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Passamos dos limites

Na semana de véspera 15 de Novembro muito se falou em monarquia. Quem puxou o cordão foi o presidente da República,  em ataque gratuito ao vice general Hamilton Mourão, dizendo-se arrependido por não ter feito Luiz Philippe de Orleans e Bragança seu companheiro de chapa.

O motivo da troca na última hora seria um dossiê envolvendo o príncipe em suruba gay e excursões noturnas para espancamento de mendigos. Assombração bastante comentada mas que ninguém afirma ter visto.

Numa sequência incrível, tão própria da atualidade, o deputado príncipe sentiu-se obrigado a dar explicações públicas e assim foi feito.

Pasmo, comentei no tuíter que, em 130 anos de República, onde não faltaram esforços para ridicularizar a Casa de Bragança – dom João VI bobo, Carlota safada, Pedro I tarado, Pedro II lento etc. – a atuação parlamentar do príncipe, aliado ao que de mais baixo a República já produziu, há de prejudicar a imagem da família imperial mais do que os “republicanos” um dia desejaram. E me solidarizei com o ramo de Petrópolis, cujo expoente maior é dom Joãozinho, e que preserva comportamento de alteza.

E então chegamos onde eu gostaria. Alguém comentou logo abaixo: “solidariedade ao fio da guilhotina”. Pode? Estamos em 2019 e alguém que provavelmente almoçou peito de frango com purê de batatas, sugere guilhotina. Teve várias curtidas.

Quem por algum momento preferir imaginar que trata-se se figura de linguagem, sugiro que pense de novo. Nas rebeliões dentro dos nossos presídios o comum é ver gente degolada, estripada, corações humanos usados como bola de futebol.

Dizer que são marginais que perderam o elo com a civilização é uma resposta fácil e até confortável. Pois vá ao cinema assistir Bacurau. Compre dois ingressos e use o primeiro para ver o filme e o segundo para assistir à plateia. É assustador ver gente tida como esclarecida, que frequenta cinema de rua e circuito cultural, vibrando e aplaudindo a barbárie contra a barbárie.

Ou ver o engajamento de quase quinze mil pessoas em torno de um post absurdo do deputado federal tucano Alexandre Frota, perguntando se no dia do atentado contra Jair Bolsonaro Adélio Bispo foi incompetente ou distraído.

E ainda ver o jornalista Augusto Nunes usando familiares mortos de Lula, inclusive o neto falecido do ex-presidente, uma criança falecida!, para ataca-lo nas redes sociais.

Pro meu gosto a baixeza e a agressividade passaram dos limites. Não tem como continuar assim.

 
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O nome é Paulo Guedes

Paulo Guedes deve ser investigado. Sua trajetória recente está cada vez mais clara. E obscura. O que terá feito a partir da soma do poder econômico e da frustração histórica é de interesse público.

No ano passado, sabe-se, andou procurando um candidato a presidente para chamar de seu. Poder de persuasão ele tem. Convenceu a família Huck que, por sobrevivente de um acidente aéreo, têm uma missão a cumprir pelo Brasil. É incrível, mas colou e Angélica segue repetindo o delírio.

Como os Huck, identificados pela big data de Paula Guedes, filha do ministro, refugaram e adiaram sua missão, PaGue abraçou Bolsonaro e, sem pudor, avança com seu plano de vingança histórica.

O mais louco é ver que inclusive a parte pensante do chamado “mercado” se recusa a critica-lo. Membros dos conselhos do grande capital, pagos justamente para não dar conselhos, os sábios, ou çábios na grafia gaspariana, calam-se enquanto Beato Salú avança com seu plano sórdido.

Quem pode para-lo? Não sei. Todos estão acuados. Imprensa tremendo de medo de morrer de vez, academia idem, com ataques e patrulha deliberada pelo governo, se recusam a dizer com todas as letras quem é o pilar da destruição nacional. E o pilar tem nome e sobrenome: Paulo Guedes.

Segundo a última rodada da pesquisa XP, PaGue é o ministro com popularidade em ascensão. Como pode alguém que propõe taxar desempregado ser popular deveria ser um mistério. Mas não é. Cresce justamente pelo silêncio dos que deveriam ser bons, mas comprados pelo dinheiro fácil da bolsa em fictícia disparada, calam-se.

