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Freio de arrumação

É algo que me parecia estranho, como que um sinal trocado, e que me acompanha há alguns anos: as formas de paquera em ambientes tidos como mais progressistas e outros mais conservadores.

Por exemplo, naquela passeata a favor de Aécio Neves entre o Largo da Batata e o shopping Iguatemi, em 2014, que acabou chamada de Revolução do Cashmere, um grupo de mulheres minhas conhecidas, então partidárias do tucano, comentou que, se soubessem que haveria tanto “homem gato”, teriam caprichado mais no visual.

Já nas marchas recentes em defesa da Educação depois dos cortes anunciados, o clima era outro. Com maior presença de ativistas feministas, qualquer flerte que não fosse sutilíssimo poderia acabar em descompostura.

Algo semelhante acontece no carnaval. Os blocos do Centro, Santa Cecília, Consolação e Vila Madalena têm colombinas em fio-dental, meia arrastão e até mamilos de fora. Mas ai do pierrô que, encantado, deixar escapar um olhar pidão.

Nos blocos da 23 de Maio e grandes trios-elétricos digamos, mais profissionais, com abadás, música axé e até sertanejo universitário, a paquera rola solta. Aliás nem sei se podemos chamar de paquera. É pega-pega generalizado.

Em São Paulo há dois ótimos bares com nome de santo depois de um nome comum: Mercearia – São Roque e São Pedro.

A primeira, na rua Amauri, Jardim Europa, reúne gente do tal mercado e endinheirados de modo geral, que chegam da acadêmica de ginástica em carros esporte ou SUVs blindados, motocicletas de super-herói. Bebe-se uísque em litro próprio e grandes coquetéis coloridos. E historicamente o que se vê é que só não arranja uma alegriazinha quem não quiser.

A segunda, São Pedro, lá na Vila Madalena, conta com livraria, reúne intelectuais, artistas e gente da academia de Platão que chegam a pé ou de bicicleta e bebem cerveja em vasilhame de 600 ml no clássico copo americano da Nadir Figueiredo. Mas consta que dá pouco namoro. Muito Brecht e pouco beijo.

Intrigado com o aparente sinal trocado penso e converso a respeito com amigos e amigas para entender o fenômeno. Sou um velhinho do século 20 e reconheço que tenho um longo caminho para me libertar do machismo absorvido no contexto em que vivi. E me esforço para tanto.

A conclusão provisória é que trata-se de um freio de arrumação social. As mulheres e os homens feministas, mais frequentes em ambientes progressistas,  estão de acordo que não podemos continuar vivendo numa sociedade onde os homens sintam-se à vontade para invadir a individualidade feminina com cantadas e sequer o tal olhar pidão. Contato físico sem consentimento expresso, então, nem pensar.

São vários os relatos de mulheres estonteantemente belas que passaram a vida sofrendo com a dádiva da Natureza. Sei de uma que viveu apavorada em receber um prestador de serviço sozinha em casa ou mesmo pegar um taxi, porque se constrangia com os olhares. Outra chegou a mudar de país em busca de algo minimamente civilizado. Ou aquelas que tentavam se ocultar em roupas maiores do que as dos seus números. E ainda outra que, na contramão da maioria que busca preservar ao máximo a juventude, encontrou a paz na idade mais avançada porque não teve sossego enquanto foi jovem e túrgida.

É justo o freio feminista. E a um amigo que discordou por ver exagero na freada perguntei como ele se sentiria se tivesse que encontrar diariamente em seu caminho meia-dúzia de gays desses gigantescos e musculosos que ficassem assobiando ou o encarando e fazendo comentários quando ele passasse. Mudou de ideia.

 
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Boçais, idiotas, estúpidos

Boçais, idiotas, estúpidos, medievais, moralistas de botequim. Pesado, né? Mas foram os adjetivos usados para classificar o governador do estado de São Paulo e o prefeito da cidade do Rio de Janeiro.

Quem usou tais adjetivos? Ratinho? Datena? Olavo de Carvalho? Ângela Ro Ro? Não. Foi o doutor Drauzio Varella, que costuma ser um lorde.

