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Temer preso e o timing da Lava Jato

O ex-presidente Michel Temer acaba de ser preso em sua casa no Alto de Pinheiros, Zona Oeste de São Paulo. Seria prisão preventiva, sem prazo definido para terminar.

Coronel Lima, pescador que incorporou o bagre-ensaboado enquanto pôde, escorregando das mãos da Justiça, também caiu na rede.

Tudo desdobramento da Lava Jato e previsto em larga escala por qualquer pessoa sensata. Ainda assim, o tempo salta aos olhos e parece reação.

A República de Curitiba foi enquadrada pela PGR Raquel Dodge depois de criar uma fundação bilionária, de direito privado, com o dinheiro da Petrobrás. De uma multa paga nos EUA, acertou-se que R$ 2,5 bilhões iriam para “autoridades brasileiras”, o equivalente a ¼ do que a reforma da previdência dos militares –  que por sinal também são autoridades – deve economizar em dez anos.

Fortuna que deveria ser do Tesouro – aliás, como aconteceu com o quinhão que ficou com os americanos. Mas no Brasil foi depositada numa agência curitibana da Caixa Econômica em nome do Ministério Público Federal.

Anteontem à noite, em nova extrapolação de funções, o ministro Sérgio Moro, estrela-guia da Lava Jato, cobrou do presidente da Câmara Rodrigo Maia o andamento de seu pacote anticrime, e a réplica veio ontem num presta atenção inédito. Maia disse que “o funcionário do presidente Bolsonaro”, tendo alguma demanda, deve falar com o chefe, e que a prioridade combinada com o Governo é a Reforma da Previdência, não holofotes para o ministro-estrela.

Entre os presos que a Lava Jato fez hoje está Moreira Franco, sogro de Rodrigo Maia. Também previsto. Quando a turma do pudim ascendeu e fez o diabo para se manter, inclusive intervenção federal militar no Rio, escrevi o seguinte: Angorá que sobe morro, vira pandeiro. Ainda assim não creio que seja prudente ignorar o timing de Curitiba.

Resultado parcial no Brasil: dois ex-presidentes da República presos e, no Rio de Janeiro, cinco governadores. Palpite: o placar será ampliado e não demora. A presidenta, que dorme de sapatos, pode passar a dormir sentada e perto da porta.

 

 

 
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Vida longa para a Folha

As tão faladas mudanças na Folha de São Paulo vêm recebendo mais receio do que merecem.

Admito que também passei a terça-feira preocupado com o destino do maior jornal do país, notadamente em momento tão grave e agudo.

Nas dezenas de mensagens que recebi há uma unanimidade em trocadilho: a personalidade do Luís é fria e calculista.

Posso estar sendo traído por uma profunda torcida a favor da imprensa, que é fundamental para o equilíbrio social e para a saúde democrática. Mas só alguém burro destruiria sua galinha dos ovos de ouro – e definitivamente não é o caso do Luís Frias.

Em termos familiares, obviamente não vou entrar. E a parte editorial com o Sérgio D’Ávila está garantida. Falemos sobre a empresa.

Aposto que a Folha terá vida longa porque, antes que bom negócio, ela é o alicerce. Não só para o UOL ou do bilionário PagSeguro (US$10bi em Wall Street), mas da própria Nação e das instituições que a integram, cujo equilíbrio depende de uma imprensa livre e sadia.

Jornais tradicionais aqui e alhures atualmente só têm saúde com a combinação de duas das três condições: ser um selo relevante, ter dono bilionário ou pertencer a um conglomerado empresarial que se equilibra.

New York Times, Washington Post, Wall Street Journal são exemplos nos EUA e para o mundo. O Globo serve para o Brasil. The Guardian caminha para o modelo do NYT e, em que pese a fleuma inglesa, praticamente impõe que o leitor contribua financeiramente (esta freguesia pode fazer o mesmo aqui no BLC via PagSeguro). Financial Times foi comprado por japoneses, para quem a cultura do lucro não prevalece.

Na Europa continental (torcida pela permanência da necessidade do adjetivo), Le Monde balança mas tem bilionário estrangeiro de olho. El País deve muito mas segue crescendo e mantendo a qualidade, com a vantagem da língua original ser a segunda mais falada no mundo.

