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Fraude e fakenews 2018 – dez dias que podem durar anos

A pedido da campanha de Fernando Haddad, o TSE se coçou e abriu investigação para apurar indícios de caixa-dois na campanha de Jair Bolsonaro, por compra de disparos de mensagens de WhatsApp em massa, conforme denúncia da repórter Patrícia Campos Mello, da Folha de São Paulo.

Sendo esta eleição a xepa da eleição de 2014, vale lembrar que naquele ano o PSDB pediu a cassação da chapa Dilma-Temer/PT-MDB. Segundo Aécio Neves, “só para encher o saco”.

O processo rolou por anos e, ao cabo, o PSDB quis desistir da ação, porque já tinha ajudado a derrubar Dilma e se acertado com Temer. O julgamento foi aquela patacoada de triste memória, que custou caro ao país.

Digo isso para lembrar que se o TSE não falar logo, faltando dez dias para a eleição e pouco mais de dois meses para a posse do candidato que for eleito, perpetuaremos a crise por anos. Então sejam céleres. Se for o caso de aplicar o artigo 222 (!) do Código Eleitoral, que seja logo.

Também para lembrar ao PT que, se há realmente vontade de esclarecer todos os indícios de fraude nas eleições, o partido deveria ter feito o mesmo pedido sobre a eleição em Minas Gerais, porto que lá foi derrotado no primeiro turno e a campanha de Romeu Zema do partido Novo está citada na matéria da Folha.

A Fernando Haddad eu lembraria que não tem cabimento um candidato a presidente dizer que “basta prender um empresário que vão entregar a quadrilha toda”. Isto é sórdido. Pior prática possível, notadamente para o Estado, para a Justiça, que existem para proteger, não para coagir.

Tão sórdido quanto Jair Bolsonaro não ir a debates nem dar entrevistas coletivas por estratégia, considerando que “já está com a mão na faixa”. E se, como tudo indica, vestir a faixa em 2019? Continuará em silêncio ignorando a imprensa e o contraditório?

Ainda a Jair Bolsonaro eu lembraria que as hashtags #CaixaDoisDoBolsonaro e #Bolsolão passaram o dia inteiro na liderança mundial dos trend topics, de modo que não responder objetivamente sobre as denúncias, dizendo que o PT não entende de apoio “espontâneo” por sempre ter comprado apoio, é tão vexaminoso quanto ele fugir dos debates sobre o Brasil que a sociedade gostaria de assistir.

A esta freguesia, eu lembraria que tudo isso ainda vai piorar muito.

 
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A praga do amarelinho no laranjal mineiro

Na eleição de 1998 para o governo de São Paulo a “praga do amarelinho”, que dizimava laranjais, foi tema central. Vinte anos passados, chegou a Minas Gerais, metaforicamente falando.

Focado em plantar bancadas legislativas, o partido Novo, conhecido pela cor laranja,  registrou candidaturas a cargos do Executivo por estratégia ou mera formalidade. Nota-se que funcionou. O candidato a presidente da República teve bom desempenho, alavancando votos na legenda e conquistando oito cadeiras na Câmara Federal.

A maior surpresa, no entanto, foi em Minas Gerais. Candidato a governador pelo Novo, o laranja Romeu Zema passou para o segundo turno em primeiro lugar, e hoje tem o dobro das intenções de voto do tucano Antonio Anastasia: 66% X 34% dos votos válidos segundo o Ibope.

Surpresa por que ninguém acreditava na candidatura. O próprio partido Novo transferiu só R$ 360 mil para o candidato. Troco para campanha de governador. Os controladores da construtora MRV doaram quase dez vezes mais a Anastasia (R$ 300 mil) do que a Zema (R$ 35 mil). A estrutura de campanha era mínima, praticamente virtual.

