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O Brasil no microondas

Foi um dezessete de outubro impressionante no PSL17. Mesmo para quem se preparou para o impacto deste governo, o desastre impressionou a ponto de gente sensata supor que era tudo combinado para abafar algo ainda pior – igual a esmola excessiva que faz o pobre desconfiar, tamanha balbúrdia pareceu incrível até para os mais experimentados e pessimistas. Nunca se viu algo parecido.

O rolo é atribuído à disputa intestina pelo controle da legenda. O combustível é, pela ordem, o caixa de aproximadamente R$ 700 milhões que o partido terá no ano que vem, somando fundos partidário e eleitoral, e o poder de organizar as candidaturas nas principais cidades em 2020 – desde a escolha dos nomes até a distribuição do tempo de televisão – sempre fundamentais para as eleições gerais dois anos depois.

Jair Bolsonaro, presidente da República, quer o controle do partido. Mas Luciano Bivar, dono do PSL – que rompeu com o próprio filho e o movimento Livres para absorver o bolsonarismo – não quer abrir mão.

A centelha que deflagrou a explosão veio na terça-feira 15. A Câmara votava uma MP administrativa de interesse do Planalto e o delegado Valdir, líder do PSL e aliado de Bivar, orientou obstrução. De colher, ainda deu um tapinha nas costas do correligionário major Vitor Hugo, líder do governo.

O movimento que pode dificultar o dia-a-dia do governo é tido como reação à busca e apreensão da Polícia Federal nos endereços de Bivar por conta das denúncias de candidaturas laranjas que envolvem o ministro do Turismo, protegido de Bolsonaro.

Engraçado: no painel daquela votação PSL e PT estavam juntos em obstrução. E naquele mesmo dia a deputada Dra. Manato, do PSL, fazia a união definitiva. Subiu à tribuna e mandou “Só para avivar a memória da esquerda. Provados candidatos laranjas em 2018: PSL 15%, PT, PP 12%…” E concluiu “Não tem ninguém santo aqui dentro.”

No dia 16 o ponto de não retorno na relação BB (Bolsonaro e Bivar) já era dado. Aliados de um e outro começaram movimentos para tirar a liderança do delegado Valdir. O plano, pra lá de imprudente e não só avalizado como liderado por Jair Bolsonaro, era botar Eduardo Bolsonaro em seu lugar.

O que se seguiu foi uma lambança bizarra. Presidente da República gravado e vazado, reunião de bancada idem, ameaças e gente falando em não se reunir para evitar confrontos físicos – que não aconteceram.

Os termos usados estão pra lá do que nos acostumamos a chamar de fogo no quengaral ou cabaré. Até nos lupanares mais rústicos é incomum que as pessoas se tratem assim. Del. Valdir sobre Bolsonaro: vou implodir esse vagabundo. Joice Hasselmann ainda sobre Bolsonaro: inteligência emocional menos vinte. Eduardo sobre Joice: nota de três (meme).

E ainda: o áudio vazado com Bolsonaro mascateando a candidatura do filho tem um ponto gravíssimo. Ele explica ao deputado ou deputada que gravava as funções do líder do partido: verba, cargos etc. Quer dizer, das duas, uma: ou o presidente estava sugerindo compra de apoio ou o PSL não se preocupou em transmitir o básico do regimento parlamentar a seus membros.

Considerando que o partido botou R$ 800 mil num convescote reacionário internacional de Eduardo Bolsonaro, justificando com razão que o dinheiro do fundo partidário é para isso, resta perguntar por que não fizeram antes o básico.

O resultado foi péssimo para o governo. Derrota fragorosa para Bolsonaro. O vexame foi tão grande que, prudentemente, o presidente retirou a indicação do filho à embaixada nos Estados Unidos. E agora procura outra legenda qualquer para não ficar na chuva.

Tudo isso não só era previsível como foi aqui. Essa turma toda se aproximou da vida pública inspirada num deputado de baixíssimo nível, que junto com seus filhos se dedicou a defender milicianos, bananeiros e a ralé da agricultura e da mineração, praticar rachadinha com funcionários e lacrar nas redes sociais. Hoje não só estão no centro do poder como para lá levaram os maus modos que têm na vida pessoal. É de amargar ver o Brasil nesse microondas.