Em Portugal já não há quarenta redações no Príncipe Real e jornalistas lotando o SnobClub entre as 16h (fechamento) e a circulação (4h), mas Público e Expresso são ótimos, além dos esportivos Bola e Record, que cobrem até série B de bocha.

Em outras mídias há a Bloomberg nos EUA e, no Brasil, editora Abril, revista Piauí e todas as emissoras de televisão.

O caso da Folha se destaca num segundo trocadilho: a turma do Três Estrelas é três em um, isto é, ao mesmo tempo jornalão, conglomerado empresartial e tem dono bilionário.

Luís Frias sabe disso e não vai matar a Folha. Sabe que imprensa é bom negócio em si e que todos os demais dependem dela, porque se as redes de notícias falsas elegem chefes de Estado, inclusive o mais poderoso do mundo, o potencial de destruição que têm sobre qualquer empresa, sobretudo as financeiras, é avassalador. Basta comparar com as campanhas de saques bancários dos anos 1980, que corriam por telefone de disco e quebravam bancos grandes. São muito mais perigosas do que qualquer governo de plantão.

O público quer consumir notícia. E logo que a temperatura política amainar e o “vi no face” arrefecer, vai perceber o privilégio que é poder contar com a imprensa profissional organizada.

O fenômeno no parágrafo acima acontece em absolutamente todos os segmentos que ganham atenção de público novo. Tem até termo da moda: curadoria. Serve para moda, vinhos, música, artes plásticas, turismo, decoração, gastronomia, eventos sociais, esportes. E a imprensa tem a vantagem de ser absolutamente abrangente.

A questão quantitativa conta. A Folha deve tirar uns duzentos mil exemplares por dia num país de duzentos milhões de habitantes. Mas só no microblog twitter tem 6,5 milhões de seguidores. É um potencial de alta evidente e a aposta em liberar conteúdo on-line para todos os professores da rede pública ataca exatamente o alvo: formação de público.

O Pasquim tirava os mesmos 200 mil em 1970, quando éramos apenas noventa milhões em ação, sob o auge da ditadura militar e disputando com uma concorrência fortíssima. Numa conta rápida, pode-se dizer que hoje o @pasquim teria treze milhões de seguidores no twitter. E que a Folha tem potencial igual.

Por fim, os jornalistas, que vêm levando chineladas extensivas às próprias mães, acusadas de exercerem a profissão mais antiga, fiquem tranquilos: a profissão repórter é das raras que jamais poderá ser substituída por robôs, por depender imperiosamente do trato pessoal.

Vai passar.

(Texto escrito a seis mãos com amigos que vivem nos EUA e em Portugal.)

 
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Ainda sobre o FHC de domingo

Ainda sobre a entrevista do presidente FHC no Estadão de domingo, tenho que dar razão a ele quando diz que a velocidade da comunicação atual prejudica a reflexão. Eu mesmo comentei só um ponto sem dizer das boas coisas que li.

Por outro lado, demorar para se posicionar também pode ser imprudente, como mostram as críticas que vem recebendo por só agora, muito depois das eleições, e ainda antes dos cem dias, externar que o governo Bolsonaro vai mal.

Um amigo, simpatizante da social democracia e portanto desabrigado político no Brasil de hoje, comentou estar impressionado com a baixa repercussão da entrevista. Do pouco que se falou, até as meias abacate e o sapatênis tiveram mais atenção do que o texto. Uma pena, porque foi um belo momento entre repórter e homem público.

FHC é professor e ensina a importância de símbolos. Cita o Mandela, que se comunicava mesmo antes de abrir a boca. Cita o Lula, que independente da opinião de cada um, também teve um significado – acrescento que continua tendo, contra e a favor. E poderia ter citado o Bolsonaro, também repleto de significado.

Um jeito simples para saber se uma figura é significativa e o que ela transmite é gastar dez minutos: nove para sintonizar o mínimo de imparcialidade e um para anotar o sentimento despertado. Esperança, medo, segurança, ódio, amor, paz, violência. Se demorar mais que isso, provavelmente não significa nada.