Virtual até demais. Hoje a repórter Patrícia Campos Mello da Folha de São Paulo revelou os esquemas de disparos por WhatsApp contratados por campanhas eleitorais. No caso de Zema, a campanha declarou ao TSE o pagamento de R$ 200 mil à Croc Services por impulsionamento de conteúdos, aproximadamente 20% do total de gastos. O diretório do Novo em Minas pagou R$ 165 mil à empresa.

Indagado pela reportagem, Pedro Freitas, sócio-diretor da Croc Services, se enrolou para explicar os termos da prestação de serviços. Começou alegando que aspectos legais eram da conta do candidato, depois recuou dizendo não saber se prestara serviços, e então enviou mensagem informando que vendeu pacotes de disparo de WhatsApp em massa.

A Folha apurou que dias antes do primeiro turno os mineiros receberam mensagens vinculando Zema a Jair Bolsonaro, sendo que o candidato a presidente do Novo era João Amoedo.

O problema de acertar sem querer em disputa eleitoral é que, diferente de um cavalo azarão no turfe, onde o ganhador bota o prêmio no bolso e vai celebrar, em eleição, depois da vitória, vem a obrigação de governar, o que é uma responsabilidade vertiginosa.

A começar pela formação de equipe. Os nomes nacionais do partido, Gustavo Franco e João Amoedo, estarão dispostos a trocar Ipanema pela longínqua Cidade Administrativa em BH? É o mínimo que a responsabilidade lhes impõe.

Outro problema é a composição com a Assembleia Legislativa. O Novo fez três dos 77 deputados estaduais mineiros. Para governar, terá que compor com as forças que costuma chamar de “velha política”, abandonar o discurso confortável de que composições não vêm de graça e criam dívidas a serem pagas com cargos.

Como vai reagir o eleitorado? Palpite: a praga do amarelinho, representada pelos manifestantes que se vestiram de CBF e foram para a rua mudar o Brasil sem saber como, pegou fundo no laranjal.

 
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A milícia do WhatsApp – como Cidadão Kane virou gremlin

A máfia mais conhecida do mundo nasceu no sul da itália, na época medieval, como um movimento de revolta de agricultores contra os esquemas criminosos dos poderosos senhores feudais.

Tiveram êxito. Muita gente aderiu como pôde. Doações em dinheiro, armas, apoio moral, grupos de WhatsApp. Não, calma. Isso é mais recente.

Voltando à origem da Máfia, quando os grupos ficaram fortes e conseguiram debelar as ameaças do poderio feudal, toda a gente quis voltar ao seu dia-a-dia, tocar a vida.

Ocorre que, dentro dos grupos, alguns membros, percebendo o poder conquistado e jamais imaginado, não quiseram largar o osso. E de resistência passaram a algozes, cobrando pela proteção contra os ataques que eles mesmos empreendiam.

As eleições de 2018 serão marcadas pela proliferação de grupos de WhatsApp. O conteúdo disseminado, feito para parecer amador, na verdade é sofisticadíssimo. A tecnologia usada é uma verdadeira máquina de guerra, usa computadores para multiplicar as contas. Há tempos não é algo que nasce espontaneamente.

Também vale lembrar que a novidade não está no conteúdo. Assim como as armas de fogo, este continua sendo basicamente pólvora e chumbo. No caso da propaganda de guerra, boataria pensada para apavorar e dirigir o entendimento social. A novidade é a sofisticação das armas, ora capazes de disparar milhões de tiros por segundo e com fina pontaria.

Se no Brasil ainda soa como novidade, vale lembrar que nos Estados Unidos o uso de gigantescos bancos de dados para influenciar a sociedade elegeram o inquilino atual da Casa Branca. Cá, como lá, parece ser caso perdido. O TSE não fala nem tem coragem para falar.

A pergunta que fica é: o que será desses grupos depois das eleições? Com parte da sociedade dando mais credibilidade ao WhatsApp do que ao jornalismo e dados oficiais, alguém imagina que seus controladores largarão o osso?