Mas o que deu nele? Ora, justa indignação. Chega uma hora que a Língua precisa ser usada em sua plenitude e os adjetivos mais pesados existem justamente para tal fim.

O que fizeram João Doria e Marcelo Crivella para merecer o tratamento? Mandaram recolher livros da rede pública de ensino e da Bienal do Livro, respectivamente, argumentando que os respectivos conteúdos continham “ideologia de gênero” e “pornografia”, de novo respectivamente.

É inacreditável que em 2019 o prefeito da Cidade Maravilhosa e o governador de um estado que equivale a duas argentinas em PIB ou população mereçam ser tratados assim? Sem dúvida. Mas mais inacreditável é que tenhamos elegido ambos para os postos.

Não fosse a Justiça falar, a censura teria grassado cá e lá. Por falta de palavras o ministro Celso de Mello, DECANO DO STF, usou quinze exclamações para comentar o caso fluminense com a jornalista Monica Bergamo.

Porém o caso paulista me parece ainda mais grave porque agentes do Estado entraram em sala de aula para confiscar o material, que era depositado em sacos de lixo. Imagine você, freguesa, o efeito de uma cena assim na cabeça em formação de adolescentes.

O governador Doria e o prefeito Crivella são o retrato da ralé mais perigosa que hoje governa esferas importantes do Brasil. São ainda piores que o presidente da República porque disfarçam suas tosquices com polidez que a muitos convence. Aliás, não é a toa que tanto o Lide quanto a igreja Universal tenham tantos e tão parecidos seguidores, todos em busca da inclusão social que é negada a milhões de brasileiros e que está na raiz do atraso que torna possível duas bestas como estas serem eleitas.

Enquanto isso o Brasil segue como um dos campeões mundiais da violência contra homossexuais, mulheres, pretos e demais minorias ou grupos vulneráveis.

Acompanho a indignação do doutor Dráuzio e anoto que para mim chega. Não dá mais para tentar ter urbanidade com essa escória, com essa ralé. Daqui pra frente, por mim serão tratados pelo que são: boçais, idiotas, estúpidos. Medievais vou evitar porque Maquiavel, Tomas de Aquino e Agostinho não merecem tais companhias. E moralistas de botequim também, por respeito aos botecos do nosso Brasil.

 
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Negão, o Zé do Pé dos cachorros

Eu bebia numa calçada quando ele chegou e sentou ao meu lado. Não quis papo nem pediu nada. Talvez quisesse companhia. Ou nem isso.

Depois, por conta de um amigo comum, descobri seu nome e endereço. Chama-se Negão e morava numa casa na quadra de baixo da mesma rua que a minha.

Cão vira-lata, Negão é um tipo de Zé do Pé dos cachorros. Vivia sozinho mas conhece todo mundo e todo mundo o conhece. Quando era vizinho de um restaurante japonês e de uma hamburgueria refinou o paladar a ponto de recusar pão e até frango.

Nos dias de calor procurava lojas com ar-condicionado e se deitava na entrada. No frio, ganhava roupas da vizinhança.

Flanava por toda a paróquia tranquilamente e sabia atravessar até a Brigadeiro Luiz Antonio. Um dia, porém, foi atropelado, mas não se machucou e muito menos se intimidou.

Os tempos verbais estão confusos porque a vida é assim, principalmente a do Negão. As últimas notícias que tive dele dão conta de que foi acolhido por uma amiga e está morando em numa confortável cobertura do Jardim Paulista, mas com prejuízo: agora só come ração e anda na trela.

Estou com saudades, Negão. Vê se aparece.

 
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Um cenário ruim e outro pior

A repórter Malu Delgado, do Valor, traçou na segunda-feira 9/9 um panorama do bololô que começa na chamada centro-direita e vai até o reacionarismo de Bolsonaro. Está aqui.

Cito a reportagem em descarado auto-elogio, porque lá pelas tantas ela anota que “é consensual entre especialistas em marketing político-eleitoral que Bolsonaro tem um apoio genuíno que varia entre 15% e 20%” ou, nas palavras do Renato Dorgan, “o eleitor que vota nele até debaixo d ‘água”.

