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O dilema social ou o Renascimento 5.0

Filme mais comentado do momento, O dilema das redes, documentário em cartaz no Netflix, reúne depoimentos de diversos ex-executivos das grandes empresas que trabalham as chamadas redes sociais.

No original, em inglês, o título é melhor: The Social Dilemma, ou O Dilema Social, porque é antes da sociedade do que da tecnologia das redes que a obra trata.

Do ponto de vista da tecnologia não tem qualquer novidade para quem presta atenção nos problemas do mundo, a não ser a reunião autocrítica de diversas vozes responsáveis pela programação dos algoritmos que teceram as redes.

Tampouco há novidade do ponto de vista do modelo de negócios. Outras indústrias fizeram coisas semelhantes com a humanidade. Automóveis, energia, cigarros, finanças, cinema, música, moda, sexo, cosmética, alimentos, religião, autoajuda, turismo etc. A lista é infindável. Insisto: noves fora a velocidade e a potência das redes, nada de novo. Programadores dizendo que não deixam suas crianças acessarem as redes repetem as falas dos lobistas do tabaco.

A grande novidade, que é a grande oportunidade, é a deflagração do debate ético sobre o que foi feito. É nele que devemos nos concentrar. E não importa quão ricas e poderosas essas empresas são. Se orgânica e psicologicamente nos tornamos dependentes delas, empresarialmente elas é que dependem da gente. E sim, enquanto sociedade devemos e podemos interferir, diretamente e cobrando os governos, posto que somos parte do problema e trabalhamos todos para elas.

Trabalhamos não só gerando conteúdo. Na última década, a cada vez que respondemos a um Captcha para provar que não somos robôs, ensinamos um robô a ler e escrever, inclusive em garranchos, e este, já alfabetizado, hoje vale bilhões de dinheiros. Agora estamos ensinando a andar, reconhecendo para semáforos, pontes, escadas, faixas de pedestres. Os veículos autônomos dependem do nosso trabalho.

Também estamos ensinando a conversa. Cada vez que usamos a Siri ou a Alexa, o robô aprende palavras e sentenças novas.

Quer dizer, as empresas tratam da tecnologia, mas são os usuários que entram com o capital humano. Somos sócios, portanto. E tal condição não significa só poder. Significa responsabilidade, dever.

Sem preocupação em dar spoiler, a conclusão do filme é pela urgência do reestabelecimento do conceito de verdade. Falo por mim: só rompi relações pessoais com quem nega a verdade. Gosto da divergência e da crítica. Não saberia viver sem elas. E aguentei bem as lendas sobre manga com leite, verruga no dedo de quem aponta para a lua, e até a desconfiança sobre o homem por lá ter pisado.

Mas não suporto quem nega dados de satélites sobre queimadas, diz que vacina é feita para espalhar doença, afirma que fulano não disse o que disse. Nem dos terraplanistas consigo mais rir.

Palpites para concluir: posto que nos tornamos orgânica e psicologicamente dependentes das redes sociais, psicólogos e psiquiatras precisam se coçar para ver os tratamentos possíveis.

Se o modelo de negócio depende do caos, este precisa ser revisto. E não só ele, mas todos. Destaque para um ponto levantado por um dos depoentes: como podem baleias e árvores valerem mais mortas do que vivas? Financistas, se cocem.

E, como o debate urgente é sobre ética, potência e velocidade, e o problema maior é reestabelecer a verdade, o desenrolar da fita é tarefa para a turma da filosofia. A proposta é um Renascimento 5.0, 6G, ou como queiram chamar. Mas é urgente.

 

 

 

 

 

 

 
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Se segura, freguesia

Numa coluna recente o Antônio Prata meteu: não sou burro, sou inteligente, mas sou trouxa. Já o elogiei e peço licença para me filiar ao partido dos trouxas inteligentes, até porque é urgente fazer oposição aos burros espertos.

Uma vez filiado, e sendo democrático o partido, meto eu meu palpite: como ninguém é esperto o tempo todo, cabe a nós, trouxas, a inteligência de esperar o momento adequado para ação.

Não quero nominar, até porque no momento é inútil, mas tem um burro esperto aí com popularidade alta. E como burro não sou, já entendi que é inútil ficar atazanando seus seguidores com ideias arrazoadas.

É triste e sufocante ter que esperar enquanto as pessoas morrem, as matas, os bichos e o filme queimam. É desesperador. Mas sinto que o inverso é igual tentar apagar fogo alto soprando. Isso poderíamos ter feito quando era uma vela. Agora resta tentar ajudar quem está em perigo, espancar a situação com humor – obrigado, Adnet, obrigado, Molière – e esperar que a esperteza consuma o burro mor.