A história ensina que não. Indica que 2019 teremos milhares de Assis Chateaubriands procurando o que fazer de seus “impérios” de comunicação. Anos depois de banida a ameaça de um novo Cidadão Kane, este virou gremlin. Com um agravante: o WhatsApp não tem sede no Brasil, dificultando a investigação e responsabilização de milícias que usam a plataforma para destruir reputações de Pessoas Físicas ou Jurídicas.

Imagina um caso como o da Escola Base, do hambúrguer de minhoca, ou ainda a volta das campanhas de saques que quebravam bancos nos anos 1980 potencializadas pelos recursos atuais. Ninguém está seguro.

Se você é pessoa física, assine um jornal tradicional ou minimamente inscreva-se num serviço de clipping grátis como o Canal Meio. Se você é Pessoa Jurídica, anuncie. Uma imprensa saudável, crítica e com fôlego investigativo é vital para a democracia.

 
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O PT venceu

Etiqueta às favas, o senador eleito Cid Gomes foi à casa do PT e, de um altar cercado pro dezenas de fiéis, meteu o dedo na ferida, cobrando autocrítica dos anfitriões. Ato contínuo, veio a reação dos devotos que não admitem a possibilidade de nosso senhor padim Lula ter pecado.

Os desdobramentos do bate-boca circularam em vídeo o bastante para dispensar descrição. E continuou nos bastidores. Jacques Wagner, que anteriormente chegou a defender que a chapa ideal era Ciro presidente e Haddad vice, trucou. Perguntado sobre a possibilidade da chamada frente democrática, devolveu com ironia: “Que frente?”

Gleisi Hoffmann, senadora reeleita, foi ainda mais longe, dizendo acreditar que quem tem um terço dos votos não deve pedido de desculpas. E deixou escapar que sua expectativa era que a união democrática contra Jair Bolsonaro se desse por gravidade.

É muito provável que o Newton jamais tenha conversado com uma maça, convencendo-a de cair sobre sua cabeça. Ocorre, que, diferente da física ou da biologia, a política é ciência humana.

Gleisi combina com o general que Bolsonaro convocou para cuidar da Educação, defendendo revisionismo histórico e ensino do criacionismo nas escolas. Para eles, quem move a maçã é a serpente. E tanto faz que a serpente esteja lá no Butantã de Curitiba. Se 30% querem comer a maçã, a luta continua, seja para matar ou para salvar a serpente.

E Fernando Haddad enquanto isso? Segue cada vez mais tucano, abusando dos punhos de renda. De possível poste de luz, passou a poste de trancar bicicleta.

Fato é que o PT venceu. Como todo mundo que rejeita Bolsonaro é esquerdista, a chance da frente democrática se encontrar passa pela máxima do Gal Mourão, anotada pela repórter Andrea Saddi, da Globo News: “A esquerda só é unida na cadeia, porque é obrigada a andar junta. “

 
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Jair e José: feitos um para o outro

Jair e José foram feitos um para o outro.

Ontem pela manhã, após visitar o Bope, provando que a fuga dos debates é por deficiência moral, não física, Bolsonaro disse em entrevista a uma rádio de Barretos-SP que seu objetivo é fazer o Brasil voltar a ser o que era “há quarenta, cinquenta anos”.

Música para os ouvidos de José Dirceu, que em 1968 era o galã carbonário da rua Maria Antônia e deve sentir uma saudade tremenda.

Por música para Dirceu entendam tiro, porrada e bomba. Quem lembrou de Geraldo Vandré pode voltar a vaiar o Chico e o Tom por Sabiá. Aliás, turba para vaiar o Chico é tudo o que Bolsonaro mais quer.

Desde 2010 eu acho que a gente deveria ter virado a página de 1968. Cheguei a sugerir, mas não teve jeito. Concorreram Dilma Rousseff e José Serra, ambos de 1968.

Oito anos depois, continuamos condenados ao mesmo debate. Jair finge que não gosta, mas até seus fãs sabem que ele não teria outro tema para batucar. E José agradece, porque o apelo histórico, tão caro à sua biografia, chama os holofotes.