O descarado auto-elogio é extensivo ao Dorgan. No segundo semestre de 2018 junto com ele e Bruno Soller apresentamos na rádio Trianon o Poder em Análise, mesa semanal que observava a corrida eleitoral.

Já na terça-feira seguinte ao atentado de Juiz de Fora debatíamos em nossas reuniões de pauta sobre esse eleitor, então chamado “messiânico” para aproveitar o trocadilho, e como está no vídeo (postei no facebook) a projeção era exatamente a mesma: 15% a 20%. Renato estava ausente por compromisso de campanha.

Eu particularmente errei fragorosamente achando que a internação de Bolsonaro o prejudicaria. Sem corpo a corpo e fora de debates, quis acreditar que o eleitor não lhe daria cheque em branco. Ledo engano. Ele ganhou dez minutos diários no Jornal Nacional, surfou na justa comoção popular e esteve protegido de expor seu despreparo e ideias esdruxulas, engordando os índices de intenção de voto e nos levando a separar seu eleitorado entre o muscular e o adiposo.

Hoje noto que há um meio-termo entre o tecido adiposo e o muscular. Vitaminado pelo anti-petismo, Bolsonaro foi eleito com 55% dos votos. Com oito meses de governo, pouca entrega e movimentos contraditórios, como as gestões contra o combate à corrupção na Receita Federal, Polícia Federal, COAF e proteção ao varão / Queiroz, hoje tem aproximadamente 30% de aprovação – pior cenário dentro do mesmo prazo desde Fernando Collor.

Quer dizer, 25% era gordura pura e derreteu. Sobram 30%, e descontando os 15% a 20% de musculo sobram entre 10% e 15% de aprovação. Quem seriam esses apoiadores? Palpite: é o bolsonarista encabulado, aquele que gosta do discurso totalitário, “manda prender, manda soltar”, “bandido bom é bandido morto”, sente saudade da ditadura militar, preza o capitão por ter votado sozinho contra a PEC das Domésticas, andou muito incomodado tendo que conviver com a classe C nos aeroportos. Porém, tendo pudor de assumir suas posições socialmente, elogia o PaGue e o Conje.

Bolsonaro sabe disso e malha para manter a musculatura que deve garantir sua ida ao segundo turno em 2022. O campo político que vai do “conservador nos costumes e liberal em economia” ao reacionário já está congestionado e será difícil evoluir. Moro, Huck, Amoedo, Maia, Doria, Witzel, Meirelles, Daciolo. Pelo menos quatro deles estarão na cédula e terão que dividir a rapa da chamada “direita”. Quando o candidato da “esquerda” chegar perto de Bolsonaro, a chance de boa parte desse eleitorado se transformar em caloria e engordar a base bolsonarista é alta.

Sim, há variáveis, como a economia, o emprego, educação, segurança, saúde. Mas não estamos em condições normais de temperatura e pressão política. E Bolsonaro terá a máquina e alta-exposição diária. Não dá sinais de que pode cansar da malhação diária. Resta saber se quem o assiste conseguirá evitar a fadiga.

Pior, ele também pode crescer proporcionalmente com a supressão de adversários. A começar pela apatia dos moderados que, ante o quebra-quebra das torcidas preferem nem falar ou saber do futebol. Depois com ajuda do que o Oscar Vilhena Vieira chamou de “legalismo autocrático”, que é o uso do Judiciário para neutralizar concorrentes. E ainda as fakenews, que devem piorar com o deepfake, espalhando confusão e medo na sociedade.

Há dois exemplos de como funciona esse esquema, um histórico e outro fresquinho usado por gente que, de um jeito de outro, está completamente separada dentro de algum ponto de vista.

Como a história mostra, na década de 1930 Adolf Hitler surge apoiado pela extrema direita, que nunca passou de 10% do eleitorado, mas chegou ao poder conquistando outros 10% de insatisfeitos com o establishment, o funcionamento das instituições e ganhando musculatura para se colocar como a única força capaz de derrotar a ameaça socialista ou o Terror Vermelho stalinista, conquistando a burguesia e dobrando o poder nazista para fazer Hitler chanceler e começar seu projeto de ruptura institucional e eliminação de adversários. (O Terceiro Reich no poder – Richard Evans.)