Hoje soubemos, pelo canal do Pannunzio, como PaGue costurou nos bastidores as contribuições do então juiz Moro para sua campanha. Sim, sua, não de Bolsonaro, que não passa de um fantoche. É no mínimo escandaloso que um banqueiro e um juiz tenham de juntado para tomar o país.

O nome da fera é Paulo Guedes e  é nele que devemos nos concentrar enquanto resta algo por que lutar.

 
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Eu choro

Paulistano, emocionado amanheço sempre que garoa. Notadamente em véspera de feriado. Dia da República. 130 anos. Ou trinta da primeira eleição direta para presidente depois de 21 anos de ditadura militar. Pois é. Elegemos o Collor naquele então. E depois de tanto tempo, isso que aí está.

Velho, cansado, minha ideia para hoje era um copia e cola nesta página. Mas a juíza Hardt de Curitiba (oh vida, oh céus)  ensina que essas coisas não acabam bem. Cá entre nós, freguesa: quanta irresponsabilidade desse pessoal da Lava Jato. Segurança jurídica nunca foi o nosso forte. Mas ao condenarem uma figura pública do tamanho de Lula, passam a mensagem, aqui e alhures,  que ninguém está livre do justiçamento. Quem quer existir ou investir em um país assim, fora os espertos de sempre?

De qualquer maneira, um chorinho de copia e cola não vai matar, sobretudo pela sintonia com este dia. Salve, Vanzolini!

Longe de casa eu choro e não quero nada
Pois fora do chão ninguém quer e não pode nada
Sinto falta de São Paulo
De escutar na madrugada
Uns bordões de violões
E uma flauta a chorar prata

Dor de amor não me magoa
A saudade da garoa é que me mata
E eu saio pra rua
Assobiando comprido
Um samba comovido
Que Silvio Caldas cantasse
E me iludo que a garoa
Vem molhar a minha face

Mas é pranto e eu choro tanto
Quem me dera que hoje mesmo
Eu voltasse pro chão que eu adoro
Pois longe de casa eu choro e não quero nada

Sim, eu choro. Mesmo estando em casa, eu choro. Ou antes: sobretudo por estar em casa. O que fizemos da nossa casa?

Abro o jornal e leio que o ministro da Economia PaGue quer se livrar da obrigação de investir em Educação. E diz com todas as letras que a ideia é privatizar, para dar ao interessado em estudar a possibilidade de optar pela escola pública ou a privada – emendando com todas as letras: sempre que tiver opção.

Mas curiosamente ele não se lembra de privatizar o mais fácil e óbvio. Por exemplo: o Banco do Brasil tem 49,9% do Banco Votorantim. Lula mandou comprar para não deixar quebrar. E vale lembrar que à época o economista chefe era Abraham Weintraub, atual ministro da… Educação. (Ganhou bônus naquele ano?) Por que não vendem as ações?

Como se não bastasse, hoje soubemos pelo Valor Econômico que o executivo Guilherme Horn deixou esta semana o conselho BB para ser diretor do BV. Assim, sem quarentena, sem nada. Tudo na boa. Não deve ser ilegal. Mas eu choro.

 
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Veja: Assassinato de mulher grávida de oito meses foi determinante para a aliança entre Bolsonaro e Bivar

Quando a capacidade de indignação parece esgotada, toca o interfone e o porteiro avisa que chegou mais.

Destacado pelo repórter Nonato Viegas como o capítulo mais baixo do racha no PSL, o caso dos aliados de Jair Bolsonaro que acusam Luciano Bivar de envolvimento em um assassinato em 1982 deveria ter sido a capa da Veja.

Pano rápido: o ano é 2018 e Bolsonaro precisa de legenda para disputar a Presidência da República. Bivar oferece seu PSL com prejuízo familiar: o partido abrigava o movimento Livres, liderado por um filho de Bivar que, liberal convicto, não aceita ter um reacionário populista como aliado. E Bivar pretere o filho para ter Bolsonaro.