Seguimos assim. Igual a tudo na vida, tem o lado bom, que é o choque de realidade. Já conhecíamos os protagonistas do festival de sandices, mas não imaginávamos que no sofá, nos encontros de família, ao nosso lado, havia gente disposta a tolerar o intolerável. Por outro lado, gratas surpresas. Um parente mais conservador, que defensor da moral conservadora, em privado se mostra cristão pra valer e diz que não vota em quem elogia tortura.

Enquanto isso, os dois depositários da confiança nacional do que derivou de 1968, Lula e FHC, qual Jair e João, seguem mais preocupados com as próprias biografias.

O primeiro, que surge nacionalmente num efeito retardado com dez anos de atraso, no final da década de 1970, podia ter cedido já no primeiro turno, ajustando seu poder à conjuntura, mas preferiu desfilar a capacidade de, mesmo preso, embrulhar a eleição.

FHC, na Europa, espera receber em duas semanas vinte anos o que tem a haver com o PT. Mesmo sendo amigo pessoal e geneticamente mais pai político de Fernando Haddad do que o próprio Lula, deixa estar.

Pena é o Fernandinho, que em 1968 contava cinco anos de idade, seguir obediente à época esperando os mais velhos saírem do fumoir com um acordo. Não consegue vestir calças compridas. Não percebe que tem não um, mas dois Sérgios Motta no Ceará, prontos para meter o pé na porta.

Por trás do pano, general Mourão, recém casado, aproveita a lua de mel observando os delinquentes, a espera da desculpa derradeira para acionar as esteiras do Aerotanque, como fez o Mourão ainda mais antigo, aquele de 1964.

 
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O NOVO tucano

Se o PSDB pode aprender com seus erros históricos já não é a questão. Reflexão teórica é sempre bom, mas o partido chegou a um ponto em que a questão é prática: adianta?

Geneticamente parecido com o PT e diferente do malufismo, a estratégia tucana de ascensão e exercício do poder foi procurar se distanciar do parente escandaloso, topando passar as datas festivas em companhia dos conservadores que recusavam Maluf, a autointitulada Frente Liberal.

A recíproca petista foi igual. Acentuaram a gritaria deixando prevalecer o lado mais histriônico da legenda, que usou e abusou da narrativa “primo pobre, primo rico”, só aliviando na hora H eleitoral.

O ambiente chegou a um ponto de Caim e Abel. FHC estabilizou a economia, fez a maior reforma agrária, começou os programas de transferência de renda, universalizou o ensino. Lula promoveu acesso a bens de consumo, melhorou a infraestrutura nos sertões, consolidou o Bolsa Família, criou o FIES. E mesmo assim, Lula insistia na herança maldita de FHC, que respondia com ironia e não era defendido dentro do PSDB.

No meio do caminho ocorre um evento determinante: o ocaso malufista, baseado em corrupção. Seus órfãos, vexados pela falta de argumentos contra os fatos, jamais pelas ideias atrasadas de doutor Paulo, perfilaram-se aos tucanos não pelas ideias do partido, mas contra o PT.

Inebriado com o adesismo, o PSDB se deixou seduzir, cedendo dia após dia às agendas dos agregados por pura conveniência. Foi de colher para a parentada petista, que em festas cada vez mais distantes, caprichavam em maldizer  o “primo rico”, associando os “primos pobres” à virtude, à ética, combate irrestrito à corrupção.

Nessa guerra fratricida, PT e PSDB passaram a privilegiar as caríssimas máquinas eleitorais, deixando em segundo plano o trabalho de pactuar com a sociedade suas razões de ser. Sabemos como acabou. Todo mundo difamado ou em cana, junto com o Maluf.

E os malufistas, o que fizeram? Resgataram o discurso moral de três, seis ou até dez décadas passadas, invariavelmente recheado de ameaça comunista e combate à corrupção, ora enfeitado com o chamado liberalismo econômico que nenhum deles compra de verdade, porque detestam o Estado desde que sejam mantidos os privilégios que consideram direito adquirido.