Como todo professor, no final da entrevista FHC inverte o esquema e, desenhando uma imagem, torna o leitor agente ativo do aprendizado. Conta que aos domingos aproveita a Paulista Aberta, elogia a harmonia e a pluralidade social com que a novidade do usufruir a cidade se desenrola. Para quem mora em São Paulo é impossível não relacionar a imagem a um nome.

E que delícia o tapa com luva de pelica na classe média alta, que já foi sua eleitora, aproveitou tanto a estabilização da economia, e hoje, sufocada, se revolta contra seu legado. Bastou lembrar que há cinquenta anos muito provavelmente essas pessoas pertenciam a uma classe economicamente inferior. Traduzindo, chamou geral de noveau riche.

Mas não gratuitamente e muito menos por vingança. A mensagem é: a vida está dura, entendo, mas se você e seus ascendentes tiveram a oportunidade de subir na vida, pensem agora nos tantos que precisam fazer o mesmo percurso. É para o bem de cada um de nós.

 
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Acho que perdi alguma parte. Não estou entendendo mais nada

Se era mesmo uma estratégia do presidente Jair Bolsonaro governar emitindo sinais trocados para dissipar a atenção e a percepção de que quase ninguém sabe do que está tratando em seu governo, é justo dar-lhe os parabéns pelo êxito.

Falo por mim, que carrego diariamente a sensação de ter perdido alguma parte do que está acontecendo. Falemos dos últimos dias.

Faria Lima está eufórica com a visita da delegação Brasileira aos EUA. Bolsa deve bater cem mil pontos ainda hoje, recorde histórico.

Sinceramente não entendo. No jantar na casa do embaixador, o presidente Bolsonaro reservou o segundo melhor lugar a Olavo de Carvalho, que na véspera chamava de idiota o vice presidente, General Mourão.

Elegante como todo diplomata com janela, o embaixador Sérgio Amaral botou no cardápio do jantar purê de nabo, vegetal que melhor simboliza o bolsonarismo: é ardido, desperta paixões e cresce rápido, mas pode ser desenraizado por uma criança.

PaGue, informado do ataque ainda no voo para Washington, comentou: como pode o líder disparar contra a revolução que inspirou?

Ato contínuo, veio o golpe retórico. Bolsominions e carvalhinhos atacam nas redes dizendo que PaGue afirmou que OakLavo é o líder. Esta parte dá para entender. Lula também virou “o cara” quando Obama usou “that is my boy” para se referir a ele.

Tem mais sobre o uso esquema narrativo do lulopetismo. Por aqui celebra-se o crescimento da classe C, que seria a classe média, tão festejada naquele período. Segundo o IBGE, classe média é a família que ganha entre três e cinco mil reais por mês. Cada operador da Faria Lima deveria experimentar pelo menos uma semana sob tal orçamento.

Outro motivo de rojões no mercado financeiro foi a chamada privatização dos aeroportos na sexta-feira. Se o PT, com ojeriza da palavra, chamava de concessões, o sentimento ultra-liberal dos Chicago Elders adora tanto o termo que usa até quando vende para outros estados.

Celebraram o suporto ágio de 1000%. Curioso, fui verificar o valor mínimo fixado na outorga que permitiu tal conta. O lote mais cobiçado, dos aeroportos do Nordeste, partia de R$ 171 milhões. Por este preço não se compra um prédio de apartamentos no Leblon, onde vive o ministro da Fazenda. Mas compraria seis aeroportos, sendo quatro em capitais com forte apelo turístico.

Enquanto isso, sem conseguir segurar a língua, PaGue segue sendo o velho Beato Salu. Numa fala recente, desenhou o problema da concentração de poder em Brasília: se o presidente é Corinthians, surge o estádio do Corinthians, que ninguém consegue pagar. Podia ter encerrado aí, mas como de costume ignorou a freada e emendou: e o Corinthians começa a ganhar tudo, com juiz roubando a cada partida. A maior torcida do Brasil deve estar satisfeitíssima com o governo do presidente palmeirense.