Perto da data limite para registro das chapas, Bolsonaro quer o controle do PSL nas mãos do então aliado e hoje inimigo Gustavo Bebianno. Bivar topa mas a contrapartida é seu nome na vice. Impasse. Há prazo. E curto.

Então o empresário Gilson Machado, atual presidente da Embratur, que se aproximou de Bolsonaro em 2018 para surfar a onda promissora, leva ao pré-candidato uma história obscura envolvendo Bivar.

O caso: em 1982 surge no rio Capiberibe, no Recife, cidade de Bivar, o corpo de Claudete Maria da Silva, massagista de trinta anos e grávida de oito meses, com sinais de estrangulamento e afogamento. Ela seria amante de Bivar que, já casado e com filhos, teria apelado ao horror para evitar um drama conjugal. Diz Machado: “Todo mundo com idade sabe que as suspeitas recaíam sobre o Bivar.”

Como o dossiê era magro, Bolsonaro escalou um aliado pernambucano para fortalece-lo. E o coronel de Polícia Militar Luiz de França Silva e Meira foi convocado para o trabalho. “Procurou policiais e promotores da época e concluiu que interferências políticas teriam impedido a elucidação do crime.” Vale lembrar que era ditadura militar e que a família Bivar tem poder em Pernambuco. Também falou com pessoas próximas da vítima, incluindo mãe e irmã, que confirmou o relacionamento de Claudete e Bivar, acrescentando que na véspera do aparecimento do corpo ele a chamara para um encontro.

Tais informações deram musculatura ao dossiê, que então circulou entre a coordenação da pré-campanha de Bolsonaro, incluindo Bivar, que achou por bem desistir da vice.

A trégua durou aproximadamente um ano, com todos os envolvidos mantendo segredo. Mas com o racha no PSL, que culminou na desfiliação de Bolsonaro e alguns aliados para a criação da Aliança pelo Brasil, que se pretende partido político, o presidente da Embratur Gilson Machado e o coronel Luiz Meira resolveram dar publicidade ao caso.

É o horror mas não é novidade assassinato em disputas pelo poder. Vide Marielle Franco, Celso Daniel e tantos outros casos.

Mas o reconhecimento público de que o presidente da República usou de chantagem para se aliar a alguém tido como culpado pelo assassinato de uma mulher grávida de oito meses para garantir legenda para disputar a eleição, para mim é novidade.

O crime de assassinato está prescrito. Já o reconhecimento da chantagem e a naturalização da aliança com um suspeito de matar uma mulher e o próprio filho, que contava oito meses em seu ventre, merece investigação mais aprofundada.

Urge que o Ministério Público abra inquérito para ouvir toda a coordenação da campanha de Bolsonaro, incluindo Hamilton Mourão, Paulo Guedes, Augusto Heleno, Onyx Lorenzoni, Gustavo Bebianno, Paulo Marinho, Joice Hasselman, 01, 02, 03, Delegado Francischini, Julian Lemos, Gilson Lemos, Luiz Meira etc.

 
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Bolívia e a maldição dos confetes

Tem gente boa divergindo sobre o que houve na Bolívia. Foi golpe? Não foi? Meu palpite: contragolpe. Evo Morales desrespeitou um referendo para disputar um quarto mandato e fraudou a eleição. A rua estourou com milícias se conflagrando, atacando inclusive casas de família. As forças armadas “sugeriram” que ele se retirasse, o ex-presidente renunciou e se exilou no México.

O principal líder de oposição chama-se Luis Fernando Camacho, católico reacionário que mistura religião com política e… Bom, aqui no Brasil o tipo prescinde de descrição. Todos conhecemos bem.

É uma pena tremenda que em 2019 tenhamos um cenário desses onde quer que seja. Mas está posto. E prever o que vai dar é impossível até para quem conhece bem a Bolívia – o que não é o meu caso.

Neste momento, não há governo. Toda linha sucessória renunciou. Inclusive os membros do tribunal eleitoral, que seriam responsáveis por organizar novas eleições. E ainda assim dois foram presos, ao vivo na TV, por militares mascarados.