 
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Receita para sobreviver ao 17

Confortável neste 17 de outubro seria ficar ausente, evitar discussões que, como dizia o Otto Lara Resende, produzem perdigotos, não a luz.

Mas a verdade é que calar num momento assim é imprudente. Quando temos o general mais prestigiado do país ameaçando o Supremo Tribunal Federal, em sintonia com o grupo de maior influencia sobre o presidente da República, que por sua vez está longe de ser um modelo de moderação, falar é imperioso.

Há malucos esparramando mensagens que exaltam o resultado de popularidade adquirido pelo presidente do Peru desde que este fechou o Parlamento e, com efeito, acuou o Judiciário. Uma pena. Ocorre que por lá a Constituição prevê esta possibilidade e aqui é crime fazer apologia contra a Democracia.

Tivéssemos nós dado consequência legal aos elogios irresponsáveis do ora presidente da República – o principal, mas que não está sozinho – ao totalitarismo, esta situação quiçá pudesse ter sido evitada. Mas não é tarde. Nunca é.

A revolta da sociedade é compreensível, mas não cabe imaginar que a solução seja preterir a razão e a lei em favor da força. Sob o domínio desta ninguém está seguro.

Dito isto, me exponho aqui para me juntar aos que estão dispostos a defender as instituições e as mudanças e reformas necessárias para que estas se equilibrem com o zeitgeist, sempre respeitando o combinado anteriormente.

Calar agora seria fortalecer a apatia, primeiro mal que corrói a Democracia. Ausentes os democratas, restam os radicais e extremistas dispostos a tudo destruir, a começar pelas próprias vidas. Se desprezam a própria integridade, o que fariam com a do próximo?

Nesta e em toda guerra todos perdem, mas os que menos perdem acabam prevalecendo e, num segundo momento, historicamente buscam anular possíveis futuros grupos adversários, mesmo que não declarados. Esta é a raiz do fascismo, já escancarada.

É obrigação de todos, independentemente de lado ou partido, defender o Estado de Direito. Sem ele não há contrato social e a selvageria volta a imperar. Tenhamos isto claro sempre que a suposição de que pior do que está não fica acenar como alternativa.

Amemo-nos uns aos outros e sobretudo ao coletivo. Tenhamos a prudência de nos defender em grupo sem nos atacar individualmente.

 
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Entre Mario Covas e João Doria, quem Bruno escolherá?

Em duas semanas saberemos o destino político escolhido pelo prefeito Bruno Covas. Neto de Mario Covas e vice de João Doria Jr., ele poderá escolher entre o DNA do avô e o do companheiro de chapa que, abandonando a cidade, o fez alcaide.

Infelizmente, tudo indica que fará a segunda opção. Desde que assumiu, quinze meses depois empossado o governo, abriu mão de empregar uma agenda própria. Até aí alguém poderá dizer, com razão, que seguir o programa eleito é o correto. Vá lá. Mas ninguém pode ter compromisso com o erro, como o próprio cabeça de chapa dizia – e não cumpria. Exemplando: insistir no legado dos dois muros, o verde que secou na 23 e o de vidro que quebrou na Marginal, seria imprudente.

Mais: me parece que quem assume a partir de uma quebra de compromisso apalavrado publicamente fica desobrigado de seguir os passos de um notório vai-da-valsa atravessado. La Doria è mobile!

Ainda: a continuidade, notadamente dos programas estruturais, deve prevalecer sobre o poder de turno, e para tanto a cidade tem um Plano Diretor. Este é o ponto principal do meu palpite.

Igual João Doria, que rasgou o Plano Diretor (PD) e apontou a cidade para o sul, quando o combinado era seguir rumo leste, o líder do governo Bruno na Câmara enfiou despudoradamente duas palavras no PL 513/2019 que, rigorosamente, quebram uma cláusula do PD.