Na eleição de 2018 essa turma se dividiu, basicamente, entre Bolsonaro e partido NOVO. Como Bolsonaro não tem agenda nem partido, é impossível identificar um sentimento comum entre seus seguidores para além do ódio ao PT.

Já o NOVO, gestado ao longo de anos e até com excesso de zelo programático, ao subir no muro neste segundo turno, atacando a candidatura petista sem dedicar as mesmas críticas a Bolsonaro e seu estatismo, corporativismo, nacionalismo e intolerância, que em teoria o NOVO repudia, mostra que, além do eleitorado do PSDB, absorveu também os vícios. Sabemos como acaba.

 
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Código coelho: relato pessoal sobre a ditadura militar

Cresci com um código de alarme na cabeça: Coelho. Numa situação de risco, eu deveria tentar telefonar para minha mãe e dizer: Coelho.

Continuo sendo um tipo privilegiado. Mas quando criança talvez fosse mais. E com efeito, era mais ameaçado, por estar na berlinda.

Minha mãe trabalhava no cerimonial do Palácio do Governo desde o período Paulo Egydio Martins, um dos melhores governadores do estado de São Paulo. Passou por Paulo Maluf e José Maria Marin, até que o voto direto para governador voltou e meu tio-avô André Franco Montoro foi eleito. Mas ainda era ditadura militar.

Aqui em São Paulo a resistência de quem não queria perder o poder sem limites era enorme. E por continuar dentro do governo, onde já era conhecida, ela sofria ameaças veladas ou diretas.

Por algumas vezes, sem entender por que, na saída da Escola Nova Lourenço Castanho quem estava me esperando eram policiais à paisana. Só mais tarde fui entender o motivo: ameaças identificadas como reais vindas de grupos paramilitares que davam suporte à ditadura.

Tais grupos são o pior da ditadura. Não é o presidente, mas como a mensagem que ele passa chega na base.

Minha mãe, aparentemente, até hoje não superou o trauma. Chora copiosamente quando a lembrança vira assunto. Neste momento está chorando.

Ocorre que por conta de discursos que negam o período, como o do candidato Jair Bolsonaro, voltamos a falar sobre. É muito duro. E inevitável. A chance de ele ser eleito é real.

Sim, Lula defendeu a expulsão de um jornalista americano que comentou sobre seu etilismo. Sim, José Dirceu ordenou suas hordas a apedrejarem Mario Covas. Sim, uma amiga jornalista ficou detida pela PF sem direito a telefonema na apuração do mensalão. Sim, o caso Celso Daniel é um absurdo.

Mas Lula está preso e o jornalista não foi expulso, por obra do Marcio Thomaz Bastos, que acalmou o chefe. Mario Covas saiu pela porta da frente, levou pedrada, porém não se curvou ao autoritarismo de José Dirceu. Minha amiga segue fazendo jornalismo de primeira linha e cada vez melhor. E a conclusão do caso Celso Daniel continua intragável.

Meu ponto é este: o PT aparenta ter desejado um governo autoritário. Por quê não fez? Porque não pôde. Jamais poderá.

A mesma coisa não posso dizer dos autointitulados “profissionais da violência” Jair e Mourão. Ainda no ano passado, perguntado sobre o problema da Saúde, questão central para o povo brasileiro, Bolsonaro falou de sua defesa da não comprovada “pílula do câncer” e cravou: “Sou capitão do Exército. Minha especialidade é matar, não é curar ninguém.”

Não sei o que seria de mim agora velho num governo de um tipo assim. Nos últimos anos critiquei o PT dia sim outro também. Na maior parte da vezes fui contra, mas quando achei que acertaram, elogiei. Como será o amanhã? Quando criança, tive proteção. Hoje, não teria. Nem aceitaria.

