tudo na vida, o combinado geral tem seu lado bom. Receio porém que tenhamos exagerado na dose. O remédio virou veneno.

Em algum momento cruzamos a fronteira do contrato coletivo e partimos para o salve-se quem puder. Simulando urbanidade, adotamos um instinto de horda selvagem e primitivo, abandonando a individualidade e caindo na vala comum do individualismo.

Como pode alguém que sufoca as próprias vontades reconhecer as vontades alheias? Como pode alguém que não se conhece, e portanto não se gosta, carece de amor próprio, ter amor pelo próximo?

Como nos deixamos nos humilhar tanto por sobrevivência financeira e social, ou econômica? A lógica do humilhado é a do dia da caça e do caçador: aceito hoje porque minha vez há de chegar. Medo e vingança. Não podemos ser feitos destes sentimentos.

Agora, em quarentena, a solidariedade nos impõe a viver com o básico – proporções guardadas. Quem ganhar numa loteria cuja fé foi depositada há semanas fará o que do prêmio dentro de casa? No máximo, planos, sonhos. Ou filantropia. Mas para planejar e sonhar ninguém precisa acertar o milhar.

E minha aposta num futuro  melhor vem desses sonhos íntimos. Se nos descobrirmos, nos reconhecermos, se matarmos as saudades de quem um dia sonhamos ser, com efeito poderemos entender, reconhecer e conhecer melhor os demais.

Tarde da noite desço para o térreo do meu prédio. Através das grades olho a rua. Quantas saudades. Vou ao pátio, respiro o ar fresco e inacreditavelmente leve da São Paulo da quarentena. É um deleite. E é de graça. Ou antes: de graça não é, vai custar caro, já está custando.

A pergunta é: qual conta vamos preferir pagar depois que tudo isso passar? A dos últimos cem, duzentos anos, ou a dos séculos por vir? A resposta está dentro de cada um de nós. Mate as saudades de você.

 
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Nossas fuças mascaradas

A voga na minha bolha é o elogio aos paroquianos que mantém o numerário dos empregados domésticos e demais prestadores de serviço sem a prestação do serviço. E o auge da popularidade vai para o crente que, repleto de cutículas, afirma pagar a manicure e estar caprichando na gorjeta do rappi.

Na conjuntura atual o jeito é engrossar o coro na esperança de que a moda pegue. Pode salvar vidas. Mas eu não consigo deixar de pensar no problema estrutural, que é em pleno 2020 haver na sociedade gente que, mesmo empregada, não sobreviveria a três meses sem receita.

Isto é, o problema agora é o novo coronavírus e toda ajuda para combate-lo será bem-vinda. Mas a existência de um estrato social submetido a considerar luxo algo básico para a sobrevivência como a quarentena ante uma pandemia é de amargar. Pior: a convivência com tal situação está normalizada.

Desenhando, o salário dos empregados domésticos é um escárnio. Tais empregos só existem graças à miséria. São filhos da miséria. Não raro, aqui na catedral do privilégio uma família consome em um mês de supermercado o equivalente aos treze meses de salario de uma doméstica. E ai dela se pedir aumento ou aceitar trabalhar no vizinho por um pouco a mais.

Me lembro de 2015 como se fosse agora. O debate nacional era a PEC das Domésticas. No meu entorno, sempre que o assunto entrava, o ar saía, dada a solidez da indignação com a sugestão de estender aos empregados domésticos os direitos trabalhistas então garantidos a todos. Não por acaso, veio uma reforma bárbara com a mudança de governo. E logo em seguida o país elegeu presidente da República o único deputado federal que votou contra a PEC.

Da classe média tradicional ou recém nascida para cima, perdoou-se tudo do PT. Lula foi reeleito depois do Mensalão. Dilma, eleita e reeleita com Petrolão diariamente nas manchetes. Claro, o consumo grassava, havia picanha, cruzeiro, TV de plasma. Mas a PEC das Domésticas foi demais. “Peraí! Uma festa danada!” O complexo de sinhazinha não suportou.

De novo, sem novidade. O Império caiu quando, depois de quarenta anos de passos lentos, finalmente o Brasil tomou vergonha e fez a abolição. Com João Goulart foi igual. Imagina estender direitos trabalhistas ao peão do campo? Coisa mais sem cabimento. Coisa de comunista. E a marcha da família com deus pela liberdade derrubou Jango, entregando o país a uma ditadura militar. Qual família, deus de quem e o significado de liberdade continuam sendo questões marginais.