Ei-las: “Vias estruturais”. Desenhando: incluídas no texto, na surdina, porque a votação tratava de outro assunto, a malandragem permite que o terço de recursos do Fundurb carimbado para mobilidade a pé, transporte coletivo ou cicloviário, seja enterrado em asfalto. Coisa de R$ 400 milhões.

Problema 1: o pactuado no Plano Diretor, com todo caminho que ele percorre ao longo de dois anos de debates, incluindo a sociedade, especialistas, entidades e autoridades, é feito para durar quatorze anos ou três governos e meio, com possibilidades de revisões conjunturais em datas marcadas. A próxima seria no ano que vem.

Problema 2: quem pode confiar numa cidade que desrespeita a própria lei? Imagine a pessoa que comprou na planta um apartamento em um dos tantos prédios que sobem atualmente na Rebouças, Consolação, Nove de Julho, Santo Amaro, São Gabriel, Brigadeiro Luiz Antonio, República etc., todos fruto do exitoso PD? E os investidores que botaram bilhões neles? Óbvio que se sentem como patos que se sentaram à uma mesa de jogo onde o combinado seria melhorar as calçadas, corredores e ciclovias da região, nisto botaram suas fichas e, prestes a ver o resultado, deram de cara com um coringa contrabandeado pela banca, afirmando que naquela mesa vale tudo.

Problema 3: programaticamente é fragoroso e literal atraso. Numa breve mensagem de texto para alguém que estude e pense cidades, freguesa, você ficará sabendo que o problema da mobilidade urbana é muito asfalto, muita rua, ponte, avenida, túnel, viaduto, e não muito automóvel.

Problema 4: pragmaticamente é fragorosa burrice. João Doria fez a mesma coisa com a mesma soma de R$ 400 milhões visando dividendos eleitorais com o programa Asfalto Novo. Uma das ruas agraciadas foi a Prudente Correa, que liga a sede de suas empresas à sua chácara na rua Itália. Resultado: levou uma surra de Márcio França nas urnas da capital: 40% a 60%.

Acorda, Bruno! Ou antes: acorde o Mario que deve existir em você. E tire aquele Romero Britto que João deixou na prefeitura. Aquela cidade repleta de helicópteros e sem vivalma não é a São Paulo que queremos.

 
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Da Geringonça é o mar-sem-fim

Houvesse um prêmio Nobel para Política, na esteira do que vai para a Economia, categoria criada posteriormente às orginais, o papa Francisco seria forte candidato. Infelizmente não há. Mas os políticos acabam entrando na lista dos concorrentes à medalha da Paz, que este ano foi para o primeiro-ministro da Etiópia Abiy Ahmed Ali. Seus concorrentes com mandato mais destacados foram Jacinda Ardern e o próprio papa Chico, respectivamente chefes de governo da Nova Zelândia e de Estado do Vaticano. Entre os políticos sem mandato concorriam o cacique Raoni Metukitire e a ativista Greta Thunberg.

Porém considerando que um Nobel de Política seria parecido com o da Economia, por entrar na lista depois de estabelecidas as primeiras categorias, e que este último acaba de sair para um trio preocupado antes com a prática do que com a teoria, ou que chega à causa estudando o efeito, meus candidatos ao prêmio da Academia Sueca, ou do Comitê Norueguês,  seriam os membros da Geringonça portuguesa.

Que beleza conseguiram fazer por lá. Provam que, mais que possível, o entendimento é o único caminho.

A cronologia do poder em Portugal é de dar esperança a qualquer desesperado. Até 2016 o país sofria com a crise derivada de 2008, e acabou elegendo Marcelo Rebelo de Souza presidente ou chefe de Estado. Hoje sem partido mas tradicionalmente um conservador católico filiado à social democracia, o professor de Direito e comentarista de TV foi eleito em primeiro turno.

Ocorre que o chefe de governo era o socialista Antonio Costa, eleito primeiro-ministro em 2015. Como sociais democratas e socialistas por lá são adversários, deu-se o impasse sobre a formação do governo. E a resposta veio da inédita aliança entre socialistas, verdes e bloco de esquerda, logo apelidada de Geringonça.