O curioso é que a ascensão de Evo se deu em situação muito parecida. A história é bem contada no documentário Crise é o Nosso Negócio, da cineasta Rachel Boyton, que mostra os bastidores da campanha eleitoral boliviana de 2002, quando a agência de estratégia eleitoral americana Greenberg Carville Shrum é contratada para sacudir a candidatura Goni – e vence.

Gonzalo “Goni” Sánchez de Lozada Bustamante, filho de diplomata criado em Whashington, que fala castelhano com sotaque americano, já havia presidido a Bolívia entre 1993 e 1997. Em 2002 tentou outra vez e venceu. Mas não durou.

Em 2004 país vivia uma crise econômica pesada e uma das soluções era vender o gás da Bolívia pouco industrializada para o Chile muito industrializado. Foi quando a oposição, liderada por sindicalistas cocaleiros, apela para a ancestralidade e faz renascer nos povos indígenas uma rivalidade datada do século 19: a Guerra do Pacífico, quando o Chile toma o litoral da Bolívia e anexa parte do Peru.

A revolta nas ruas dizia: já levaram nossas praias, não levarão o nosso gás. Goni teve que fugir para os EUA. O vice Carlos Mesa assumiu mas a violência escalou para a chamada Guerra do Gás: 80 mortos e 500 feridos. Renunciou também. Em seguida derrubaram os presidentes da Câmara e do Senado e entregaram o poder à Justiça até que novas eleições fossem realizadas.

Em 22 de janeiro de 2006 Evo Morales assumia a Presidência da Bolívia. Fez um governo popular, com êxito econômico e diminuição da pobreza. Ficou até antes de anteontem, quando teve que fugir para o México.

Na política boliviana quem entra deve estar disposto a enfrentar as batalhas de qualquer lugar e uma além: os confetes. A tradição local é encher os cabelos dos candidatos. Quem brinca o carnaval sabe: anos depois de uma folia bem feita, você tira a palmilha do sapato, afasta um criado mudo e lá estão eles, como uma maldição.

 
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Lula, Zero Um e Moro no STF

O placar foi 6X5. Apertado, portanto. Ou por outra obviedade: se apenas um dos onze ministros votasse diferente, ainda seria 6X5, só que pro outro lado. Isto é: tanto faz se achamos junto ou injusto o resultado. Seja lá como for, não cabe reclamar do Supremo como um todo.

Se suas excelências, que a rigor gozam de notório saber jurídico, assim divergem, eu é que não me meto a debater o mérito. Mas a politização e principalmente a fulanização da questão é importante criticar.

Infeliz e temerariamente o debate público ficou em torno de Lula preso ou Lula livre. Os partidários do Lula preso não se dão conta de que, se a decisão agora foi política, o entendimento anterior necessariamente também era, e assim teria prendido e tirado da campanha eleitoral um líder popular, configurando grave atendado à democracia.

E os partidários do Lula livre, como estariam se portando caso o 6X5 fosse pela manutenção da jurisprudência anterior? Estariam defendendo a legitimidade do STF? O funcionamento das instituições? Duvido.

Os próximos dias dirão o tamanho do respeito que cada lado tem pelo Poder Judiciário. Para o dia 21 de novembro está prevista a votação sobre o uso de informações do velho COAF em processos judiciais. Igual à prisão já na segunda instância, que não começa com Lula, tal questionamento não começou com Flávio Bolsonaro, mas será nele fulanizado. No recesso, Dias Toffoli canetou sozinho suspendendo os processos que contavam com informações colhidas pelos órgãos de controle de atividade financeira suspeita. Agora o plenário deve falar.

E também na segunda quinzena de novembro a segunda turma do STF deverá dizer se o ministro Sérgio Moro é ou não suspeito no julgamento do triplex. Ninguém sensato, depois da Vaza Jato / TIB, sustenta que o então juiz foi isento. Mas não falta quem diga, sem qualquer pudor, que se foi para prender o Lula, valeu a pena.

Enfim, 2019 complicado aqui e alhures. E tem tudo para piorar.