Deputado federal e ora presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, Eduardo Bolsonaro integra a comitiva. Mesmo sendo o ZeroTrês, evolui como um príncipe que se sente o primeiro na linha de sucessão. Conseguiu duas proezas: chamou Cuba e Venezuela de escória da humanidade e disse que imigrantes ilegais são vergonha para o Brasil. Silas Malafaia, um dos gurus da teologia bolsonarista, anotou que ele “ajudaria mais se parasse de falar asneira”.

Algum jornalista que cobre a visita oficial deveria aproveitar a presença do presidente da Comissão de R.E. e DEFESA NACIONAL nos EUA para perguntar se ele cobrou das autoridades locais uma explicação sobre como 117 fuzis de uso exclusivo das Forças Armadas estadunidenses foram parar no Méier aos cuidados de um miliciano que, en passant, é vizinho e ex-cossogro do presidente Bolsonaro e acusado de matar a vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Gomes.

Meanwhile no Brasil, grupos revoltados promoveram atos nas ruas contra o que chamaram de ataque do STF contra a Lava Jato, pelo tribunal ter decidido por 6X5 que o foro para crime de caixa dois é a Justiça Eleitoral. Entende-se a revolta. Mas fica confuso quando lembramos que, dias antes, o ministro Sérgio Moro, símbolo maior da Lava Jato, dizia que caixa dois não é tão grave quanto corrupção.

Acho que vou tirar uns dias para pensar na vida. Não estou entendendo mais nada.

 
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Tuquinha na varanda eterna

Procuro e não encontro uma foto do meu querido Tuca Andrade a bordo do descapotável amarelo que em Lisboa aluga-se para turismo. É a imagem que eu quero guardar do meu amigo.

Lisboa era a cidade atual do coração do Tuquinha. Por obra do destino, que inverteu o caminho das caravelas, Tuca encontrou no litoral da Bahia a “Mana” Teresa Gil Ferreira, alfacinha que procurava companhia para um cigarro. Foi amor fraterno à primeira vista, exercido de parte a parte com toda a inconsequência das paixões mais bonitas.

Os descapotáveis, como os portugueses chamam os carros conversíveis, são o equivalente sobre rodas das varandas, outra paixão exercida com afinco pelo Tuca, lição do avô polímata Artacho Jurado, que colocou varanda em tudo o que desenhou e construiu em São Paulo, por acreditar que elas são básicas para a vida humana.

Por fim, a foto é cheia de bossa e charme, exatamente como Tuca viveu, e de quebra ele usa um capacete branco, dando significado artístico para a imagem. Tamanha eram suas convicções e tão forte o modo com que a elas se entregava, que olhando de fora alguém poderia imaginar que um capacete seria o último acessório que ele escolheria. Mas não é verdade.

Tuquinha tinha método. Pensava longamente antes de casa passo. Pedia, escutava e até anotava opiniões. Por mais intempestivo que pudesse parecer um  movimento seu, era sempre recheado de lógica. A lógica dele, é claro. Mas em tudo havia um fio condutor de alta tensão, que ligava os pontos no amor, na amizade, no trabalho, no consumo e até nas brigas tantas.

Comigo foi engraçado. A gente se conhecia de chapéu, dos bares e amizades comuns. Um dia ele me chama para almoçar. Acho que nunca tínhamos conversado a sós. De cara ele meteu: “Você trabalha em casa? Olha, não gosto disso. Sei como é. A gente acaba trabalhando de cueca. Não é bom. Tenho uma mesa vaga no meu escritório, com computador, telefone, telefonista, copeira, motoqueiro, segurança. E às quintas tem engraxate. Se você quiser, pode usar a partir de amanhã.” Fiquei lá por anos, fiz amigos vários e em 2013 Tuca aceitou ser meu padrinho de casamento.

O escritório era compartilhado com o Luís Carlos Ferreira, o Lulu, sócio e espécie de tutor escolhido pelo Tuca desde a morte prematura de seu pai, o lendário empresário boêmio Tuto Andrade. A gente tinha isso em comum, das amizades com gente das idades mais variadas. O mais recente é um fidalgo português, Tomaz Capitão, sobrinho da Mana Teresa que Tuca “adotou” como filho em São Paulo.

Das tantas lições que Tuquinha recebeu do pai e repetia quase que com obsessão, uma vale a pena ser difundida e exercida: faça fofoca positiva. Isto é, sempre que alguém falar bem de outrém ausente, telefone para contar na primeira oportunidade.