Hoje, em Israel, o premiê Binyamin Netanyahu se prepara para as eleições marcadas para o dia 17 de setembro tentando aprovar um projeto que permite gravar em video os locais de votação. Sob a desculpa de evitar fraudes, a ideia é intimidar a minoria árabe, crescer proporcionalmente e, de quebra, manter quente o discurso de eleição viciada – qualquer semelhança com aquela história do perigo da urna eletrônica no Brasil não é mera coincidência.

Encerro dizendo que este não é o cenário mais grave. Temo fortemente um endurecimento do regime em resposta a alguma ameaça real ou produzida à segurança nacional. A primeira poderia vir dos tantos grupos seguidamente provocados  pela BolsoFamília, como setores da Venezuela, Irã, Hesbollah; a segunda é um clássico da ditadura militar. E as declarações históricas ou atuais do clã infelizmente provam que não exagero.

 
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O prefeito de joelhos

O prefeito de joelhos, o povo de olhos vermelhos, e o cartel com um bilhão.

Parodio a Opera do Malandro para homenagear a malandragem do cartel de empresas de ônibus de São Paulo. Grande feito. Nos condenaram a mais quinze anos sob seus maus-tratos.

Já no meio da tarde da quinta-feira 5 de setembro os termômetros paulistanos marcavam 14 graus e garoava. E com os bloqueios nas saídas dos terminais e pátios, em pouco tempo não havia ônibus nas ruas.

Pensei comigo: isso é feito para machucar. Greve de trabalhador, de modo geral, é anunciada de véspera ou até com dias de antecedência, porque os grevistas sabem que suas famílias e amigos serão prejudicados. Se começa assim no meio da tarde, quando todos estão no trabalho e muito longe de casa, não parece coisa de trabalhador.

Mas então o que pode ser? Bom, tem cara de locaute, rabo de locaute…

Na sexta-feira, como num passe de mágica, a situação voltou ao normal. No sábado os jornais traziam a explicação: colocado de joelhos pelas empresas cartelizadas, o prefeito Bruno Covas cedeu e assinou a extensão do contrato por mais quinze anos e R$ 65 bilhões.

É de amargar. Nossa frota é péssima, ainda tem carro sem suspensão, cheio de degraus na cabine, transmissão mecânica. Carros lotados, pessoas feito sardinhas.

Há tecnologia e dinheiro, muito dinheiro, para uma frota confortável para os passageiros e motoristas e melhor para toda a cidade, que gere menos poluição atmosférica e sonora.

Mas perdemos o embarque. Pela fraqueza do prefeito, serão mais quinze anos de condenação. Se houver cinema no Brasil de 2030 alguém poderá filmar um documentário sobre a tarde que durou quinze anos.

 
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Tarcísio merece ser estudado

O ministro Tarcísio Gomes de Freitas desempenha bom papel na Esplanada. A anos-luz do segundo colocado, que provavelmente é segunda colocada, ele avança e entrega bom serviço sem alarde e sem ceder à verborragia tóxica dos que lançam perdigotos diários para ficar bem com o capitão.

Quadro técnico que serviu aos governo Dilma Rousseff e Michel Temer, mostra que também tem cintura política. Alheio ao patrulhamento do chefe, trabalha e entrega Infraestrutura sem olhar a quem desde que assumiu, como prova a festa de inauguração de rodovias que ligam estados nordestinos realizada na Bahia, governada pelo petista Rui Costa.

Moço, conta 45 anos e tem carreira acadêmica brilhante. Formado nas Agulhas Negras e graduado no Instituto Militar de Engenharia, foi o aluno com a melhor média da história da instituição. Serviu ao Exército como engenheiro e à Câmara Federal na consultoria legislativa, onde deve ter aprendido o borogodó político.