Se eu estiver errado, que pague por tanto. Mas junto com a vacina contra o coronavírus, não há nada que eu queira mais e, não podendo ajudar com uma, penso muito na outra. E acredito que há uma semelhança fundamental entre ambas: assim como a vacina que mata o vírus é feita de vírus atenuados, o que pode matar o projeto do burro esperto mor são os burros espertos mores atenuados.

Muitos deles já passaram para a fase de testes: Gustavo Bebianno (descanse em paz), Paulo Marinho, Alexandre Frota, João Doria, Gal. Santos Cruz, Gal. Santa Rosa, Major Olímpio, Sérgio Moro, Joice Hasselmann, MBL, Henrique Mandetta, Nelson Teich, Wilson Witzel, alguns blogueiros, outras celebridades, umas tias do zap, de quando em vez Olavo de Carvalho, de vez em quando Paulo Guedes.

Com a ditadura militar foi assim. O frisson inicial e mentiroso contra o Jango logo custou caro. Boni contou ontem no Roda Viva como era duro trabalhar sob censura. O Estadão foi duramente perseguido. Carlos Lacerda, exilado. Senhoras católicas viram seus filhos presos, arrebentados e dados como desaparecidos. Mas no final das contas quem acabou com a ditadura foi a própria ditadura, por fim falida e humilhada.

Gostaria de vir publicar mais o que tenho visto, mas estou cansado, preciso mesmo de um respiro. Gostaria de falar da curiosidade que é ver pelas ruas as pessoas que andam isoladas usarem máscaras, e as que saem acompanhadas ou se aglomeram, não.

Falaria da solidariedade em reconhecer em estranhos amigos de esforço de isolamento social, bufando sob a máscara, com a ponta do tênis ou as roupas manchadas por gotas impertinentes de cândida, ou de poder agradecer o esforço de quem está na linha de frente e continua, bem e saudável, sobrevivendo à pandemia. Olha, vale por um abraço.

Mas preciso mesmo desse respiro. Vou passar este restinho de ano estudando com a ajuda de gente muito querida e trabalhando conforme minhas possibilidades, mais focado no que paga boleto diretamente.

Fica bem, freguesia.

 
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Vaidade e silêncio

Em 2012 fui ao iFHC ver uma mesa sobre as novas classes médias na Índia e na África do Sul. Ouvindo o Pratap Bhanu Metha, intelectual indiano e então presidente do Centro de Estudos Políticos de Nova Deli, tive um estalo: mil milionários valem mais do que um bilionário.

Mas foi só em 2013, quando enfim o BNDES avisou que encerraria a política de criação de campeões nacionais, que anotei a sentença como está acima. Nem precisava ter dado em tanta corrupção e prejuízo. Fazer mil milionários será melhor do que um bilionário em qualquer circunstância. Achei os textos, mas não trago os links porque incluem passagens erradas ou já fora de contexto, e hoje só quero me exibir.

O motivo do domingo empavonado é duplo, está no Estadão e na Folha, respectivamente na boca e na pena de dois intelectuais destacados.

Primeiro o que abre esta crônica: Scott Galloway, professor colocado entre os cinquenta melhores das escolas de negócios do mundo pela Poets & Quant e eleito pelo Fórum Econômico Mundial como um dos Líderes Globais do Amanhã, é o entrevistado de hoje do Luciano Huck, no Estadão. E já no subtítulo da entrevista estão as aspas que o editor entendeu merecedoras de destaque: “mais milionários e menos bilionários.”

Na Folha, o antropólogo Hermano Viana escreveu contando como foi testar o GPT-3, programa de inteligência artificial (IA) capaz de criar textos. Não sei se GPT tem a ver com Gepeto, mas suspeito que sim. E o robô, mentiroso bom como todo romancista, mesmo alfabetizado em inglês foi capaz de brincar com uma frase de Guimarães Rosa. Pois é. Aceita que dói menos.

Logo em seguida, Hermano anota o óbvio: com IA os empregos vão sumir e a renda universal será necessária. Isto eu falo desde 2017, quando me toquei que com as novas tecnologias viveremos mais e trabalharemos menos; que o modelo chinês ou americano de produção e consumo, escalado de 1,5 bi de pessoas para 7 bi, explodiria o mundo antes do Natal; que a concentração de renda tende a colapsar o capitalismo.

Então me desculpe esta freguesia, mas acredito que tenho motivos para estar exibido. E é o que farei. Satisfação tem sido artigo raro e, se apareceu, vou dedicar o domingo ao onanismo intelectual.

Porém não sem antes explicar o por que da minha ausência nesta página. Um dos motivos vem disso, de me sentir repetitivo, e como não sou o Nelson, Flor de Obsessão, nem Franco Montoro, que “repetia, repetia e ainda deixava uma anotação”, cansei.