A maravilha disso para mim está em notar o discernimento do povo português. Ao ver um governo formado em torno do campo progressista, elegeram para chefiar o Estado um exemplar conservador, criando equilíbrio e estabilidade.

Em 2019 voltam às urnas e aprovam o governo, aumentando a votação do partido Socialista de 32% em 2015 para 36% em 2019. Curiosamente, se invertidos, são os mesmo números alcançados pelo bloco Portugal à Frente em 2015, que reuniu PSD e CDS, alcançando naquele então 36% e, em 2019, se somados, teriam 32%.

O equilíbrio português é próprio dos grandes navegantes e merece ser festejado. Sem carta branca para ninguém, o diálogo é imperioso para o bom cruzeiro. Mar de almirante para a Geringonça. Dela é o mar-sem-fim.

 
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O que as autoridades não falam

É assustador o que os governantes atuais falam. Aqui e alhures. Gente louca sendo tratada com normalidade, encontrando eco em nichos igualmente loucos da sociedade.

Para ficar em alguns exemplos brasileiros, no final da semana passada os próceres do reacionarismo nacional se reuniram num evento onde várias autoridades palestraram. O chanceler do Brasil disse que “o fascismo é de esquerda”, que Voltaire, filósofo francês do século 18, queria “lacrar” quando contrapôs ideologia à verdade e desrespeitou a monarquia e a fé francesa, disse que a ONU não faz nada para diminuir a pobreza no mundo, que os iluministas são os ancestrais dos esquerdistas, chamou a preocupação com o caos climático de “climatismo”, emendando que a preocupação é usada para interferir na educação e na economia e ainda sugeriu que “tem mutreta”.

No mesmo encontro uma ministra achou por bem comentar que, há 24 horas reunida com jovens, ainda não vira cigarro de maconha ou uma mulher introduzindo crucifixo na vagina. Seu colega à frente da pasta da Educação, comparou o ex-presidente FHC à aids.

Longe do encontro mas igualmente celerados, o ministério da Economia pensa em incluir na reforma administrativa um dispositivo que impeça servidores públicos de terem filiação partidária e o ministro da Justiça acredita que amenizou sua portaria arbitrária que alterou a Lei de Migração e o presidente da República, perguntado sobre denúncias de tortura em presídio no Pará, respondeu que jornalistas “só perguntam besteira”. E ainda repete seu abjeto slogan de campanha “meu partido é o Brasil”.

Meu ponto é: se o que está acima é o que essas pessoas dizem em público sem qualquer pudor, o que dirão em privado?

A resposta é mais ou menos conhecida e está nos vazamentos das conversas entre os integrantes da Lava Jato pelo The Intercept, pelos áudios que o deputado Alexandre Frota passou a divulgar ou pela reportagem sobre as milícias virtuais bolsonaristas, do repórter Moura Brasil na revista Crusoé. O desprezo pela democracia é evidente em todos eles.

E o estarrecedor é ver gente tida como civilizada aceitando este cenário como se fosse normal ou minimamente aceitável sob o argumento de que doutro modo seria impossível atuar na esfera pública. Não é! Pelo amor de Deus: não é!

O nome disso é fascismo, sabemos como começa e tolo é quem supõe saber como acaba.

E quem pensa que está seguro numa sociedade assim, ou que não haverá reação oposta de igual ou maior intensidade – porque sociologia não é exatamente igual à física –, recomendo que vá a uma sala de cinema que estiver exibindo Bacurau, mas que invés de olhar para a tela, olhe para a plateia.

Bacurau é um filme para se ver de costas. O retrato fiel de Kleber Mendonça Filho sobre a violência nas periferias e sertões do Brasil, bem distante dos cinemas descolados dos centros urbanos, é recebida com aplausos e gargalhadas pelo público tido como civilizado, mas que torce a favor da barbárie para combater a barbárie.

Se na arte a história se passa no futuro, é um alerta para os centros urbanos que ainda não viram pessoalmente degolas e massacres. Mas na vida real dos sertões e periferias degolas e massacres são o presente. As crianças que vendem pano de prato no semáforo estão acostumadas a ver cadáveres crivados de bala no dia-a-dia. O sangue no cotidiano delas pode ou deve ser banal. Mas obviamente nenhuma delas acha graça nisto.