Seu primeiro posto de destaque foi a diretoria do DNIT sob Dilma na fase faxineira da corrupção. Conseguiu sobreviver no órgão ainda comandado por Valdemar da Costa Neto, o Boy, sem escândalo de corrupção – feito anda mais vistoso do que ter acumulado a melhor média histórica na escola de engenharia militar.

Atualmente, como alternativa óbvia à paralisação dos caminhoneiros, retomou a cabotagem na costa brasileira, incentiva as hidrovias nos grandes rios do Norte, que deve se esparramar pelo país, e também avança com ferrovias, primeira privatização de vulto do governo atual e que pode trazer interesse por investimentos na demanda assim que melhorarmos o que está estragado ou recuperarmos o que foi perdido.

O fato mais curioso em torno do nosso “primeiro” ministro é conseguir trabalhar bem em meio a tantos malucos e superando controvérsias. Por exemplo: Joaquim Levy foi esculhambado no BNDES por não ceder à narrativa belicosa da caixa-preta e por ter servido Dilma, quando iniciou a política econômica atual, que nada tem de nova. Gomes de Freitas também serviu Dilma e Bolsonaro finge que não sabe.

Outra controvérsia interessante é conseguir entregar a pavimentação de rodovias com mão de obra e tecnologia da engenharia Exército a custo muito mais baixo do que o que pagamos historicamente à iniciativa privada e com qualidade e prazo melhorados, provando que o Estado pode ser eficiente quando quer, ao mesmo tempo que prepara o maior plano de privatização do governo, incluindo portos e aeroportos e outros equipamentos defasados.

Como ele consegue é um mistério. Baita brasileiro. Tremendo craque. Merece ser estudado. Não tem partido, mas tem futuro.

 
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Travessia rumo à Academia

Crônica publicada na #31 edição da revista Amarello – Travessia, que está nas bancas

Cada vez mais aceleradas, as transformações tecnológicas interferem diretamente na sociedade, que no mundo inteiro sofre para acompanhar o ritmo. Há quem goste e quem desgoste, mas ninguém poderá se livrar completamente dos seus efeitos. Popular nos Estados Unidos, a equação sobre a certeza de morte e impostos obviamente carece da inclusão da inovação tecnológica.

Comunicações, sistemas de poder e até religiosidade são impactadas. A biotecnologia, que envolve a humanidade para muito além da saúde, desde a alimentação até os códigos genéticos, prova que é impossível escapar completamente da inovação.

Ao contrário da dimensão infinita das transformações, nosso espaço para texto impresso é limitado, obrigando o cronista a escolher um tema para abordagem. Fiquemos, pois, no campo da economia e do trabalho, onde os impactos podem ser percebidos com maior clareza, ainda que com a natural divergência sobre como será o amanhã.

Considerando a robotização e automação dos meios de produção, o horizonte que se vislumbra é o da prescrição de grande parte do trabalho como conhecemos e entendemos hoje. Até aí, descontando a velocidade da transformação, nada de novo desde o controle sobre o fogo, a descoberta da roda, a invenção da agricultura, o advento da água encanada. Somando inteligência artificial e internet das coisas, a coisa muda de figura e ninguém discorda que daqui pra frente, quase tudo será diferente.

A sempre bem-vinda discordância emerge principalmente em dois partidos, ou o dos que acreditam que, como sempre, novas atividades surgirão para substituir as prescritas, e o dos que enxergam a extinção do trabalho compulsório – e este que vos fala está entre eles.

É verdade que através dos tempos a tecnologia matou profissões e criou outras. Mas pelo menos dois fenômenos são absolutamente inéditos: inovação simultânea em todos os setores – do primário, que é a produção de comida e abrigo para o Homem, até aqueles que sequer como setores são entendidos, como as artes no sentido contemporâneo da palavra.

Tudo já pode ser feito por robôs. Teses, tratados, sentenças, investimentos, músicas, romances, esculturas, casas, trens, entregas, manutenções, banquetes, roupas, caipirinha e mandioca. Sim, finalmente a gente somos inútil.