Some-se a distância das calçadas e dos bares que são meu combustível; a marmota no noticiário político, dando exatamente conforme o previsto, e cuja exaltação só faz entristecer os inteligentes e irar os cretinos; a miséria que é ver nossos problemas crônicos tornados agudos pela crise sanitária e econômica.

Tudo isso eu junto e multiplico pela preguiça de debater o que está no ar. Tas versus Adnet no Roda Viva, por exemplo. O primeiro fez uma pergunta impensada e o segundo devolveu resposta imprecisa: nem direita versus esquerda é um conceito, nem o comunismo chegou a ser praticado depois de formulado (quem chegou mais perto foi a Europa mediterrânea em suas comunas).

Direita versus esquerda é só um dado histórico. Estivesse eu naquele salão em 1789, provavelmente estaria do lado direito, ao lado dos girondinos, porque sempre desconfio das consequências das guilhotinas, preferidas dos jacobinos. Mas vale notar que meu lugar de fala é de homem branco, classe-média-pão-de-ló do século 20, que sabe como a história se desenrolou e que havia tempo para uma transição pacífica. Estivesse com fome, frio e sem horizonte naquele então, sei lá.

Hoje, diante do eminente colapso climático, da abjeta precarização do trabalho, da insustentável desigualdade financeira, da intolerável estrutura social racista, machista, homofóbica, demofóbica, me sinto do lado esquerdo do salão, porque é urgente fazer a transição.

Por fim, sinto que quem tem que falar agora não sou eu. É ridículo que todos os citados até aqui sejam meus pares, homens, brancos da classe-média do século 20. Agora é a vez das mulheres, dos pretos, dos indígenas, dos homossexuais e todos os excluídos do processo político histórico.

Quem tem que falar é Djamila Ribeiro, Rosana Pinheiro-Machado, Alexandra Ocasio-Cortez, Svetlana Tikhanovskaya, Sônia Guajajara, Jacinda Ardern, Monica de Bolle, Laura Carvalho, Tati Roque, Mariana Mazzucato, Emicida, Aldino Vilão, Greta Thunberg, George Floyd in memorian. E o Silvio Almeida. O filósofo Silvio Almeida tem que falar todo dia em todo lugar.

Imagine esta freguesia que a inteligência artificial que construímos reconhece pessoas pretas como gorilas, por ter sido acostumada com pessoas brancas. Está no artigo do Hermano Viana. É absurdo. É a consagração do racismo estrutural tão bem explicado pelo Silvio Almeida. Não podemos dar mais nenhum passo assim.

Concluo que cabe a mim ficar quieto, calado, só observando e sempre às ordens. De onde? De uma calçada de bar. Quem paga a despesa? A renda universal. Quem paga o espírito? A vaidade de ver dar certo. Tenho certeza que no fim das contas será melhor para todos.

 

 

 
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Você nunca, Moninha

Um dos próceres da geração dela disse que os bons morrem cedo. Verdade absoluta. E não tem a ver com idade, que é dado banal. Tem a ver com ser bom, que é o que importa. Sempre que alguém bom se vai é cedo para quem fica.

A máxima é do Renato Russo. Ou talvez Cazuza. Tanto faz. Ambos combinam com a Moninha, poeta de mão cheia, coração transbordante e apaixonada pela vida.

Monica Montoro nos deixou. De memória, me arrisco a reproduzir um verso dela: “Se insistes e provas, que nunca te amei / Então rasga as provas, que um dia te dei.” Pelo que me consta, ninguém rasgou. E note: foi um monte de gente.

Moninha amou completamente. A tudo, a todos, a si mesma – e como. Usou e abusou. Dela, de tudo, da vida. E teve reciprocidade. Em tudo.

Viveu a dor e a delícia de ser a caçula temporona de um casal público gigantesco, sua querida mãe Lucy e André Franco Montoro. A dor e a delícia da sombra que refresca e limita. A dor e a delícia das portas abertas e da exposição da vida privada. A dor e a delícia de ser fruto de um casal preocupado com o coletivo tanto quanto com o particular.

Era querida e requisitada em todos os lugares. Botecos de machos do século vinte, galerias clássicas e contemporâneas, cabarés progressistas de qualquer tempo, saraus dos mais refinados. Telefonava de madrugada para perguntar por quem os sinos dobram e, logo em seguida, de olho no fuso horário do Vaticano, chamava Dom Geraldo (que enviou uma mensagem linda pela Páscoa da Moninha desde Roma) para uma prosa e em seguida dormir em paz.

Trabalhou na era dourada da DPZ. Foi das primeiras integrantes da redação estrelada que criou o Jornal da Tarde. Se divertiu até trabalhando. E levava a turma da firma, a turma toda, para onde podia. Ou até mais do que podia.

Fui criado como seu sobrinho. Depois desconfiamos que éramos irmãos. Pela regra, fomos primos. Mas de vez em quando ela reclamava maternidade, porque nascemos no mesmo 17 de junho. Eterno quiproquó geminiano.