Tuca pensava nos amigos intensamente, seja para brincar ou falar sério. Três exemplos: Paulo Saad, sabendo que ele ia a Nova York, encomendou uma bola de boliche. Tuca não trouxe, é claro, mas deu um jeito de comprar por aqui e entregar na TV Bandeirantes, onde a bola morou até a quinta vez que Paulo tropeçou, implorando devolução. Clovito Azevedo, o mais velho dos almoços da sexta-feira, gostava de contar suas proezas, mas se irritava com a dos demais, virando alvo de provocação. Um dia contou que esteve na Guerra. E o Tuca, afetando ingenuidade: Na primeira ou na segunda? Quase deu cadeirada.

Seu amigo mais antigo talvez fosse o Roger Agnelli, que morreu tragicamente num acidente de avião após decolar do Campo de Marte com a família a bordo. Suas últimas mensagens de texto foram trocadas com Tuca, que estava no pé dele por ter enxergado, já em 2015 – e portanto antes do estouro da onda de renovação política – que o amigo reunia as características que fariam o próximo presidente da República. Como Roger não dizia sim nem não, Tuca trabalhou firme, bem e discretamente numa rede de contatos para dar suporte à candidatura. Mas o destino não quis.

A gente brincava que ele seria embaixador em Lisboa, não só pelo amor pela cidade, mas para cozinhar as galinhas e cordornas do Itamar, uma das suas especialidades.

Na quinta-feira passada Tuca não acordou. Deixou a mãe, Dona Diva, a filha Tetê, os irmãos Diva, Ciça, Giba e um sem número de amigos que agora contempla de sua mesa na varanda eterna. Olhai por nós, Tuquinha querido.

 
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Filosofia e teologia bolsonaristas não combinam

A repórter Patrícia Campo Mello conseguiu uma proeza: arrancou de OakLavo um elogio à Folha. O motivo é ter feito seu trabalho como sempre fez, respeitando e reportando os fatos.

O trecho mais divertido é sobre a comparação de audiência nas redes sociais. OakLavo diz que a Folha tem poucos seguidores. Campos Mello simplesmente anota: Na tarde deste domingo (17), o perfil da Folha no Twitter tinha 6.568 milhões de seguidores. O do presidente Jair Bolsonaro tinha pouco mais de 3.755 milhões e o de Olavo de Carvalho 129.421 mil seguidores.

Mas as aspas que eu gostaria de comentar estão nos novos ataques ao general Mourão, que já devolveu injúrias anteriores com beijinhos.

Segundo o astrólogo da Virginia, cujos mapas sempre estão em Marte, Mourão se elegeu com falsidades e deu uma guinada de 180o em posições sobre desarmamento, Venezuela e aborto.

Como não conheço as posições pré-eleição de Mourão sobre os temas, não posso opinar. Mas sei de gente cara ao bolsonarismo que defende o direito da mulher a decidir sobre abortar ou não desde o século passado, e continua altamente prestigiada pelo presidente da República e seu entorno: o bispo Edir Macedo, líder da IURD e dono da TV Record, emissora predileta de Bolsonaro.

Se OakLavo é o guru filosófico do bolsonarismo, seria conveniente procurar se entender com as lideranças teológicas.

 
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FHC foi mais longe do que precisava

Na entrevista ao repórter Beto Bombig do Estadão, o presidente Fernando Henrique usou mais anos do que precisava para definir o perigo da influência da BolsoFamília no governo. Dizer que “Assistimos ao renascimento da família imperial” soou mal, tanto pelo Renascimento quanto pelo nosso último imperador, ambos exemplos repletos de sabedoria que, definitivamente, não é uma característica dos Bolsonaro.

Entre Bolsonaro o único comparável a um membro da família imperial é Renan, o ZeroQuatro, que segundo o pai namorou o condomínio inteiro, qual faria Pedro I. Mas de qualquer maneira a suposta proeza do rapaz parece só uma tentativa de Jair para se desvincular do vizinho e cossogro Ronnie Lessa, ex-PM, miliciano e maior traficante de armas conhecido na história do Brasil, preso pelo assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes.