 
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Vai passar

Cresce nas redes sociais a adesão aos entusiastas de passar por cima do hábito de passar roupas. Meu palpite é que o movimento é inexorável. Batata: vai passar.

O apelo dos mais entusiasmados é sociológico: pedem para que a gente desencane de usar roupas passadas ou, antes, que nos acostumemos com as amassadas.

Seja por não ver lógica em gastar tanto tempo e energia passando roupa, notadamente as íntimas, ou as de cama e de baixo, tendo a aderir ao grupo, ainda que admitindo que sempre receberei com ternura o gesto de carinho de quem quiser passar os meus lençóis direto sobre a cama, quiçá caprichando com a dica do Dorival e perfumando com alecrim. Mas eu mesmo não estou disposto a fazer isto.

Acredito que a pá de cal sobre o ferro de passar virá pela tecnologia. Primeiro dos panos, ou malhas e tecidos, que cada vez mais prescindem dele. Nos Estados Unidos as malhas saem lisas e macias da secadora, o que é atribuído à química de um lenço descartável amaciante e perfumado.

A classe média no Brasil usa roupas americanas e poderia muito bem importar ou produzir por aqui o mesmo lenço. Mas talvez a mão de obra barata e o Complexo de Sinhazinha ainda prevaleçam sobre o desenvolvimento.

A classe alta, que tudo pode, adota linho, cashmere e seda, que também não precisam de ferro. Os últimos não amassam e o primeiro é tanto mais chique quanto mais amassado.

Me lembro do meu avô Coutinho contando da república em que morava quando estudante de medicina. Todos vestiam linho branco e a passadeira usava ferro a carvão. Uma fagulha poderia por tudo a perder, até a lavagem. Sempre que vem notícia de canonização penso nessa santa mulher.

Há no Brasil um pano bom que não amassa. Meu alfaiate insiste em recomenda-lo: Tropical, da Paramount. De fato não amassa e sequer precisa de ferro. A calça mantém inclusive o vinco depois de seca e pendurada. Eu é que raramente encontro aonde ir de terno.

E o Guga Chacra, que usa terno diariamente, gosta de dobrar roupas porque aproveita o momento para ouvir podcasts, especialmente o Papo de Política de sua comadre Julia Duailibi no quarteto com Maju, Natuza e Sadi.

Mas igual a todas as outras atividades humanas de repetição, o costume de passar roupas ou pagar para que alguém o faça vai acabar com a popularização dos robôs – que já existem. São capazes de ler cada peça, passar, dobrar e separar. Então não tem jeito: vai passar.

 
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Quanto tempo pode durar essa corrida?

Data vênia a beleza transmitida por todo monge, de qualquer religião ou ordem, e a importância que acredito haver em ter gente em retiro, meditando, a paz de espírito que eu mais admiro é a do chofer de praça da cidade grande.

Dia desses entrei num taxi. O chofer, um senhor simpático, ao longo da corrida me disse que contava 64 anos. Para as minhas referências, que admito serem atrapalhadas e não me permitirem dizer se uma criança está mais para oito ou cinco anos de idade, ele parecia mais velho, ao que atribuo às quase quatro décadas rodando na praça em São Paulo, ao contrário dos meus paroquianos que tiveram vida mais amena.

Era o dia em que o Supremo julgava a questão sobre o réu que fala por último num processo, notadamente se um delatado pode ser privado de alegações finais depois de citado por um delator. Creio que não, e este foi o entendimento da maioria. Mas aparentemente a sociedade não concorda e não gostou.

Não sei se por punitivismo ou sensação de impunidade histórica, fruto da transformação do direito fundamental à ampla defesa e ao contraditório em artigo de luxo, restrito a quem pode pagar por ela, o taxista estava realmente aborrecido.

Sua fala, porém, era serena, e ele conseguiu expressar o que sentia: “Se não tem Justiça para todos, que não tenha pra ninguém.” Olhei para ele como quem pergunta: tem certeza? Ao que ele admitiu que eram palavras revoltadas e que obviamente não podiam dar certo na realidade.