A primeira parte do problema, para quem assim o reconhece, é como fazer para que a economia continue girando. Se todo o produto da produção continuar se concentrando nos bolsos dos donos dos robôs, cedo ou tarde o círculo – e não o índice – de Gini vai se fechar e morrer. Para continuar girando, teremos que ressignificar o trabalho e distribuir renda de acordo.

A segunda parte é como sintonizar a moral constituída desde os primórdios, que atrela trabalho, renda e sentido de existência com as inovações que se darão num sopro antes de condenar à depressão e desesperança toda uma geração. Como manter confortável a pessoa que terá renda mesmo sem trabalhar?

Meu palpite de estudante de filosofia é que basta usar a dialética. Dois esquemas que mostram a separação entre renda e trabalho: Pelo menos metade da humanidade sempre trabalhou e continua trabalhando sem ganhar um tostão, como as mães e donas de casa, e, em número menor, mas proporcionalmente relevante, pessoas que, tendo garantida renda de sobra, pagam para trabalhar, como mecenas, ongueiros e voluntários.

Reconheço, porém, que sociologicamente é mais complicado. Recorramos, pois, a quem é do ramo.

Talvez influenciado pelo primeiro nome, o sociólogo italiano Domenico de Masi entende o desemprego atual como uma construção social, questão estrutural, e que portanto pode ser reformada pela sociedade. Para fazer a travessia inexorável ao cada vez mais amplo e profundo tempo livre, ele propõe uma evolução da redução da carga horária de trabalho, de modo a repartir o que resta por fazer entre o maior número de pessoas para facilitar a equalização.

Em seu novo livro Uma Simples Revolução, lançado no Brasil em maio de 2019, ele aponta o caminho para sua obra mais conhecida e, logo, anterior, O Ócio Criativo. Mostra que, em, 1891, trinta milhões de italianos suavam setenta milhões de horas, e em 2018, 61 milhões de italianos suam quarenta milhões de horas para produzir vinte vezes mais. Ou que, há três ou quatro gerações, vivíamos 300 mil horas, metade delas trabalhando, e hoje vivemos 700 mil horas, dedicando pouco mais de 10% do tempo ao trabalho. E se mesmo assim geramos mais riqueza, está provado o valor d’O Ócio Criativo. A revolução, de implementação nada simples que ele propõe, está na forma de distribuir a riqueza a quem de direito, isto é, a todos – até porque é de interesse de todos.

Tendo a concordar com Masi e me arrisco a dizer que a travessia individual acabará acontecendo no plano intelectual como aconteceu no plano físico. Digo, quando nos libertamos completamente de procurar fogo, carregar peso, buscar água e comida, tratamos de fazer esforço por esporte, e a febre mundial das academias de ginástica não me deixa mentir.

Com o pensar seguiremos a mesma trilha, isto é, assim que os robôs dominarem as maçantes tarefas burocráticas, muitas das quais por nós criadas, seja para disfarçar nossa inutilidade ou garantir renda para determinado grupo, buscaremos a academia original, a academia do saber, a academia do Platão. Sim, nossa travessia é rumo à academia.

 
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A partida da grande arca dos partidos

Ombreado por líderes de diversas religiões o Cardeal Dom Claudio Hummes falava sobre a defesa dos Direitos Humanos e da preparação para o Sínodo da Amazônia, que vem sendo criminalizado por integrantes do governo federal. Junto deles, no palco do Tuca, representantes de nada menos que dezesseis partidos políticos das mais diversas ideologias.

Da plateia, lotada, com gente sentada nos corredores e outros tantos de pé lá no fundão criativo, eu ouvia e pensava na Arca de Noé. Básica como toda boa ideia, a proposta é juntar os diferentes num cruzeiro que possa atravessar o dilúvio que ameaça a Democracia no Brasil.

Já no final do ato, em pessoa, aos noventa anos, surge o filósofo Noam Chomsky, lembrando que a ameaça é global. Citando o resultado da rodada anual do grupo de pensadores que se reúne todo mês de janeiro para avaliar a situação da Democracia no mundo, cravou que nos ponteiros do Doomsday Clock, ou Relógio do Apocalipse numa tradução livre, temos apenas dois minutos para salvar a urbanidade, o diálogo, os Direitos Humanos, a Democracia. Quando vemos o que acontece na Inglaterra e nos Estados Unidos, que resistem graças à instituições sólidas, ou na Hungria e na Turquia, que sucumbem pela falta delas, fica impossível discordar.