Cogito sim votar em Haddad contra Bolsonaro. Mas o prazo para ele dizer, mais do que demonstrar, com todas as letras que não é parte desse PT sórdido, está acabando. E se não deixar bem claro, demonstrando na prática, já neste começo de semana, pode entregar a história ao José Dirceu, que está babando por uma revolução.  Nada garante que Haddad terá êxito – até pelo contrário. Mas ele tem a obrigação de acenar, e não o contrário, como sugerem alguns de seus apoiadores.

 
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Haddad no cadeirão

Digerir o resultado do primeiro turno não foi fácil. Azia brava. Mas é a democracia e fora dela voltaremos à inanição crítica que imperou na ditadura militar e que até hoje nos impõe consequências.

Isto posto, a alternativa que resta é enfrentar a má digestão votando contra o candidato que faz apologia da ignorância, ataca o pensamento crítico e, assim sintonizado, não reconhece o horror da ditadura militar a ponto de elogiar torturador e perseguir minorias, escandalizando até a extrema-direita mundo afora.

Para sobreviver, terei que almoçar Fernando Haddad, que apesar de não ser minha preferência, individualmente não me incomoda no prato. Já os acompanhamentos, são intragáveis.

Por conta das traquinagens que fez no primeiro turno, bancando o boneco de ventríloquo, poste, advogado, assinando um plano de governo recheado de bílis, chegando ao segundo turno foi recusado à mesa dos adultos. Eleitoralmente falando está mais alto do que os derrotados. Só que este “mais alto” significa o cadeirão destinado às crianças até que demonstrem saber se comportar.

Ciro Gomes foi para a Europa namorar e só volta na quinta-feira. FHC também. Torcida? Que o Velho Continente, palco do acordo de paz mais importante do século passado, os inspire.

Marina Silva foi para o mato. Eduardo Jorge aguarda posição do PV. Henrique Meirelles, depois da fono, planeja carreira de Youtuber. Katia Abreu, calejada pela segunda derrota em um ano, toca o berrante. Geraldo Alckmin só consegue lamber as feridas (nas costas, o que é um feito).

Enquanto isso Haddad ficará no cantinho do pensamento. Fez alguns gestos para mostrar que entendeu o recado. Afastou José Dirceu e Sérgio Gabrielli de sua campanha, tirou Lula e o vermelho do PT do santinho. Passou a destacar o papel de seu avô como líder da igreja Ortodoxa e o enraizamento católico do PT – ambos verdadeiros.

Dizem que é charla para ganhar sobremesa. Pode ser. Mas do outro lado acontece a mesma coisa. Bolsonaro agora propõe 13º para o Bolsa Família, ampliação do Minha Casa, Minha Vida, contemporiza as com minorias que sempre achincalhou. Irá reconhecer, assim como os próprios ditadores, que houve ditadura militar? Que pagar a cuidadora dos seus cães com dinheiro público é corrupção? Passará a respeitar o trabalho da imprensa?

E Haddad? Reconhecerá que o PT tem muita responsabilidade sobre o caldo social entornado? No discurso do nós contra eles? Que no angu das ditaduras os caroços cubano e venezuelano ou nicaraguense não podem ser escondidos? Que houve mensalão e petrolão? Passará a respeitar o trabalho da imprensa?

A ver. Fernandinho, anota aí: é isso ou passar os próximos anos condenado ao babador.

ATUALIZAÇÃO: Entre as figuras importantes deste segundo turno está o deputado federal Onyx Lorenzoni, do DEM, já anunciado como ministro-chefe da Casa Civil de um eventual governo Bolsonaro. Delatado pela JBS por ter recebido R$ 100 mil reais para quitar dívidas de campanha, admitiu o caixa-dois, chorando. Gesto positivo. A confissão liberta.

Porém, meses depois, tendo o inquérito sobre seu envolvimento com o caixa-dois da Odebrecht arquivado pelo ministro Luiz Fux, do STF, o novo Lorenzoni escreveu que “escolheu nunca se meter em corrupção”, e que iria perseguir o delator Alexandrino Alencar: “Esse vagabundo vai perder qualquer benesse que teve, porque ele mentiu.”

Em qual dos dois acreditar?

Em tempo: Alexandrino Alencar, companheiro de Lula em suas “palestras”, segue desfrutando da delação premiada. Como será a relação do possível ministro Lorenzoni com a operação Lava Jato?

 
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João, Jair e as facadas

Duas facadas marcaram o primeiro turno das eleições de 2018. A primeira, em Juiz de Fora, atentou contra a vida do candidato Jair Bolsonaro. A segunda, no estado de São Paulo, acertou Geraldo Alckmin.

Há diferenças essenciais entre uma e outra. Adélio Bispo atacou pela frente. João Doria, pelas costas. O ferimento em Bolsonaro foi físico, ele teve a sorte de ser prontamente socorrido pela Santa Casa e se recupera bem. Saravá! Alckmin, ferido na alma e nas urnas, talvez jamais se recupere.

Nelson Rodrigues atribuía a Roberto Marinho uma frase que é excelente conselho: “Prefiro ser traído a desconfiar de todo mundo.” Procuro exercer e recomendo.

Mas admito que no plano doméstico o verbo preferir pode soar exagerado. Se viver desconfiado das pessoas queridas é o inferno na terra, a traição dentro de casa é ferida que nunca fecha, notadamente se acontece por motivo torpe, como sanha eleitoral.

A facada de João Doria em Geraldo Alckmin acontece em três tempos. Começa quando o ex-prefeito, politicamente apadrinhado pelo ex-governador, logo que empossado mete o louco e inicia campanha nacional para a Presidência da República, causando, além do constrangimento da traição aos olhos de todos, abalo à imagem de seu fiador.

Frustrado o plano A, principalmente pelo declínio da popularidade entre o eleitorado abandonado, o plano B se revela a segunda etapa da punhalada. Candidatando-se a governador, deixou o padrinho com dois palanques, ou um pé em cada canoa, e sabemos como acaba quem pisa em canoas distintas que se afastam.

Para piorar, a parte B-2 da traição foi atacar abaixo da linha da cintura Márcio França, atual governador de São Paulo, que foi vice de Alckmin leal e discreto, e articulador da aliança ampla que elegeu Doria prefeito. Mais constrangimento para Alckmin, que aos olhos dos simpatizantes do afilhado, não teria sido capaz de escolher o próprio vice.

A conclusão da traição vem com a chapa bolsodoria, ajudando a enterrar a campanha de Geraldo Alckmin no estado que o elegeu por quatro vezes. A candidatura de Alckmin acabou na quarta colocação, tanto no Brasil quanto em São Paulo, abaixo de 5% e de 10%, respectivamente. É claro que outros fatores contribuíram, porém são todos digeríveis.

Não satisfeito, Doria ainda sapateou sobre o caixão, acionando o plano “Miami-Orlando”. Na primeira reunião dos tucanos, realizada dois dias após o primeiro turno, ensaiou defesa da tese exposta por Orlando Morando, prefeito de São Bernardo do Campo, de abreviar o mandato de Alckmin na presidência do PSDB.

Voltando a chapa bolsodoria, a torpeza do cálculo, logo identificada pela tropa, levou à recusa do apoio. Primeiro colocado para o Senado em São Paulo e aliado do ex-capitão, Major Olímpio gravou vídeo desancando o oportunismo, rechaçando o apoio e lembrando que, em passado recente, Doria desprezava Bolsonaro.

O militar pode não conviver muito com seus cachorros de Angra dos Reis, até porque tinha a Val do Açaí para trata-los, mas deve lembrar da frase de outro Roberto, o Jefferson: “Não brinco com cachorro que já mordeu a mão do dono.”

Jânio Quadros, onde estiver, que se cuide. Seu legado de demagogo-mor sem limites para criação de factoides, cujo auge foi o auto-golpe que descambou para a ditadura militar, está seriamente ameaçado pelos candidatos líderes nas pesquisas em São Paulo e no Brasil, João e Jair.