 
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Dialética municipal

A proposta de diminuir o número de municípios brasileiros foi apresentada sob um critério claro: os que tiverem até cinco mil habitantes e arrecadação própria inferior a 10% da receita total, deverão ser somados em grupos de até quatro vizinhos, furando o piso proposto.

O prazo previsto para que as prefeituras apresentem seus números é 2023 e a largada para as unificações, 2025. O número de habitantes será verificado no Censo 2020.

Claro que tudo depende de política, entendimento, conversa, acordo. Estima-se que sejam aproximadamente 1200 municípios com menos de cinco mil habitantes. O pódio é alarmante. Os três municípios com menos número de habitantes são Serra da Saudade (MG), com 781, Borá (SP), com 837 e Araguainha (MT), com 935. E vale lembrar que, dentro de um ano (salvo engano), haverá eleições municipais.

O curioso na proposta é a dialética implícita no pacote – ou embrulho, no todo – apresentado pelo Governo Federal. O mote é “Mais Brasil, Menos Brasília”. Descentralização, portanto.

Mas, mas… Fundir municípios não seria uma forma de centralização? Sim, seria. Pode ser positivo? Sim, pode. Mas para fazer sentido, o corte centralizador deveria vir acompanhado de outro descentralizador.

Ora, se não tem cabimento existir uma cidade que não consegue arcar sozinha com 10% de sua despesa manter Executivo, Legislativo, assessoria e burocracia, distritos de grandes cidades que têm população e economia muito acima do piso proposto também deveriam ser contempladas com alguma forma de autonomia.

Paraisópolis, por exemplo. Temos duas, pelo menos. Uma fica em Minas Gerais e é município com aproximadamente vinte mil habitantes. A outra é um bairro da capital paulista que há dez anos contava 42 mil moradores. Tem até moeda própria e ai do fiscal do Banco Central que aparecer para dizer que não pode.

Não conheço a cidade mineira, mas já estive algumas vezes no bairro paulistano. Seu principal problema é representatividade política. Dependem, igual a todos os bairros, de uma subprefeitura completamente subordinada à Prefeitura. No caso é a sub do Campo Limpo, que abrange Capão Redondo e Vila Andrade, somando 600 mil habitantes.

Só 48 municípios brasileiros concentram mais de 500 mil habitantes, sendo 25 deles capitais. Fica difícil defender que Paraisópolis ou, vá lá, a subprefeitura do Campo Limpo e similares, não tenham maior autonomia administrativa, principalmente orçamentária.

Supondo que passe o corte mínimo de cinco mil habitantes e 10% de receita própria para ser município, me parece justo e lógico que tenhamos o corte máximo, quiçá cem mil habitantes em homenagem à favela da Rocinha, com os mesmos 10% de receita própria para ter autonomia administrativa. Os recursos extras viriam da distribuição baseada num cálculo que contemplasse fatores desde população até necessidades locais, regionais, municipais e metropolitanas.

No caso dos municípios a serem fundidos, o melhor caminho parece ser a formação de consórcios intermunicipais, com Executivo e Legislativo sediados no vizinho mais rico, maior, mais antigo ou como queiram, e que cada um dos quatro criasse um conselho deliberativo de participação – que, aliás, está em Brasília aguardando decisão sobre constitucionalidade.

O ideal seria que tivéssemos uma legislatura para cuidar exatamente do tema, mas pouca gente se dá conta e seguem fazendo as coisas via PEC. Tão importante quanto seria inverter a ordem das reformas, começando pela política, que melhoraria a forma de escolha dos nossos representantes. Mas isso talvez seja querer demais da Nação brasileira.

 
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Faça o teste

Faça o teste, freguesa. Vale a pena – literalmente, pena mesmo, no sentido de penitência. É simples, porém dolorido. Porém insisto: vale a pena. E é urgente.

Escolha um bar ou restaurante em rua movimentada de sua cidade. Pode ser qualquer um, desde que disponha mesas nas calçadas. Então peça uma refeição. Não precisa caprichar com ostras que voaram de um lugar distante para chegarem frescas. Nem regar com espumante. Um PF de arroz, feijão, bife e salada regado de água basta.