Nos acostumamos a isso. Talvez sejamos assim. Há um desprezo profundo do 5% que detém 95% da renda nacional pelo andar de baixo. Todas as atenções neste estrato são voltadas ao 0,1% que possuem 48% da riqueza brasileira. Receio que só vivem no Brasil para poder tomar café da manhã na cama e não terem que limpar a própria privada. E seguem assim, de joelhos esfolados, 99,9% da Nação, metade na esperança de receber convites para um garden party, metade por quaisquer migalhas, ora traduzidas no salário de fome mantido para que a doméstica não traga ao lar o coronavírus contraído no trem lotado.

É emblemático que o primeiro óbito no Brasil tenha sido o da doméstica de 63 anos, diabética e hipertensa, que continuou servindo a patroa que chegou da Itália, testou positivo e se deitou provavelmente em plumas de ganso.

Essa mulher vai puxar o grande féretro nacional que passará sob as nossas fuças mascaradas. Se alguém chorar, que pelo menos tenha a decência de evitar a selfie para as redes sociais.

 
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Na tranca e no tranco

O coronavírus mata. Aparentemente isso vai ficando claro inclusive para os negacionistas de tudo. Vide o homem que fala do gabinete mais poderoso do mundo, Donald Trump, que num espirro correu do “não estou preocupado, relaxem, vai passar”, à admissão da “pandemia que pode durar meses” e adoção da renda básica universal para todos os americanos.

Quer dizer, além de pessoas, o cononavírus mata a mentira, a desfaçatez, enquadra a irresponsabilidade. É um horror. Não precisava ser assim. Porém, igual a tudo na vida, o bem e o mal andam de mãos dadas. É a história da humanidade.

Com as crenças e religiões foi assim, da empatia às mais diversas cruzadas, passando pelo controle social. Com a ciência foi assim, desde a pólvora até a internet, passando pela tecnologia nuclear. Com a biologia diferente não seria. Tampouco com a economia.

O mundo está apavorado com o coronavírus, que espalha dor, sofrimento e morte pelo mundo. E também nos presenteia com imagens emocionantes de reconhecimento e solidariedade. Entre um meme e uma notícia, vamos do pranto às gargalhadas.

Vejo amigos empresários tendo que decidir entre seguir em frente ou baixar as portas. Escolha de Sofia. Pode parecer óbvia a decisão entre o desemprego e a vida. Mas e quando o primeiro também significa a morte? Soltamos as mãos uns dos outros ou assumimos o risco juntos? Eu não queria estar na pele de quem tem que decidir.

Alguns desses amigos empresários passaram os últimos tempos amaldiçoando a Política, assim mesmo, com P maiúsculo. Pois guardadas as proporções, faz parte do cotidiano dos políticos tomar decisões assim, escolher prioridades. Haverá reconhecimento a quem se doa à vida pública? (sim, canalha tem em tudo quanto é canto.)

Outros tantos, não raro os mesmos, falaram muito contra o Estado. Tinha que diminuir, tinha que acabar. E o que fazer agora que ele e só ele pode nos salvar? Ciência e tecnologia, rede de proteção e controle social, distribuição de renda, Justiça, quem mais poderia fazer? Alguns setores, exata e literalmente como quem está se afogando, desistiram da mão invisível do mercado para agarrar a mão forte do Estado. Pergunto: por que não ambas?

Entre as pessoas físicas é igual. Que fazer sobre empregados domésticos? Manter o salário sem trabalho e menor risco de contágio; peitar o risco mútuo, ainda que desigual de contaminação, continuando como antes; ou o famigerado lessefér, também conhecido como “cada cachorro que lamba a sua caceta”?

O novo coronavírus, ou vírus coroado, faz parecer que a questão é nova. Mentira! Mil vezes mentira. A gente é que fingia não enxerga-la. Ou o que é pagar um dólar para receber hambúrguer sentado no sofá? Ou aproveitar o desequilíbrio entre oferta e demanda para fazer uma viagem baratinha de carona até ali? Ou condicionar a manutenção da empregabilidade ao arrocho salarial e cortes de benefícios?

Voltando às empresas: o lucro da mineradora que segue bem cotada em bolsa, pagando bônus e dividendos gordos a executivos e acionistas, mesmo tendo um passivo enorme social e ambiental, é de verdade? Não é! É mentira!

O âncora do jornal ganha um milhão por mês. O repórter assistente, enfrentando enchente ou apanhando no curral do presidente, o equivalente a 0,05%. É verdade ou fakenews?

E mais uma vez a vida privada. Costumávamos a nos preocupar com suntuosas festas de aniversário para crianças. Hoje o que pais e avós não fariam para estarem juntos em torno de um bolinho de chocolate com uma pequena vela espetada cantando parabéns para suas crianças?