FHC não precisava ir ao século 19 buscar exemplo de problemas causados por familiares em governos. Já no século 20 ele encontra uma boa história, que por sinal assistiu: Jango e Brizola.

O presidente João Goulart era um homem bom e bem intencionado. Tudo o que propunha acabou acontecendo em período de paz e democracia. Hoje a agenda Jango é consensual, noves fora os tuítes de ou outro tarado.

Mas naquele então Leonel Brizola, o cunhado carbonário, que igual aos bolsofilhos tinha mandato e não podia ser demitido, inflamava as redes populares e assustava as elites conservadoras. Ajudou muito a narrativa dos que aplaudiram o general Mourão chegar num tanque ao Palácio das Laranjeiras.

 
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Notícias do Ibirapuera: grata surpresa e um receio

Escrevo para dar um abraço num casal de ciclistas que frequenta o Parque do Ibirapuera. Ontem à noite nos encontramos ao atravessar a praça Armando de Salles Oliveira, onde há um hiato entre a ciclovia da Manoel da Nóbrega e a do próprio parque.

No través do monumento às Bandeiras notei a luz dos faróis das bicicletas. Segui meu passo normalmente. Então escutei o som da campainha, mas fiz que não. Ambos deram um jeito de nos ultrapassar e a mulher, com sincera doçura, agradeceu a licença que não lhe foi. Respondi com a mesma sinceridade e a doçura possível, lembrando que ali é calçada, não ciclovia.

Na faixa de pedestres estávamos de novo perfilados e ela comentou com ele sobre onde era a ciclovia. Me intrometi mostrando o hiato, acrescentando que a guia rebaixada é para cadeirantes, não para ciclistas. O rapaz, muito educado, perguntou como fariam os ciclistas para atravessar aquele ponto. Respondi que deveriam descer da bicicleta e empurrar. Grata surpresa: ambos assentiram, apearam e empurraram suas magrelas até a entrada do parque.

A entrada por aquele portão é um perigo. Afunilada por um canteiro alto em granito, vira e mexe algum pedestre escapa de um acidente provocado por ciclistas que aceleram animados em direção ao parque. De noite, sem iluminação, piora muito.

Casal querido, meu abraço em vocês. Que maravilha saber que há gente assim, razoável, fina, elegante e sincera.

Durante a semana tive uma experiência exatamente inversa. Eu chegava no parque com sede, a fim de um gole antes da minha volta. A água do bebedouro de pedra é ótima. Com temperatura de talha, jorra às polegadas, enchendo a boca. Ao me aproximar, porém, a frustração: um atleta usava a fonte para lavar a cabeça e o interior da boca.

-       Amigo, não leve a mal, mas isso é um bebedouro, não uma pia.

-       E?

-       “E” por favor não faça isso. Tem banheiro com pia e outros equipamentos para você se refrescar.

-       E? E?

Como ele subia o tom do “e?” e eu já tinha desistido de beber água misturada a suor, segui em frente. Ouço passos de cooper se aproximando. Olho para trás e é o atleta malcriado, que então desvia mas comenta: Cuida da sua vida. Perdi a cabeça e devolvi: corre, porco. Pena.

Outros tipos antissociais que se avolumam no parque:

. gente que, vivendo na cidade, cria cães de caça e usa os patos no lago para exercitar seu instinto;

. conferencistas de air-pod que caminham despachando ordens por telefone;

. skatistas, ciclistas e patinadores que consideram os demais obstáculos perfeitos para aumentar a adrenalina de suas manobras;

. pulador de corda que evolui com sua chibata justamente onde o fluxo se concentra;

. animados dos alto-falantes que têm certeza que seu gosto musical agrada a todos.

Ontem, na saída, identifiquei a origem de um som alto que ecoava por todo interior do parque. A prefeitura instalou postes no portão nove. Não de iluminação, como é necessário, mas com alto-falantes. De frente para eles há um aviso com regras básicas de uso, entre elas a proibição de aparelhos sonoros. Impasse?