O palco histórico de resistência do teatro da Pontifícia Universidade Católica se transformava mais uma vez em porto seguro dos Direitos Humanos, e sociólogo Fernando Guimarães, nosso bravo amigo Fefo, no papel de Noé, abraçava a todos e soltava as amarras da arca Direitos Já – Fórum pela Democracia, cuja carta de navegação e escalação da tripulação ele começou desenhar no instante seguinte do resultado final das eleições de 2018.

O critério para embarque é simples: bem-vindos serão todos que topam conversar com urbanidade, reconhecimento e respeito, dentro das regras democráticas, sobre qualquer divergência possível. Deu certo. Deu match. Militantes do PC do B se sentaram com os do partido Novo, os do PL com os do PDT, os do DEM com os do PSOL, os do PSDB com os PT, e PSB, Rede, PV, PR, Pros, PSD, Podemos, Cidadania.

Infelizmente, do PT e do PSDB só compareceram lideranças independentes, como o os petistas vereador Eduardo Suplicy e o urbanista Nabil Bonduki, este num gesto corajoso sem recear desagradar a legenda no momento em que aparece como potencial candidato a prefeito de São Paulo, e o presidente de honra dos tucanos Fernando Henrique Cardoso, que enviou um depoimento por vídeo.

Comportamento curioso. Num ato plural, petistas e tucanos não querem aparecer juntos. Mas para furar a tradição da escolha do comando da Assembleia Legislativa de São Paulo topam fazer acordo de vão de escada. Lamentável.

Deu ruim também para Guilherme Boulos, do PSOL, e Rodrigo Maia, do DEM, que faltaram para não se encontrarem.

Lembrança a todos: ainda é tempo de embarque.

A grande fala política foi do governador do Maranhão Flávio Dino, do PC do B. Homem público gigante, já serviu à Nação no Judiciário, no Legislativo e agora no Executivo, e hoje ostenta a maior honraria nacional, que é o título de pior governador do Brasil, concedido pelo presidente da República atual.

Dino estabeleceu o norte do cruzeiro na seguinte triangulação: defesa da Soberania, da Educação, Ciência e Tecnologia, e retomada da bandeira do combate à corrupção, frisando que a maior de todas é a abjeta desigualdade social que, digo eu, no mundo inteiro é o primeiro motivo de desequilíbrio democrático.

Mão no remo, Fefo! Mete a vela!

 
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Amazônia internacional

Soa estranho, eu sei, mas a ideia de uma autoridade internacional para a Amazônia pode ser boa.

O principal argumento contrário, forte a ponto de impedir um diálogo maneiro, é o da ameaça à soberania nacional. É na verdade uma charla, não um argumento, mas entra na cabeça de um e outro e tantos e não sai mais, como tanta coisa hoje em dia.

Pense em Itaipu. Binacional, é a segunda maior hidrelétrica do mundo, produz 20% da energia que o Brasil consome e 95% da paraguaia. Principalmente, foi construída em parceria pelas duas ditaduras militares destes dois países, taradas por soberania nacional como toda ditadura militar. Logo, quem simpatiza com uma e outra deveria arranjar outra cascata para vender a ameaça de internacionalização da Amazônia.

Para além disso, a Amazônia já é internacional. Está no Brasil, Peru, Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia, Guiana, Suriname e França – que historicamente cuida tão mal ou pior que os demais países do quinhão que lhe cabe.

A região toda se comunica, não só pelas árvores, que funcionam como em uma rede, como pelos rios, cujo principal é o Amazonas, que nasce no Peru. Quer dizer, se um país não cuidar, os demais serão diretamente afetados, o planeta inteiro será.