Passei a vida ouvindo de uma tia querida: o que você não aprende em casa com carinho, aprenderá no tapa fora dela. Eis que aos 41 anos me encontro em quarentena, na tranca, no tranco, aprendendo com dor e tristeza profunda lições que a rua mais agressiva seria incapaz de impor.

 

Com alguém que me lê tem sido diferente?

 
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RBU: Renda Básica de Urgência

No começo de 2017 meu amigo Tomas Biagi Carvalho, que edita a revista Amarello, enviou mensagem com o tema de orientação para a próxima edição: perspectiva.

Sem nenhuma, seja pela depressão que me acometia, ou por racionalizar a impossibilidade do mundo continuar sob o modelo vigente, fui procurar um norte – taí um lado bom das obrigações.

Rolava naquele então nos estados Unidos uma edição da Conferência Brasil, organizada por Harvard e MIT. E uma das mesas improváveis reuniu o vereador paulistano Eduardo Suplicy e o ideólogo reacionário Olavo de Carvalho.

Decidi acompanhar porque uma das minhas preocupações essa o binarismo político-social. E para minha alegria aconteceu o improvável: convergência. Obviamente não integral, mas num tema específico: Renda Básica Universal.

Foi um sopro de esperança que me deu fôlego. Passei a estudar a ideia com entusiasmo. Arranjei uma audiência com o Suplicy, defensor histórico e quase temático da Renda Básica de Cidadania – como ele prefere, ganhei uma aula e seu livro autografado.

Convencido e apaixonado, passei a defender a ideia. Escrevi muito nesta página – o conteúdo está nas tags. Amolei dirigentes de think tanks por uma conferência. Não rolou. Mas tampouco foi em vão, porque com ou sem minha ajuda a ideia brotava aqui e acola em declarações de gente destacada.

A estrutura para o meu convencimento tinha quatro pés: com as novas tecnologias viveremos mais e trabalharemos menos – que fazer?; a concentração de renda acabaria matando os consumidores e, com efeito, o capitalismo; o modelo chinês ou americano de produção e consumo, se escalado de 1,5 bilhão de pessoas para sete bilhões, explodiria o planeta; tudo isso somado à ao binarismo político poderia acabar com a democracia.

Quatro anos depois surge um quinto e trágico motivo: coronavírus ou COVID-19. E de desejável a Renda Básica passou a ser urgente. É o debate econômico global. Seja por perdão fiscal como na França, ou pela determinação do governo Trump de fazer um cheque de mil dólares para cada cidadão americano.

Aqui no Brasil quem capitaneia o debate é a economista Monica de Bolle. Hoje no Estadão vai um artigo seu com os cálculos necessários para a implementação. Leitura fundamental. E acalantadora ante o pavor de ver morrer tanta gente de gripe ou de fome.

Leigo, meu argumento sobre o custo da renda Básica era inverso: a pobreza é o que há de mais caro. E as condições brasileiras amargamente provam isso. Se os hospitais Albert Einstein e Sírio Libanês já não dão conta de atender suspeitos de infecção, imaginem os demais. Imaginem a situação de uma população onde metade das casas não tem saneamento básico. Imaginem como farão para comprar comida os milhões de subempregados. Não por acaso, os dois primeiros óbitos (um ainda dependente de confirmação da causa) são de um porteiro e de uma empregada doméstica.

Mas a professora De Bolle fez as contas: As medidas de caráter imediato – saúde, proteção social e setorial – somam cerca de R$ 310 bilhões ao longo de 12 meses, ou uns 4% do PIB. Isso é metade dos cerca de 8% do PIB que gastávamos com os juros altos de 14% há poucos anos.

Vamos em frente. O caminho é claro e cada segundo pode custar uma vida.

 
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Pavor e papel higiênico

Não é só o papel higiênico. Os adjetivos também estão acabando. Como tratar o estado de coisas a que chegamos no Brasil?

O que aconteceu ontem em São Paulo é um absurdo. O senador major Olímpio, policial que fez carreira política ao estilo Bolsonaro, por pouco não saiu no tapa com o governador João Doria.

Ambos se estranham pelo menos desde a eleição de 2018. Na reta final do primeiro turno, quando Doria escancarou o voto BolsoDoria, traindo seu padrinho Geraldo Alckmin, Olímpio, que presidia o PSL e coordenava a campanha de Bolsonaro em São Paulo, reagiu brabo: oportunista, traidor e daí pra baixo.