Se ainda parece difícil entender, o jeito é pensar como seria o mesmo critério aplicado à educação, saúde, segurança, habitação etc.

A conversa andou e a desesperança ficou ainda mais visível. Me contou que há três anos tenta em vão juntar dinheiro para viajar durante as festas, e não tinha conseguido de novo: “Já é outubro e não guardei um tostão.” Qual viagem ele planejava? Uns dias em Santos com sua senhora.

Quatorze horas por dia no trânsito de São Paulo, seis dias por semana, e não rola uma recompensa sequer de três dias em Santos. Eu já ia engasgado e ele ainda arrematou: “Meus parentes dizem que sou louco porque não pago o INSS há dois anos. R$ 200 por mês. E eu respondo: louco? E como é que alguém decide entre comer hoje e se aposentar daqui a sei lá quanto tempo?”

Resta saber quanto tempo pode durar essa corrida. E quanto vai custar.

 
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Admitamos: somos todos Greta

Ando impressionado com os ataques à Greta Thunberg. Dela dizem: mimada, raivosa, radical. Como se, aos dezesseis anos, todos seus críticos já fossem bem educados, amáveis e moderados.

Fato: não eram, não poderiam ser. Pior, ainda não são. Tome-se por exemplo as pessoas que formam o governo eleito no Brasil em 2018, especialmente popular entre os homens que já passaram há décadas dos dezesseis anos.

A BolsoFamília é o quê, senão mimada, raivosa, radical? E o Paulo Guedes “se não for do meu jeito, vou embora! (ia)”? E Sérgio Moro, que fez o que quis da Lei e atropelou instituições?

Mas não só eles. Dilma Rousseff, eleita e reeleita presidenta é o que, se não mimada, raivosa, radical?

Mimado, raivoso, radical também é Donald Trump, que preside a maior democracia do mundo. Ou não? E Boris Johnson é o que, meu Santo Colomba?

Se tais figuras representam e espelham a sociedade, somos todos Greta, e talvez só ela esteja certa ao passar um pito coletivo, mundial, dizendo que não estamos procedendo bem.

E vale um alô inclusive para seus críticos mais moderados. Demétrio Magnoli, por exemplo, um craque, respeitabilíssimo, que sabe pensar e comunicar, ponderou (sem trocadilho com o imponderado professor de Filosofia que também escreve para a Folha) que a vida boa de Greta só é possível graças ao crescimento econômico mundial, que no século 20 afastou uma multidão da miséria, da fome, da doença, ao mesmo tempo que moeu o meio ambiente.

Problema: ainda tem muita gente na miséria, passando fome e padecendo de males que um dia foram considerados erradicados. Quem diria que em 2019,  inclusive no primeiro mundo, haveria preocupação com gripe, sarampo, doença de Chagas, febre amarela etc.?

Problema dois: igual para o meio ambiente, as soluções para a saúde e o conforto da humanidade devem ser globais. Problema três: a solução Chinesa, estadunidense ou japonesa para trabalho e renda, ou produção e consumo desenfreados, se escalada para sete bilhões de pessoas, explodiria o planeta antes do carnaval.

Problema três: considerando a concentração de renda e a falta de perspectiva das classes médias, que trabalham a vida inteira da mão pra boca, sem segurança financeira para enfrentar a velhice, inclusive nos ricos Estado de bem-estar social europeu ou no salve-se quem puder americano, são hoje a principal causa de instabilidade política, que tem derivado na escolha de gente mimada, raivosa e radical que, esbravejando como Greta, toca os corações e estômagos dos desesperados mundo afora.

Enquanto isso o papa Francisco, melhor político em atividade no mundo, sensato, conciliador, moderado, é acusado de chefiar de uma instituição ultrapassada por uns e de ser socialista radical para outros.

Se não formos capazes de, como faz Francisco, sentar pra conversar e tentar combinar um mínimo denominador comum para continuar, seremos todos Greta. Admitamos: estamos longe da maioridade.

* Conteúdo atualizado para incluir o PM ilhéu Boris Johnson, que obviamente não poderia faltar na lista.

 
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Impeachment

Sinto calafrios só em ouvir falar a palavra impeachment. Tenho verdadeiro horror a tudo o que ela reúne. O clima, o processo, o desgaste, o risco demasiado alto para pagar por algo que poderia custar bem menos.

Atribuo meu asco primeiro à minha devoção ao Parlamentarismo, onde essas dores de troca de governo simplesmente inexistem. Depois à experiência incomum de, sendo brasileiro e apenas recém chegado à velhice, já ter visto dois presidentes impedidos.

Para piorar, sempre aparecem uns malucos que, igual a tudo na vida, creem ser possível se acostumar a uma violência política dessas proporções. Alguma bióloga poderia combinar com uma socióloga e pesquisar se há relação com o hábito brasileiro, forçado na maioria dos casos, de impor partos via cesariana em detrimento ao processo natural.

No último impeachment recusei a ideia até quando pude. Igual a tanta gente eu reconhecia que não havia condições de governabilidade para a Presidenta e argumentava que, fosse a matriarca de qualquer família, responsável por decisões que afetam tantos, alguém falando diariamente aquela coleção de groselhas, a parentada teria arranjado uma solução de transição em favor da preservação da harmonia e do patrimônio, certamente menos traumática do que a interdição judicial. Afinal, cedo ou tarde vem Natal e é desagradável carecer do mínimo de urbanidade em família para uma ceia.

Ela poderia ter renunciado num acordo geral, talvez até com o Parlamento, amarrando tudo com uma reforma Política. Não deu. Depois poderia ter a chapa cassada no TCU, mas empurraram com a barriga e, quando enfim chegou o dia, era tarde. Seu sucessor ora assumidamente golpista já vestira a faixa e a Nação foi condenada a ver uma absolvição que ficou conhecida pelo “excesso de provas”.

Desde então a sociedade não consegue mais conversar e o clima no Natal e demais festas se tornou insuportável. Estudando as tragédias gregas na escola fui descobrir que várias das condenações que alguns, como Édipo, pagaram em vida, e enquanto resistiram ao destino espalharam tristeza e destruição, têm na raiz um golpe de Estado ancestral, do qual a fuga é impossível. A tristeza e a destruição da cidade só aumentam enquanto o condenado não se acerta com a história.

Sei que alguém pode estar pensando que falo do nosso presidente Bolsonaro, ou do ministro Moro e ainda do ex-posto-Ipiranga PaGue. Principalmente os três, caso viessem a ler esta mensagem à deriva no oceano virtual. Mas sou a favor que o governo cumpra seu turno por todos os motivos já expostos. E não quero falar de chihuahuas Hoje estou para pitbull e em boa companhia.

Prêmio Nobel de economia e colunista do NYT, Paul Krugman escreceu sobre impeachment hoje. Título: vem aí a queda de Trump. A Folha reproduziu. Arrepiei. Sei que há o processo deflagrado pelo telefonema ao presidente ucraniano e que está acelerado, sei também que ele deve perder na Câmara mas tem chance de sobreviver no Senado, e meu palpite é que se segura até a eleição, para a qual, pasmo, reconheço a chance de vitória.

Mas então vou ler o Krugman e noto que não há no artigo um escasso pingo sobre o telefonema. Zero. O argumento é todo em torno da economia americana que, em que pesem narrativas e até dados favoráveis, se encontra com um quinto dos setores em recessão – justamente os setores diretamente afetados pelas escolhas e bravatas de Donald Trump.

Arrepio maior ainda. Se um pitbull que mora na casinha branca mais temida do mundo late e o mundo reage assim, imagina o que pode acontecer com os chihuahuas que grasnam ou relincham no Palácio do Planalto.

 
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A inteligência artificial é assunto das ciências humanas

Quando resolvi voltar à escola ou, antes, ir à escola, posto que fugira na adolescência, o curso que me interessou foi Direito. Gosto do tema, da prosa dos amigos militantes, especialmente dos criminalistas e falencistas. Então, sem medo de ser infeliz, compareci ao vestibular sem me preparar e, para surpresa geral, motivo de incredulidade de alguns amigos até hoje, passei na primeira lista do Mackenzie.