Ainda: o mundo todo, ou pelo menos os países signatários dos tratados de Kioto e de Paris, combinaram de pingar dinheiro para garantir a preservação da floresta. São dezenas de bilhões devidos, e um fundo internacional que garantisse o não calote em troca da preservação chega a ser uma ideia óbvia.

Esses tratados nascem da consciência das civilizações sobre as bobagens que fizemos com o meio-ambiente especialmente no século 20. Quando caiu a ficha de que a conta do desenvolvimento não fecha sem a inclusão do clima, quem “prosperou” destruindo a natureza reconheceu que deveria pagar para conservar o que resta.

Os Estados Unidos, responsáveis por 17% da poluição na Terra, saíram do acordo logo depois que Donald Trump entrou na Casa Branca.

Se alguém discorda do que está acima, por favor não me conte. Os demais, por favor me acompanhem em só mais um parágrafo.

O secretário-geral da ONU António Guterres propôs e a Amazônia deve entrar na pauta da Assembleia Geral que começa neste dia 20. Pensar a criação de uma autoridade internacional amazônica que respeite regionalidades, autodeterminação cultural, obviamente as soberanias nacionais, e que seja responsável pela preservação ambiental, cuidado com pesquisa científica e desenvolvimento econômico – que obviamente inclui o social – pode ser uma boa ideia e pode servir como laboratório para outras regiões no mundo onde casos semelhantes se verifiquem.

 

 

 
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Marmita é símbolo do nosso fracasso

Que é que você trouxe na marmita, Dito?
Truxe ovo frito, truxe ovo frito
E você Beleza, o que é que você troxe?
Arroz com feijão e um torresmo à milanesa

Tenho horror à marmita. Ou, antes, atendendo ao chamado do embaixador Azambuja, admito que é exagerado dizer horror. Mais exato é dizer que a imagem da marmita me entristece, aborrece, traz sensação de fracasso.

Claro que o bode não é com a própria marmita. Delas mesmo eu gosto e muito, desde as de aço, aparentemente eternas, até as mais desenvolvidas e cheias de bossa como as vendidas na loja do Bento.

Também curto um farnel, cesta de piquenique e esses iglus ou caixas-térmicas, tanto quanto os momentos a eles relacionados. Uma cerveja gelada na praia, um sanduíche no intervalo da leitura no parque, qualquer coisa crocante acompanhando uma conversa molhada ao ar livre. Aliás, o que pode ser mais livre do que apear do cavalo e sacar um canivete para mordiscar linguiça com pão e beber vinho direto de um odre compartilhado com gente querida? Ou mais desobediente e subversivo do que uma hip flask que surge onde era para todo mundo se comportar? Amo muito tudo isso.

E que simpatia os gaúchos carregando cuia e garrafa térmica. Ou aquela foto de camponeses franceses almoçando debaixo de uma árvore num pasto ermo que ficava no banheiro do primeiro andar do Bar da Dona Onça.

Em dias amenos tenho trabalhado em um texto no parque e, às vezes, levo um quibe e duas esfihas do Rosima para acompanhar. Outras, vou de hossomakis.

Me lembro com carinho de uma cesta de vime coberta com um pano que passeou bastante comigo e Fabinho em Paraty. Quem olhava, via a chapeuzinho vermelho. Descoberta do pano, a cesta revelada o plano: tudo para Negroni, incluindo meias-luas de laranja num pequeno tapoé. Me lembro de quase tudo.

Enfim, meu bode é com a marmita urbana. Não com quem a consome, claro. Mas com a cidade em si. Sinto a dor do fracasso de uma cidade quando, essa maravilha que é a aglomeração e organização das pessoas em meio a um espaço comum, se mostra incapaz de prover comida boa e saudável a qualquer tempo para seus habitantes. Para mim não faz sentido que ao cidadão que sai de casa seja preferível, por qualquer razão – notadamente se financeira – carregar a própria comida. Uma cidade que não distribui comida boa renda que a torne acessível aos seus habitantes tem que reconhecer o fracasso retumbante.

Sobre os tantos e tantos que sequer a marmita têm, horror é uma palavra que não só cabe como talvez seja amena – e o embaixador Azambuja há de concordar.

 
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