Comece. Talvez você se surpreenderá com o incomodo de ser interrompido entre uma e outra garfada por gente desabrigada e faminta pedindo ou implorando por algo parecido. Ou pelo menos o que sobrar. É indigesto, bem sei, mas é o que é e acontece todo santo dia, ainda que muitos de nós, protegidos pelos muros imaginários, não percebamos.

Ocorre que o muro só é imaginário na nossa cabeça, que impede a visão do outro lado, para o qual o muro é real, mas paradoxalmente não impede a visão. Muito pelo contrário.

Por melhor que seja seu coração e maior que seja seu cofrinho, é impossível resolver o problema ali da calçada. Você pode até, para aliviar o momento, autorizar almoços em quentinhas pata todos os pedintes que lhe abordarem. Provavelmente seu estômago fará uma digestão melhor. Mas hora do jantar a fome estará de volta em cada um dos demais estômagos.

Numa cidade como São Paulo não é difícil que a conta do almoço para um casal chegue em R$ 145. E, segundo dados do IBGE divulgados ontem, esta é a soma que 13,5 milhões de brasileiros têm para passar o mês. Recorde na série histórica iniciada em 2012, o grupo é classificado como pertencente à “extrema pobreza”. O nome mais adequado é “miseráveis”.

A linha que separa os brasileiros é clara e longa como a que separa o Solimões do Rio Negro: 74,96% deles são pretos ou pardos, 59,99% não tem instrução fundamental, 25% dos jovens não estuda nem trabalha.

Entre os que escapam da linha de miséria mas seguem abaixo da linha de pobreza, ou que vivem com até R$ 413 reais por mês, equivalente a meio salário mínimo, o contingente salta para 50% da população ou cerca de 104 milhões de pessoas, entre as quais aproximadamente ¾ são pretas ou pardas.

De novo: tentar consertar individualmente é inútil. No máximo, desembrulha o estômago. E o pacote de revolução constitucional – ou embrulho inconstitucional – apresentado pelo ministro da Economia PaGue, para quem o pobre deveria aprender a poupar parte dos valores descritos acima, olhar típico de quem se sente protegido pelo muro imaginário, definitivamente não é o que vai resolver. Muito pelo contrário.

A única alternativa é nos reconhecermos como Nação e entendermos que riqueza e pobreza andam de mãos dadas. A primeira deve ser distribuída democraticamente de modo que ninguém fique abaixo de uma linha de dignidade. E a segunda deve ser entendida como é: a coisa mais cara que existe, cujo preço estamos todos pagando.

 
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A canoa vai virar. Quando?

Minha inveja mais antiga é caiçara. Ainda menino eu admirava os garotos filhos de pescadores que sabem se equilibrar em canoas pequenas, verdadeiras cascas de amendoim, e lamentava não conseguir sequer embarcar numa lancha média sem risco de acabar na água.

O equivalente urbano desse sentimento vai em relação às crianças de hoje em dia. Os filhos dos ricos estão sempre cheios de atividades, mas todas cercadas por muros e grades. Entre umas e outras, são entretidos pelo tablete ou TV instalado nos encostos de cabeça dos SUVs. Aprendem muitas coisas, mas não têm noção do que é uma calçada. Soltos a duas ou três quadras de casa, estarão perdidos.

Já os filhos dos pobres, com sorte, passam um período do dia na escola. Mas o resto do dia é na rua, trabalhando para ajudar no orçamento de casa. Vivem a cidade com todos seus achaques e deleites.

Não vou cair na armadilha de tentar dizer qual modelo é preferível porque tal resposta não existe. Aliás, sequer podem ser chamados de modelo. Ambos são ruins e só podem ficar bons se misturados.

A distância entre os que vivem nas calçadas e os que desconhecem o que é calçada talvez nunca tenha sido tão grande. Os números divulgados ontem pelo Mapa da Desigualdade da Rede Nossa São Paulo são o retrato de uma calamidade social.

Entre os ricos o índice de mortalidade infantil é igual ao nórdico: 1,1 por mil nascidos. Entre os pobres a taxa é semelhante a de países africanos menos desenvolvidos, chegando perto de 25 bebês mortos antes de completar um ano de vida a cada mil nascidos.