Porém, como o final do ensino médio e mesmo o básico ainda pendentes, não pude fazer a matrícula. E conversando com minha Neguinha, que organizou as inscrições e me incentivava, descobri que ela, que é advogada não militante, tendo se dedicado por muitos anos à certificação e conformidade empresarial, a hoje chamada compliance, estudara por quatro anos o código civil e, no ano de conclusão do curso, mudou o código civil. Pensei duas vezes e resolvi procurar um curso com mais estabilidade. Acabei escolhendo Filosofia, que conta uns dois mil e quinhentos anos de escritos em pleno vigor.

As passagens acima surgiram nos meus algoríntimos hoje pela manhã durante o debate Desafios e Oportunidades da Inteligência Artificial para o Direito e a Justiça na Fundação FHC.

A Mesa de craques incluía o ministro do STJ Paulo de Tarso Sanseverino, o juiz federal de Maryland – EUA Peter Messite, o professor de Direito Constitucional e Direitos Humanos da FGV e colunista da Folha Oscar Vilhena Vieira, o advogado e professor da Columbia SIPA e pesquisador do MIT especializado em tecnologia Ronaldo Lemos, com mediação do ex-juiz do TRE-SP e professor da São Francisco – USP Flavio Yarshell. Ufa.

O vídeo do debate deve estar no ar pelos canais da FFHC dentro de alguns dias e vale a pena ser visto, principalmente por conter mais perguntas do que respostas.

Meu comentário aqui ficará restrito à fala do professor Oscar Vilhena Vieira, que num gesto de grandeza fez a autocrítica da classe: pelo bom trânsito nos bastidores do poder, os militantes da advocacia conseguiram criar barreiras que retardaram os avanços das novas tecnologias sobre o setor. Mas agora não tem mais jeito, as barreiras estão desmoronando e a inteligência artificial no meio jurídico é uma realidade.

Mas o próprio professor Vieira admite que desde a academia há uma tentativa resistência. Como é próprio dos advogados, ficou claro que eles entrarão no debate sem qualquer cerimônia. Debaterão Ética como se fossem filósofos, criação e aplicação de leis como se fossem políticos ou juízes, efeitos sobre a sociedade e o emprego como se fossem sociólogos.

Obviamente tem um lado bom em tal disposição. Ninguém sensato prescindiria de ouvir o professor Oscar Vilhena Vieira e outros tantos acadêmicos ou militantes do Direito experimentados e perspicazes.

Porém devo discordar dele sobre o futuro das escolas de Direito. O próprio professor Oscar diz que, até pelo custo do curso, Direito e Administração são duas das faculdades mais procuradas, em que pese, no caso do Direito, só 14% dos bacharéis acabarem atuando profissionalmente na área, concluindo que as escolas terão que se adaptar. E enfim é chegada a hora de eu admitir que estou puxando a brasa para a minha sardinha.

Ora, se é pela formação em si ou mesmo pelo custo do curso, estudar Filosofia é mais amplo, profundo, perene e barato que Direito. E tudo indica que hoje dá mais futuro profissional. Esparramar esta noção óbvia pela sociedade é fundamental.

O Ranking Universitário da Folha publicou hoje a brusca queda do índice de procura por cursos de humanas. A demanda por cursos de Filosofia e Ciências Sociais despencou. Fatores diversos e especialmente preconceito envolvidos.

Por outro lado as gigantes de tecnologia, de biotecnologia, governos, setor financeiro e todo trabalho que envolve dados e análise procuram cada vez mais profissionais formados em humanas para pensar e esquematizar como será o amanhã – que talvez já seja hoje. Mas não é só.

Ainda do professor Oscar, juro que para encerrar: recentemente ele esteve com Francis Fukuyama, que por engano se adiantara em uma hora para uma conferência, e ambos aproveitaram para se alongar num café, no qual o filósofo e economista chicaguense admitiu, preocupado: “Hoje, sem estar afinado com análise de dados em grande volume, fico com receio de não saber mais fazer o que sempre fiz.” Fato: é um mundo novo. Todos teremos que nos adaptar.

 
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