Dizia que eu era o pior tipo de cafajeste, porque amável e atencioso. Galinha genuíno, que cisca e choca. Gêmeos de novo. Espelho.

Pode parecer que tudo isso é mais sobre mim do que sobre ela. E pode ser. Aliás, deve. Ela dizia que os romances são sempre sobre quem escreve.

Todo seu trabalho artístico foi dedicado ao Brasil. Fez muito. Cantou o Vale do Ribeira como se criada por lá. Cantou a beleza do Varal, que é nosso quintal. As araucárias da Mantiqueira. A Política Poética de Franco Montoro, filme lindo que ela produziu e narrou sobre o pai, fala dele, é claro, mas é sobre o Brasil possível que ela viveu.

Pelo que acreditamos, Moninha partiu simultânea à live do Caetano. A dor e a delícia acima entraram também por causa dele. Pela internet, tenho certeza, ela não viu. Talvez já do céu ou da fila de embarque. Ela adorava comparar a vida pública do pai com a arte do Caetano: para muitos incompreensível pela vanguarda. De novo, era também sobre ela.

Mas dos tantos poetas seus colegas, o que nos une é o Chico. Por Maninha, moda de festas juninas que ela adorava e casavam com nosso aniversário. Ela cantava Luar do Sertão, e eu devolvia: Se lembra do futuro, que a gente combinou / Eu era tão criança e ainda sou / Querendo acreditar, que o dia vai raiar / Só porque uma cantiga anunciou / Mas não me deixe assim tão sozinho a me torturar / Que um dia ele vai embora, Moninha, pra nunca mais voltar.

Ele vai embora, Moninha. Ah, vai. Você, nunca.

(Ah, fez um pôr do sol lindo enquanto choviam pétalas de rosas em sua homenagem. Rico, seu irmão que contrariou a família escolhendo o Corinthians, time que você escolheu em solidariedade a ele, puxou aplausos. A vizinhança estava em festa e soltava um foguetório firme, como nas festas juninas. E o final não importa, vale o jogo, Moninha artilheira.)

 
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Sem assunto, com afeto

Desde sempre ouço dizer que o homem inventou a roda, e a sentença soa mal aos meus ouvidos. Primeiro porque não pode ter inventado algo que está na natureza, nas plantas, nas frutas, na lua, no sol. No máximo, descobrimos ou adaptamos.

Depois porque provavelmente foi a mulher. Sei que homem, no caso, é no sentido de humanidade, mas aposto que a pessoa que notou a roda tem mais chance de ter sido mulher, que ficava na colheita, em convivência direta com as plantas.

O homem deve ter inventado a reta, que na natureza só existe no horizonte, inalcançável. Flechas e lanças para caçar. E dominar. Se impor à natureza. Tão masculino tudo isso.

Sim, é falta de assunto. Cansaço. Prestes a 140 dias de quarentena, o dobro dos mais ou menos setenta em que vivemos conforme o que nos acostumamos no começo do ano.

Também é tristeza por duvidar que vamos tirar algo de bom de todo esse sofrimento. Tantas vidas perdidas e os movimentos que vemos seguem pesando mais para o lado egoísta, entre os indivíduos e os governos e estados.

Pelo menos os dois maiores, China e Estados Unidos, seguem desprezando o óbvio, que seus modelos de produção e consumo são insustentáveis. Que sem entendimento internacional não haverá futuro.

A ressalva é a renda básica universal ter entrado na agenda do mundo todo. Se vigora, saberemos com o tempo. Está claro que não há alternativa. Há resistência, ideológica e cultural, ainda relacionamos renda a trabalho, mas não há outra opção – a não ser o deixar morrer.

Os empregos que sobreviverão às novas tecnologias serão precarizados. Salvo um ou outro, como enfermagem, só haverá trabalho enquanto a mão de obra humana valer menos do que um robô.

A esperança que me resta é poder estar de novo com as pessoas queridas jogando conversa fora em mesa de bar. E estudar, aprender por prazer. Ficar na minha e deixar o debate público para as mulheres, os negros, os indígenas, os gays, excluídos do processo histórico. Velhinho branco da classe média, impregnado de século vinte – meu caso – tem mais é que ficar quieto.

Por isso vou escrever menos, falar menos, evitar magoar as pessoas, trocar carinho com quem amo. Tentar ganhar algum para viver bem, mas com menos do que acreditei ser necessário até aqui. Acho que assim meu papel está de bom tamanho. Até.

 
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A ralé saiu do armário

Todo santo dia, todo dia santo, chega um vídeo de um representante da ralé ensandecida. Pode ser vigia de supermercado, segurança de metrô, passageiro de ônibus, policial que pisa em pescoço, engenheiro que virou uber, desembargador, dançarina do Faustão, presidente da República. