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Renda Básica avança com Obama

Dias depois do Robert Reich, ex-ministro do Trabalho do presidente Clinton, meter um belo artigo defendendo a renda básica universal no New York Times, o presidente Obama foi a África ver parentes e celebrar o centenário do Mandela.

Mandela era um craque, com alta noção de oportunidade e capacidade de comunicação, como prova sua vida. E até na morte ele confirmou as habilidades. Em seu funeral, o homem mais poderoso do mundo era preto: Obama.

Ontem, na conferência anual Nelson Mandela, Obama mostrou como também é craque e deu uma aula de narrativa. Desde a África do Sul, país mais desigual do mundo, afirmou, em seu primeiro discurso para grande público desde que deixou a Casa Branca, que a recíproca do trabalho não é só o dinheiro, emendou que o trabalho dignifica, cria estrutura e dá sentimento de pertencimento e propósito. E que, neste sentido, precisamos pensar em como preparar os jovens para serem empreendedores em algum nível, rever a escala de trabalho semanal e considerar a ideia de uma renda básica universal. Concluiu em tom grave: sem olhar para a economia, podemos colocar em risco a democracia.

+ A perspectiva da formiga

Por quê foi uma aula? Pela mensagem indireta. Em narrativa raramente funciona dizer o óbvio diretamente. É aquela piada do telefonema avisando que “o gato subiu no telhado”. Você prepara as pessoas para dar a notícia. E, com habilidade, as provoca para chegarem à conclusão sozinhas. Fornece o lé, o cré e deixa rolar.

Foi exatamente o que Obama fez. Ao escolher o país mais desigual do mundo como palco e se associar ao legado de um líder que paira acima das disputas comezinhas, disse o óbvio sobre o valor do trabalho e da necessidade de diminuirmos a desigualdade no mundo, apenas sugerindo, e não cravando, que é urgente pensar em distribuição de renda.

++ O círculo de Gini

Meu trabalho é construir narrativas. E, sendo a casa de ferreiro, o espeto só pode ser de pau. Na primeira vez que escrevi sobre a renda básica, disse tudo de uma vez: com as novas tecnologias viveremos mais e trabalharemos menos; o modelo de produção e consumo que promove o pleno emprego para 1,7 bilhão de chineses e americanos explodiria o planeta se elevado para sete bilhões de pessoas; é um dos raros temas capazes de unir campos ideológicos completamente antagônicos, encontrando simpatizantes de Porto Alegre a Davos.

E, confirmando meu espeto de pau, vou dizer o que o Obama não disse, mas sabe, sobre o valor do trabalho: o preço. Lá da África, qualquer mensagem sobre trabalho envolve a história da escravidão no mundo. Ou seja, a mensagem é: vamos pensar no tipo de trabalho que você faria e por que. Você abandonaria os seus filhos e os seus velhos para cuidar dos filhos e dos velhos de outras pessoas por qual preço? Nenhum? Muito bonito. Nobilíssimo. Mas obviamente você não precisa do dinheiro. Se precisasse, toparia, como topam milhões de pessoas. E obviamente elas não topariam se tivessem uma renda básica garantida. Ficariam em casa exercendo a nobilíssima e jamais remunerada tarefa de cuidar dos próprios filhos e dos próprios velhos.

+++ Calça jeans e renda básica

O final de semana está chegando e em algum momento parte desta freguesia pedirá uma pizza em casa. Ou hambúrguer, tanto faz. E parte dos que vão pedir usarão os aplicativos de entrega. Um deles, que promete de ser o segundo unicórnio brasileiro, mostra na TV como funciona: você fica andando numa esteira ergométrica e, de repente, surge o seu hambúrguer na porta de casa. Note a narrativa: você anda de propósito sobre uma máquina que não sai do lugar enquanto o escravo acelera uma moto para ganhar quatro reais. Pelo menos dois deles morrem diariamente no trânsito. É o mesmo modelo da São Paulo colonial, com um agravante: de cativo o escravo passou a ser compartilhado.

A notícia boa é que a agenda da renda básica avança. Junto com Barack Obama , Robert ReichMark Zuckerberg Fan ClubRichard BransonPeter H. DiamandisElon Musk Quotes & News e Fernando Henrique Cardoso estão 55% dos paulistanos, segundo pesquisa da Rede Nossa São Paulo, apresentada ontem. O projeto, pauta histórica do vereador Eduardo Suplicy, tramita na Câmara Municipal de São Paulo e tem o apoio até do colega Fernando Holiday e do secretário de Gestão Paulo Uebel.

Avante, RBU!

 
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Liga pra Márcia

Márcia, simplesmente Márcia, ficou nacionalmente conhecida quando vieram a público as gravações onde o pastor Crivella a recomenda ao seu rebanho como resolvedora geral na prefeitura do Rio, notadamente para casos de furar a fila nos equipamentos de saúde. Cirurgia de catarata, por exemplo, via Márcia seria coisa de duas semanas, enquanto a média de espera na cidade é de oito meses só para marcar a consulta. Os cariocas a homenagearam com memes e um samba. “Se não tem vaga no SUS, nem remédio na farmácia, fala com a Márcia, fala com a Márcia.” Está no Youtube.

Crivella, que além de pastor e prefeito também é cantor e compositor, em 1998 lançou a canção-desagravo “Um chute na heresia”, defendendo o colega da IURD que chutou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida. A letra, irônica, diz assim: “Por que mover processo na Justiça? / Se ela é de Deus, ela mesmo me castiga”, e segue na linha contrária à idolatria às imagens de santos adotada pela igreja universal, em contraponto a da igreja católica.

Santa Márcia, segundo o site churchforum.org, era conhecida assim: “tão valente que não teve medo de destruir imagens de santos pagãos ou mutilar a mais célebre, de Diana, que tanto se venerava.”

Já Santa Luzia, ainda segundo a fé católica, é a padroeira dos oftalmologistas e daqueles com problemas de visão, e também dos que dependem da visão para trabalhar, qual as costureiras.

Em matéria de “costura” e “milagres” para doentes da vista, pelo menos no Rio de Janeiro dos amigos de Crivella, Márcia esculhambou Luzia.

Curiosidades de parte, vale enxergar adiante e lembrar que há milhares de márcias operando nas prefeituras brasileiras e que elas terão grande peso nas eleições que se aproximam. Isto é, na hora em que os prefeitos começarem a trabalhar, a luz sobre as pesquisas eleitorais será outra.

 
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O legado da copa

Ontem acabou a copa e a mensagem que ficou para além do futebol é bonita. E mesmo assim, quem entende de futebol garante que também foi uma beleza. Há quem diga que foi a melhor de todos os tempos. (Pro Brasil, nem tanto. O time não empolgou e a estrela virou chacota mundial. Para recuperar sua imagem, Neymar vai ter que rebolar. A CBF então…)

Torci pela Croácia por motivos familiares. Tenho primos contemporâneos com sangue croata. Mas creio que estamos todos contentes. Tanto eu quanto os primos temos ancestrais franceses. E foi bonito ver uma seleção tão plural e diversa carregando o caneco neste momento em que, na própria França, cresce o ódio nacionalista.

+ Notas sobre a Copa

Depois de amanhã celebraremos o centenário do Nelson Mandela. Impossível não relacionar os eventos. Tratado como comunista e terrorista por seus adversários, passou 27 anos preso. E saiu sem ódio. Pelo contrário, perdoou todo mundo e tratou de guiar a África do Sul para o entendimento. Sua principal ferramenta narrativa foi a copa.

++ Copa e cozinha

Vá lá, não era de futebol, mas de Rugby, o esporte nacional deles. Mandela notou o óbvio: os brancos torciam para a África do Sul, representada por um time só de brancos. E os pretos torciam para a Inglaterra. Misturando o time, colocou todos do mesmo lado, unificou a Nação.

No NetNow tem a história contada pelo Clint Eastwood no brilhante Invictus. Ver é obrigatório e ver de novo vale a pena.

 
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Passa Pedro, passa parente

O mercado aplaudiu de pé a Lei de Responsabilidade das Estatais, que pretendia profissionalizar as empresas públicas impondo regras de conformidade e restringindo indicações políticas para diretorias e conselhos.

Estatal-mor, a Petrobrás estaria em boas mãos com Pedro Parente, que entre outras coisas instituiu a quarentena remunerada, segundo a qual seus diretores teriam seis meses sabáticos entre o público e o privado, evitando o vício da chamada “porta giratória”. Embalado pela paralisação dos caminhoneiros, Pedro Parente pediu para sair num dia e no outro foi comandar a BRF, com aval do governo Temer. O mercado vaiou? Não. Curiosamente, ainda de pé, seguiu aplaudindo.

Não demorou para os deputados aproveitarem a brecha. Na quarta-feira 11 de julho suas excelências meteram um jabuti na nova lei geral das agências reguladoras, liberando os trens da alegria das nomeações político-partidárias-parentais. E o mercado, vejam só, reagiu escandalizado, sem qualquer reflexão.

No agro dizem que “passa boi, passa boiada”. No mercado dirão “passa Pedro, passa partido, passa parente”.

 
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Por uma Câmara com 2001 deputados

Artigo publicado na Folha de São Paulo – Tendências e Debates – 10/07/2018

Para celebrar o aniversário dos seus 30 anos, o PSDB preparou um bolo que funciona como uma torta na cara de quem acreditou no ideário tucano original. O partido que nasceu compromissado com a defesa do parlamentarismo agora quer diminuir o número de representantes no Congresso Nacional.

Com inegável apelo eleitoreiro, dada a descrença popular em relação à chamada classe política, a proposta apresentada pelo líder da bancada tucana na Câmara, deputado Nilson Leitão, se apega à economia que seria alcançada, algo em torno de R$ 1,3 bilhão em quatro anos. Mas não passa de sofismo financeiro; a seguir, pretendo demonstrar o porquê.

Pelo texto, que já tem as assinaturas necessárias para ser protocolado e ainda cresce, o número mínimo de deputados federais por estado seria reduzido de oito para quatro e, o máximo, de setenta para 65. No todo, a Câmara passaria de 513 para 395 cadeiras, e o Senado teria 54 no lugar das atuais 81.

O bolo conta ainda com a cereja narrativa que submete o Executivo à dita austeridade, prevendo emenda à LDO de 2019 para diminuir em 20% o custeio do governo. As aspas do deputado Leitão são puro açúcar de confeiteiro: “Não é para reduzir a gasolina da ambulância, mas tirar carro oficial do ministro.”

Leia mais: Centro avante

Se levada a debate consequente, a primeira pergunta ante a proposta seria sobre a Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (Ceap), que inclui benesses de todo tipo, incluindo R$ 4,5 mil por mês para cada deputado gastar em combustíveis e lubrificantes. Segundo o site da Câmara, o deputado Leitão gastou só em 2017 R$ 427.665,48 da Ceap, valor equivalente ao salário anual de mais um deputado, incluindo décimo terceiro.

Além da Ceap, que varia entre R$ 27.977,66 e R$ 41.612,80 por mês de acordo com o estado de origem do deputado, ainda há R$ 78 mil mensais para a contratação de até 25 secretários e R$ 3.800 para auxílio-moradia e despesas hospitalares por conta da Casa para internação em qualquer hospital do país.

É óbvio que o problema de gastos com o funcionamento do Congresso Nacional mora aí, nas verbas além dos salários, e não no número total de representantes. Este, a rigor, deveria ser ampliado. O Brasil tem a oitava menor Câmara de Deputados do mundo em termos proporcionais.

Doutor em ciências políticas pela Universidade Federal do Paraná com extensão na Universidade de Montreal, Márcio Carlomagno comparou a democracia brasileira com a do Reino Unido. Lá, só na Câmara dos Comuns são 650 deputados para 60 milhões de habitantes. Aqui, com população de 200 milhões, temos apenas 513 deputados. Isto é, enquanto os ingleses têm um representante para cada 97 mil representados, cada deputado brasileiro representa 390 mil cidadãos.

Se a proposta tucana avançar, a fatia do bolo destinada a cada deputado, que não é outra coisa se não concentração de poder, vai aumentar nessa proporção. E com um efeito imediato: o custo para fazer e manter o bolo também vai crescer. Os milhões de reais que entram como fermento na campanha de um deputado federal e os esquemas de corrupção de onde eles brotam estão diretamente relacionados ao cálculo de representatividade.

+O parlamentarismo já pegou, só falta virar lei

Porém, se impulsionada pela proposta a sociedade conseguir realizar um debate sério e transformador, atacando a raiz do problema, poderá economizar perto de R$ 8 milhões por mês aumentando o número de deputados dos atuais 513 para 2001, que seriam eleitos por distritos de até 100 mil cidadãos, diminuindo o custo de campanha e a distância entre representantes e representados, que por sua vez poderiam exercer maior participação política e controle social.

A conta é simples: benesses como a Ceap e até 25 secretários por deputado custam aproximadamente R$ 57 milhões por mês; 1.488 deputados a mais sem esse tipo de privilégio custariam algo em torno de R$ 49 milhões.

Na parte física do Parlamento nada precisaria ser alterado. Os amplos gabinetes, sem necessidade de abrigar tamanhas galerias, poderiam ser adaptados aos novos eleitos —e o plenário, que raramente fica lotado, quando fica, não é de deputados, mas de seus convidados, financiadores, lobistas e bajuladores em geral.

Como vimos na votação do último impeachment, uma dessas raras ocasiões de lotação plena, os deputados em plenário costumam oferecer as primeiras fatias de bolo aos seus cônjuges e filhos. Quem sabe se melhorássemos a representação, eles se lembrassem da sociedade.

Léo CoutinhoEscritor e jornalista
 
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Não existe atalho na democracia

Estadista deveria ser um adjetivo raro, porque pouca gente na história merece. Dentro dessa turma pequena tem um nome que entra em qualquer lista: Franklin Delano Roosevelt. Caso único de presidente dos Estados Unidos eleito quatro vezes, FDR tirou o país da depressão de 1929 e mais tarde ajudou livrar o mundo do nazismo.

Mas como ninguém é perfeito, tem uma mancha feia na sua biografia política: ameaçou em 1937 ameaçou aumentar de nove para quinze o número de juízes da Suprema Corte. Acabou não fazendo, mas a ameaça bastou.

O caso foi lembrado pelo colunista Bruno Boghossian há uma semana na Folha de São Paulo, que tratava da proposta do pré-candidato Jair Bolsonaro de aumentar de onze para 21 os membros do Supremo Tribunal Federal. Isso logo depois de um de seus filhos dizer nas redes sociais que alguém tinha que parar o Supremo. É grave. É muito grave.

A receita do ex-capitão deputado federal vem da ditadura militar, período que ele considera exemplo para o país. Os militares aumentaram de onze para 16 os ministros do STF. Como bem lembrou o Boghosian, o então ministro da Justiça da ditadura Juraci Magalhães disse que o regime escolheria juízes “à altura das necessidades da ‘revolução’”. Bolsonaro diz que, uma vez eleito, vai “botar dez isentos lá dentro”.

É claro que, igual a todas as outras instituições, a Justiça passa por um período de provação. E o domingo passado não ajudou em nada a situação do país.

Mas é importante lembrar que as regras existem para serem cumpridas e qualquer caminho por fora delas

 
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Que país!

Que país! Quando a gente acha que chegou ao limite do surrealismo, avançamos mais. Só me lembro dessa sensação quando do atentado das torres gêmeas nos Estados Unidos. O prefeito de Campinas, Toninho do PT, era assassinado, a filha do Silvio Santos sequestrada e o sequestrador, em fuga, descia do décimo andar de um flat pelo lado de fora, ia a até a casa do Silvio, ficava com o próprio na cozinha e chamava o governador Geraldo Alckmin para resolver o caso quiçá num café com bolo. E o governador compareceu. Sei que gente mais velha viveu coisas mais absurdas, mas a minha referencia mor é esta.

No final da manhã de hoje chega um zap: Lula livre. Pensei: fakenews. Mas fui conferir nos órgãos de imprensa confiáveis e era verdade.

Um desembargador plantonista do TRF-4, sozinho, revoga uma decisão colegiada. Até aí, estamos acostumados. Isso vem sendo o padrão do Supremo Tribunal Federal.

Logo em seguida, também pelo zap, chega o despacho completo. 33 páginas. Incrível velocidade. O primeiro argumento me prende: Lula é pré-candidato e estar preso atrapalha a campanha. Cuma? Se eu sou advogado criminal e tenho um freguês em cana, já estaria com o HC pronto dizendo que o meu preso também quer ser presidente. Ah, mas o Lula é filiado e o seu cliente trombadinha não tem partido. Ora, Tratado de São José da Costa Rica neles. Ninguém precisa ser filiado para ser candidato e muito menos pré-candidato. Base jurídica há. Vai que passa…

Minutos depois um amigo advogado mostra que o juiz Sérgio Frenando Moro, em duas páginas, diz que o desembarga de plantão é incompetente e não abre o cadeado. Impasse.

Ato contínuo, o desembarga insiste e manda soltar em uma hora – já vencida. Impasse permanece.

PGR diz que é para obedecer o colégio de Porto Alegre. STJ subiu no muro e diz que só fala provocado. STF diz que só fala depois do STJ.

Então foram perguntar à doutora Carmem Lúcia, presidente do Supremo, que se ateve à hierarquia: juiz não pode desobedecer ordem de desembargador. Resultado: solta o Lula. Cumpra-se. Só que não. O homem continua trancado.

Inacreditável. Mas é o que temos.

Logo mais Carmem Lúcia não será mais presidente do colégio mais alto da Justiça Brasileira. Fica o Tofoli no lugar dela. A rigor, não há eleição, mas rodizio.

O desembargador que soltou o Lula foi filiado ao PT, que é do Lula. Tofoli foi advogado do PT e, assim como tantos outros ministros, mais recentemente adotou a prática de decidir sozinho. E antes, lá no mensalão, já não se sentia impedido para decidir em casos assim. Colégio para quê?

Quem acha que o juiz é partidário pode relaxar. Quando chegou o caso da máfia da merenda envolvendo o deputado estadual Fernando Capez do PSDB, Tofoli também não viu impedimento para decidir, mesmo com o irmão do Capez trabalhando em seu gabinete no STF.

Zona. Zona. Zona. Pior que zona.

Dois palpites: se soltarem o Lula, não prendem de novo; Bolsonaro e ditadura ganharão força.

Uma dúvida: uma vez na calçada, Lula pode querer assinar o manifesto do Centro Democrático Reformista (é este mesmo o nome?). Vão aceitar? Sim ou não e por quê?

 

 

 
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Executivo da Philips tocou o apito e seus colegas foram tocar piano ou Elio Gaspari não pode tirar férias

O Globo vem dando um baile de reportagem e, se tem uma falha hoje, é o Elio Gaspari estar em férias. Pênalti grave. Daí que, sem medo de ser feliz, não me seguro e volto à carga para tentar cobri-lo.

Já escrevi aqui que a incineração da política não vai parar na política. E em que pese as declaradas ótimas intenções de jovens de todas as idades que falam em renovar geral, notadamente os grandes herdeiros que na casa dos vinte anos já integram os conselhos das empresas familiares, dificilmente qualquer um deles resistiria a uma CPI sobre os negócios da família. No mínimo, sofreriam grande decepção e teriam que deixar os jetons na recepção do analista. Vale para quase todo mundo que trabalhou no Brasil nas últimas décadas.

Ontem a Operação Ressonância da Polícia Federal, desdobramento da Fatura Exposta, também conhecida como Lava Jato fluminense, foi buscar executivos da Philips e mais 36 empresas envolvidas em esquemas de corrupção na Saúde do estado do Rio de Janeiro, governo Sérgio Cabral Filho e além, coisa de até R$ 300 milhões.

Mais distante e não menos importante é lembrar que o cerne do esquema era o Instituto de Traumatologia e Ortopedia (ITO). Tombos em calçadas são ¼ dos atendimentos de traumatologia e ortopedia no Hospital das Clínicas em SP. E quem é do ramo afirma que com R$ 300 milhões resolveríamos os problemas das calçadas.

Ainda: Sérgio Côrtes, ex-secretário de Saúde do Cabral, membro da confraria do guardanapo e pivô do esquema investigado pela Ressonância está preso e deu recentemente uma emocionada entrevista às páginas amarelas da Veja. Confessa que errou, não pede absolvição e não acredita no perdão nem dos próprios filhos. Só sente vergonha. Mas pelo menos confessou. E a confissão liberta. Leitura obrigatória para podermos avançar enquanto sociedade.

Hoje n’O Globo há uma entrevista com José Masiero Filho, ex-executivo da Philips punido por ser honesto. Denunciou o esquema, foi para a geladeira e, quando insistiu, acabou demitido e queimado no setor. Nunca mais arranjou emprego. Então procurou a Lava Jato e conheceu o programa de proteção a testemunhas do nosso país. Trocou de identidade, ganhou um salario mínimo e vive apavorado com a segurança de sua família.

Mas vamos ao Elio, se não a gente não termina. Trabalhasse na Philips dos EUA, Masiero estaria diferente. Lá existe a lei do whistleblower. E foi o Elio Gaspari que explicou como funciona: “Um vendedor do laboratório Pfizer denunciou técnicas ilegais de comercialização de produtos, reclamou por dentro e perdeu o emprego de US$ 125 mil anuais. Veterano da Guerra do Golfo, foi ao governo. A Pfizer foi investigada, tinha culpa e tomou uma multa de US$ 2,3 bilhões. O veterano que tocou o apito recebeu US$ 51,5 milhões.”

A lei do tocador de apito é uma evolução da Delação Premiada que a Lava Jato importou dos EUA. Ou por outra: pegou a ideia e topicalizou. Lá o delator nem precisa mentir para perder o prêmio, basta não provar o que disse. Aqui, delator mente e fica solto. Nossa capacidade de esculhambação é brutal.

Alheia a toda confusão, segue a Philips. Lá da sede em Amsterdã o diretor médico da centenária companhia disse à Exame que eles estão cada vez mais mergulhados na área da… saúde.  E emenda: “O futuro da saúde é digital.” Concordo com ele. Mas com o perdão dos trocadilhos, emendo: o presente da Philips é “digitais”. Masiero tocou o apito e seus colegas foram tocar piano na frente do delegado.

 
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Ontem, no Rio, Eike e o Novo

Correu o martelo do juiz Marcelo e Eike Batista, até outro dia dono da sétima fortuna do mundo, pegou trinta anos de cana. Houve vasta cobertura e não vou me estender sobre isso.
Curioso é que lá do mesmo Rio de Janeiro a sentença do doutor Bretas acabou abafando a retumbante substituição no Partido Novo. O técnico Bernardinho, como sabemos, não tentará o Palácio Guanabara. Ensebou o quanto pôde entre o sim e o não, até que os caciques se aborreceram e mandaram ele pro chuveiro.
Sejamos justos: nisso o partido é novo mesmo. De modo geral, o tempo da política tolera indefinições. Nas cortes, ninguém tido como sensato é adepto do vai ou racha. Com o Novo é diferente. Lá o tempo tem a cultura do mercado, isto é, prazos, metas, deadlines e daddylines.
Já no diz-que-diz dos bastidores, o Novo é igual a todos os outros partidos. Exemplo: dirigentes reclamando em off para a imprensa e o Bernardinho no tradicional “sem comentários”.
No lugar do Bernardinho botaram Marcelo Trindade, ex-presidente da CVM, autarquia vinculada ao Ministério da Fazenda, responsável por botar ordem no mercado financeiro.
Além do Trindade, nos conta o Lauro Jardim n’O Globo, o Novo absorveu mais dois quadros egressos da CVM para disputar a Câmara Federal.
Mas o que o trio cevemístico tem a ver com o Eike além de viverem na Cidade Maravilhosa? Bom, durante o período Rio Maravilha, quando Sérgio Cabral Filho era reeleito e fazia sucessor, Eduardo Paes tinha o melhor emprego das galáxias, vinham UPPs, Copa, Olimpíadas, enfim, a farra do guardanapo corria solta e a turma se lambuzava sem receio, Eike publicava continuados fatos relevantes sobre seus negócios com uma inovação notável, o autoelogio, sobre os quais a CVM nunca deu um pio.
Sei lá, pode ser chatice minha, coisa de velho ranzinza e não de novo gente fina, mas eu acho que, fossem candidatos competitivos, os três da CVM seriam chamados a responder sobre o que não fizeram.
Aliás, algo me diz que o motivo da fuga do Bernardinho tenha a ver com vontade de evitar perguntas indelicadas, como a citação do fundo Aalu, controlador da Bodytech, rede de academia onde ele é presidente do comitê técnico, na delação da Andrade Gutierrez, envolvendo R$ 20 milhões, já confirmados por ambas as partes, que só divergem sobre se foi ou não propina para a campanha de Aécio Neves em 2014.
No fim das contas meu palpite é que tonto-mor desse período Rio Maravilha foi o Eike. Tinha tudo para não precisar se lambuzar e cedeu. Pior: não terminou a reforma do Hotel Gloria. Triste. O saudoso Eliezer Batista deve estar babando numa gravata celestial. Que Deus o tenha.

 

 
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Parabellum

A série Presidente da Semana, produzida e apresentada pelo Rodrigo Vizeu, editor-adjunto de Poder, na Folha, é obrigatória a que pretende entender o Brasil.

Chegando sempre às segundas-feiras o poscast está a cada semana mais interessante. O do Washington Luís é uma pérola. Em tempos de tentativa de proibição de sátira sobre candidatos e apelidos nas listas da Odebrecht, foi um deleite ouvir as trovas e marchinhas da época, além da alcunha que o boêmio paulista de Macaé fez por merecer: Rei da Fuzarca.

Na marchinha final, já a favor do Getúlio, chega com suavidade a ameaça de resolver as coisas no Parabellum, um dos calibres de arma de fogo mais conhecidos de todos os tempos por alimentar a pistola alemã Luger P08, se tornando algo como o Fusca das munições, tanto pela qualidade técnica quanto pela origem e destino, que era servir o nazismo.

Hoje é o calibre é mais conhecido como 9mm, o mesmo que a família Bolsonaro gosta de exibir, exaltar e sugerir como remédio para todos os males.

Ontem chegou a era Vargas, com participação e citação dos melhores biógrafos do Getúlio, respectivamente Boris Fausto e Lira Neto.

Já no começo, Vizeu elenca o tripé do golpe: elites regionais cansadas do estabilishment “café com leite”, políticos liberais em busca de espaço e democracia pra valer, e tenentismo – ou militares de baixo escalão tradicionalmente revoltosos.

Como sempre, nenhum deles apostou no caminho pela democracia e acreditaram no atalho do golpe  de “um período” totalitário. Como sempre, deu no que deu.

Qualquer semelhança com a cena atual não é mera coincidência.

 
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