Receio: se o parque sob a prefeitura já está assim, com a privatização virá uma rádio Ibirapuera, anunciando o quilo do coxão-mole no supermercado mais próximo?  O logotipo subliminar do Pão de Açúcar segue no lago, desde que o ex-dono da venda “doou” a fonte para a cidade.

 
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Beato Salu na Praça dos Três Poderes

Na oligarquia da Asa Branca de Dias Gomes e Agnaldo Silva, o que mais se temia era a volta de Roque Santeiro. Dezessete anos após o desaparecimento, seu retorno era iminente, ameaçando o fim do mito.

A principal ameaça era feita por Beato Salu, pai de Roque. Desprezando e merecendo a recíproca dos poderosos locais, anunciava não a volta do filho, mas o fim do mundo.

Extrato do Brasil, Asa Branca, tanto quanto o filho ilustre, segue viva em todos os sentidos no coração nacional.

O engenho contemporâneo, porém, parece escolado, e conseguiu neutralizar Beato Salu. Não em suas sandices, mas na percepção delas. Como? Arranjando um elenco ainda mais surrealista.

Naquele mesmo 1986, enquanto Roque Santeiro finalmente era exibida no horário nobre, nos Estados Unidos estreava a comédia “De volta às aulas”, estrelando um empresário tosco e milionário por vender roupas para gordos. Seu slogan era: quer parecer magro? Tenha amigos gordos.

O slogan parece ser a única explicação para a percepção ora vigente sobre o ministro Paulo Guedes. Com êxito profissional incontestável, apesar de alguma nebulosidade em pontos legais, PaGue é financeiramente rico como a estrela do filme, mas considerado intelectualmente tosco por um sem número de economistas, de quem mereceu o apelido inspirado no louco da novela: Beato Salu.

Ocorre que, se no coreto da praça de Asa Branca se encontram Pastorinha, ChanCelerado, colombiano ufanista do Brasil, todos regidos por Marte no mapa traçado pelo astrólogo da Virgínia, convenhamos que Beato Salu parece razoável. Com a Praça dos Três Poderes não é diferente.

O fazendeiro Sinhozinho Malta está apavorado com o desmame prometido, não quer chorar sobre o cadáver de Ametista. Assim como o industrial e comerciante Zé das Medalhas com a ameaça da faca. Os padres Hipólito e Alcindo seguem batendo cabeça. Sem falar na sombra cada vez maior do bando de Navalhada. Já o político Florindo Abelha mostrou o ferrão e disse que sem flores não vai ter mel – levou um bilhão em emendas e a promessa de cargos mil.

Porém, no pregão da Faria Lima, Beato Salu roubou a fala de Sinhozinho Malta e repete ameaçadoramente: tô certo ou tô errado? E o pessoal do asset assente, fingindo acreditar que, mais que durar, o paraíso do semestre passado se repetirá na terra se passar a reforma da Previdência, materializando a década do trilhão.

Os apóstolos de Salu não têm limites e creem que podem reeditar as escrituras. Falam em desvinculação geral do orçamento, um trava língua de três trilhões e trezentos milhões, versão 3.0 da Pec do Teto, mais R$ 2 trilhões em privatizações, R$ 120 bilhões de ajuste fiscal e por aí vai. Quem ousa duvidar é condenado a embarcar com filhos e netos num voo só de ida para Atlântida.

Graças a Deus, contudo, ainda há céticos. Clovis Rossi na Folha de hoje os apresenta. O primeiro é Mohame El-Erian, conselheiro econômico-chefe da Allianz, para quem urge aos colegas um olhar mais amplo; Gene Sperling, guru econômico do Partido Democrata americano, para quem dignidade econômica é a única meta, tendo por tripé capacidade de cuidar da família, oportunidade de realização, liberdade contra dominação e humilhação; e, vejam vocês, o professor Delfim Netto, que botou na mesma Folha um “talvez” em referencia a uma renda básica para confortar o cidadão mais vulnerável.

Ainda: obviamente a reforma da Previdência é necessária, porém muito antes de ser panaceia deve ser sabida como paliativa. Com as novas tecnologias viveremos mais e trabalharemos menos. Pleno emprego ao modelo de produção e consumo chinês ou americano para sete bilhões de pessoas explodiria o mundo.