Esta crônica é uma homenagem a Moa do Katende, mestre de capoeira assassinado na Bahia na madrugada da segunda-feira 8/10/18, aos 63 anos, com doze facadas desferidas por um apoiador de Jair Bolsonaro.

 
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A escolinha do professor Jair

Se o Congresso Nacional já era ruim, conseguimos a proeza de piorar o elenco. E muito.

Gente boa e necessária não conseguiu se reeleger ou voltar a Brasília. Entre outros tantos, Cristovam Buarque, referência em Educação; João Paulo Papa, craque em Saneamento Básico; Eduardo Suplicy, profeta da Renda Básica; Roberto Freire, moderador nato; Luiz Carlos Hauly, que estava bem adiantado com a reforma Tributária.

Literalmente, na intenção de limpar Brasília, mandamos pelo ralo a criança junto com a água suja da banheira. Haverá consequências.

Em apenas 48 horas após a promulgação do resultado, alguns dos novos eleitos, notadamente os que figuram entre os mais votados, já mostram a que vieram. Antes de cita-los, porém, analiso a causa.

Jair Bolsonaro, maior vitorioso do domingo, franco favorito a inquilino do Alvorada, fez escola. As urnas fizeram de seus alunos um não-partido, o PSL, a segunda bancada da Câmara Federal, com 52 representantes.

O trabalho de um deputado é, se não injustamente, no mínimo precariamente avaliado pela sociedade. As sessões plenárias acontecerem três vezes por semana tem uma razão prática: custo. Seria improdutivo levar a Plenário todas as propostas, impondo um debate sem fim.

Por isso as casas funcionam com filtros, chamados comissões temáticas. É nelas que os parlamentares mais trabalham, de acordo com suas capacidades e possibilidades partidárias.

Então vejamos a atuação de Bolsonaro em comissões. O levantamento é do Estadão.

Na chamada “comissão militar”, oficialmente Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional, tema dito caro ao candidato, o deputado faltou a 70% das sessões. Sequer no dia em que seu único projeto de lei tramitou ele compareceu. Tratava de novas regras de combate ao terrorismo e foi retirado da pauta. Resta saber se, “saído” do Exército por planejar atentados terroristas, o ex-capitão fugiu constrangido.

Em outra ocasião, a comissão aprovou relatório que propõe alteração em artigos dos códigos Penal e Militar, bandeira do candidato Jair. Sabe aquela coisa do policial ter que atirar para matar? Mais ou menos por aí. Mas onde estava Bolsonaro? Gravando para as redes sociais.

A cereja do merengue vai agora: mais uma vez cabulando, Bolsonaro desperdiçou a chance de se manifestar sobre duas moções aprovadas: uma de louvor aos soldados brasileiros que atuaram no Haiti, e outra de repúdio ao governo da Venezuela por descumprimento da ordem democrática. Tá ok?

O efeito da escola parlamentar bolsonarística é a Câmara que elegemos no domingo. Desde então, Kim Kataguiri se lançou candidato à presidência da casa, ameaçando os pares com pressão pelas redes; Alexandre Frota publicou que seu filho foi concebido numa suruba com a mãe do garoto, a bartender de um hotel e alguma cocaína; Vinicius Poit avisou que, ante um hipotético, e apenas hipotético aumento de salário dos deputados, votará contra e, se perder, abrirá mão da diferença.

Tudo leva a crer que os distintos aprenderam atuação parlamentar pelo YouTube assistindo as performances do professor Jair – que no caso de Kim e Poit ainda conta com João Doria. Estarão a serviço dos interesses das pessoas ou dos likes e oclinhos que poderão receber a cada lacração virtual?

Se Bolsonaro já tinha dificuldade em controlar a si próprio, Gal Mourão e Paulo Guedes, agora tem uns cinquenta para se ocupar. Haverá tempo para governar?

 
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