De lá pra cá ensaiaram um armistício, que só durou enquanto o flerte BolsoDoria vigorou. Chegaram até a formar um casal de três com a deputada Joice Hasselmann, quando esta, doriana, tomou a presidência do diretório paulista do PSL de Eduardo Bolsonaro, o ZeroTrês.

De lá pra cá a relação entre todos eles se deteriorou. Mas curiosamente só Hasselmann e Doria foram para o microondas virtual das milícias bolsonaristas. Major Olímpio, nunca.

O major tem uma trajetória semelhante a do capitão. Militares indisciplinados, incomodavam os superiores e inflamavam as bases militares, respectivamente a da PM paulista e a do Exército.

Bolsonaro escreveu um artigo para a revista Veja e Olímpio um livro que recomendava ao cidadão reagir em caso de assalto. Quando Veja publicou o croqui do atentado a bomba que o capitão planejou contra o Exército, este foi convenientemente convidado a se retirar da arma. Por conta do livro que assina como coautor, Olímpio foi afastado mas arranjou guarida na escolta do então governador Fleury.

Mais: os dois entraram para a política após o desligamento, com apoio das baixas patentes militares. Os dois passaram por todo tipo de partido e até com o PT marcharam juntos, seja em eleições, articulações ou votações. Os dois têm por ídolo figuras marcadas pela barbaridade: Bolsonaro adora o torturador Brilhante Ustra; Olímpio foi peixe e depois sócio de Ubiratan Guimarães, lembrado pelo massacre dos 111 do Carandiru. Os dois fizeram do estardalhaço e da inflamação das bases militares um modelo político-eleitoral.

Talvez tanta afinidade explique o major ser poupado pelas milícias digitais do capitão. Talvez haja mais lama sob as solas de seus coturnos.

O que aconteceu ontem em São Paulo: na agenda oficial do governador constava visita ao Departamento de Operações Policiais Estratégicas, o DOPE, da Polícia Civil. Era para ser uma visita em companhia do diretor do departamento e do secretário de Estado da Segurança.  Convocado pelos policiais, que disseram ter sido escalados para estarem no local desde as sete da manhã, o senador arranjou um carrinho de som, armou tocaia em um portão vizinho ao que o governador usaria e, quando a comitiva chegou, partiu para cima aos berros potencializados pelo alto-falante.

Doria reagiu com seu tradicional “vai trabalhar”. Olímpio devolveu com “você não tem respeito”. Como praticamente todo mundo era segurança, deu-se um impasse e as autoridades mais altas do chão paulista quase entraram no tapa. Até que Olímpio foi retirado do prédio.

O Sindicato dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo tomou partido do senador em nota: “Major Olímpio, uma das vozes mais atuantes da Segurança Pública paulista, foi hostilizado e agredido por ecoar os anseios de todos os policiais civis do estado de São Paulo.”

Já o governador apelou para o coronavírus, dizendo que o momento é de zelar pela Saúde – como se visita de cortesia em “batalhão” lotado fosse algo prudente em véspera de pandemia.

O desenrolar do dia é ainda mais grave. Quinze cadeias e presídios paulistas “viraram”. A contagem oficial ainda não saiu, mas a estimativa é que das rebeliões restaram 1.356 foragidos. Para dizer o mínimo é raro, se não inédito, rebelião com número tão alto de fugitivos. Do maior levante de todos, ocorrido em 2006 em dezenas de presídios, não consta sequer um fugitivo.

A versão difundida pelo Sindicato dos Funcionários do Sistema Prisional de SP (Sifuspesp) é que os presos se levantaram contra as novas regras para visitas e saídas temporárias para contenção do coronavírus. Pode ser, pode não ser.

Não sendo, ficamos diante da possibilidade de que a rebelião seja também policial, ou uma reação miliciana contra o Estado, como vem acontecendo em menores proporções, porém não menos graves, em outros estados, como Espírito Santo, Bahia, São Paulo, no cotidiano do Rio de Janeiro.

O fio que liga todas elas tem nome: Jair Messias Bolsonaro, seja diretamente, através de seus filhos, aliados, correligionários ou de um ministro.

Vale lembrar que desde domingo Bolsonaro nunca se viu tão isolado institucionalmente. E que o esperto João Doria declarou-se arrependido de votar no capitão.

De qualquer maneira alguém precisa parar esse processo miliciano, que começa com a insubordinação policial. Mas quem? As Forças Armadas? Ora, quando as milícias tomam conta das cidades, nem as dos Estados Unidos resolvem – vide Vietnã, Iraque, Afeganistão.

Apavorado, sinceramente não sei mais o que fazer. E já não há papel higiênico nas prateleiras.

 
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