E não se pode dizer que os sobreviventes têm mais sorte. A calamidade permanece de mamando a caducando.

Trecho sobre idade média ao morrer: “Se na média da cidade a vida acaba aos 68,7 anos, nos bairros com mais pretos e pobres, essa idade cai para 60,4 anos. Destaque para Grajaú (58,6), Anhanguera (58,8) e Jardim Ângela (58,9).

Nos 15 distritos com menos pretos e pardos, a média de idade ao morrer é de 77,8 anos. Moema, com 80,5, Jardim Paulista (79,8) e Consolação (79,4) é onde a expectativa de vida é maior.

Assim estamos divididos. Voltando à imagem da canoa, apesar de não saber usar, pude aprender o óbvio: não existe qualquer possibilidade dela navegar, ou sequer de não virar, com o peso tão mal distribuído. Então é claro que vai virar. Resta saber quando.

Ah! Quando vira, não importa se você está sentado tomando sol e cerveja ou de pé remando e suando: vai todo mundo pra dentro d’água, o que para quem está cansado e suado pode até ser um alívio.

 

 

 
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Noção nova sobre o capital

Dizia-se em São Paulo que o Antenor Mayrink Veiga, símbolo de riqueza do século 20, usava um taxi para se deslocar no Rio de Janeiro. Pode parecer estranho para os millennials, mas o chique na época era ter carro próprio com motorista, e andar de taxi era quase que um atestado de pobreza em alguns círculos.
Antenor era dono de uma fortuna construída desde muito tempo e aumentada durante a Guerra do Paraguai, quando a Casa Mayrink Veiga passou a comercializar com as Forças Armadas e só parou mais de cem anos depois. Tinham dinheiro para manter um avião disponível só para buscar guloseimas, como água Perrier, durante safáris na África.
Porém Antenor era discreto e, assim, usava taxi para não chamar atenção. Com um detalhe: o carro era dele e o chofer, seu empregado.
Hoje em dia, ainda que os super-ricos do terceiro mundo continuem fazendo a mesma coisa com aviões, helicópteros, barcos e casas de veraneio, com a melhora da frota na praça e a facilidade em encontrar taxi ou similares, mesmo com dinheiro sobrando não faria sentido bancar o Antenor.
Aliás, já não faz sentido sequer ter carro próprio, noves fora peças de colecionador e o costume, que outro carioca ilustre definiu como “a força que fala mais alto do que a Natureza”.
O divertido é ver que o cenário na praça evolui bem desde a chegada dos aplicativos de compartilhamento. Sim, ainda tem muita gente suando e sofrendo os efeitos da crise macroeconômica e com os taxistas não é diferente. Mas dentro da microeconomia da praça tem gente se adaptando e garantindo trabalho.
Dia desses minha Neguinha pegou um taxi de luxo que custa a mesma coisa que qualquer outro. Carro coreano, mas de luxo, preto, chofer de gravata preta, ar ligado, bancos em couro, água gelada, drops, tomada para carregar celular, wi-fi. Usa faixa e corredor de ônibus e atende quase que exclusivamente pelo WhatsApp.
Alguém pode dizer com razão que não tem grande novidade nisso. Mas calma. A curiosidade é a forma de trabalho. Dessa marca e modelo de carro são 25 taxis em SP, cujos motoristas se reconheceram e se organizaram num grupo, compartilhando a freguesia sempre que um deles é solicitado e não pode atender. Dos 25, dez são blindados e mais disputados pela turma da paranoia.
Palpite: em breve esse e outros grupos vão evoluir para uma cooperativa onde os carros não serão mais propriedade individual. Se fizessem isso desde já, poderiam ser até 75 motoristas, trabalhar 24/7, faturar mais e diluir o capital e os custos de manutenção.
Se eu estiver certo, será divertido ver como mudaram, dos chiquérrimos Mayrink Veiga para cá, as noções de capital e elegância – esta sempre atrelada à inteligência.
(Por falta de retrato do discreto Antenor, segue a dos menos discretos mas elegantíssimos Carmem e Tony Mayrink Veiga.)

 

 
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