Meu palpite é conhecido desta freguesia: só uma renda básica universal garantiria dignidade social e movimento da roda econômica. A parte boa é que a proposta é um dos raros pontos de convergência entre gente tão diferente quanto Eduardo Suplicy, Fernando Henrique, Bill Gates, Barack Obama, Ellon Musk, Richard Branson, OakLavo e Beato PaGue Salu.

 
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A selfie tóxica ou o Luis 14 em nós

A grande novidade na egolatria atual é a democracia e, antes e mais abrangente, a velocidade com que foi atingida, sem tempo para digestão social.

Amor próprio é vitamina, ajuda a viver. Em caso de enfermidade pode ser remédio e ajudar na cura de um mau momento. E como toda droga, nessa toada corre o risco de virar veneno. Numa balada louca, provoca overdose.

A balada das rede sociais acelerou esse processo de democratização ególatra. Os retratos a óleo nas paredes, antes reservados aos mecenato renascentista, ou as estátuas e monumentos, ainda mais restritos, originalmente exclusividade de divindades mitológicas ou religiosas, depois a autocratas e tiranos, agora estão ao alcance de todos. Voltando ainda mais um pouco, chegaremos a Narciso, intoxicado pelo próprio reflexo.

Não à toa, em 2013 o dicionário de Oxford elegeu selfie como palavra do ano. Em 2018, a palavra é tóxico.

Me lembro de quanto surgiu o Orkut, mas não exatamente há quantos anos. Mais claro na memória é o argumento dos amigos que nos convidavam a participar: ele nos lembra as datas de aniversário dos amigos.

Ora, passamos milhares de anos recebendo parabéns limitados, de gente realmente querida ou socialmente comprometida conosco. De repente, centenas de votos, carinho imenso, vulgarmente agradecido como “massagem no ego”.

Qual seria o efeito disso no espírito coletivo? Meu palpite é que fica próximo do governante que, empossado, torna-se vítima de bajuladores. E como há nego talentoso para tudo, há exímios puxa sacos, capazes de enganar o mineiro octagenário. Imagina o que podem fazer com um adolescente instável de qualquer idade. Com a roda girando, até o próximo aniversário o sujeito procura retribuir os fãs com notícias sobre a própria vida, afinal, não quer desapontar ninguém.

Ficamos extremamente vulneráveis. O consumismo, que já era desmedido, cresceu na mesma proporção do amor próprio. Nos sentimos merecedores de recompensas repetidas que, se não vêm por êxitos intelectuais, afetivos, profissionais, esportivos, podem ser disfarçados com um par de tênis novos.

O aniversário universal ocidental costumava ser o de Jesus. O comércio, inspirado nos reis magos, nos levou a trocar presentes, como se os merecêssemos tanto quanto o Nazareno. Deu muito certo e não demorou para o vício se espalhar pelo ano, com dias disso e daquilo.

Com o fenômeno dos aniversários nas redes sociais, num prazo de dez anos, um sopro na história humana, passamos a sentir individualmente uma importância que não temos. Literalmente há 365 natais. E o algoritmo sabe onde está cada “menino Jesus” e é capaz de fazer brilhar uma Estrela de Belém na timeline dos potenciais reis magos, fortalecendo o círculo vicioso.

A vulnerabilidade serve para tudo. Mensagens políticas passaram a apelar para os sentimentos mais primitivos, aqueles que o pudor não nos permitia revelar nem a nós mesmos, despertando nosso Rei Sol individual. Resultado: cada um de nós acha que “o Estado sou eu”.

Como tem limite para tudo, chega um dia em que não basta seu nome escrito numa joia, na camisa da seleção, seu retrato nas redes sociais. E, quando cai a ficha da impossibilidade de ter a própria face estampada numa moeda – nos cartões de crédito já é frequente –, ou o corpo sarado eternizado em mármore na praça matriz, o Luizinho 14 reage. Igual a todo tirano, compra umas armas e libera os demônios da vingança contra a ingratidão de “sua” gente.

É urgente equilibrar isso. Como fazer, não tenho certeza. Mas se nada for feito, não demora virão as guilhotinas contra selfies. E basta olhar as redes para ver que cada um de nós hoje é um monarca.

 
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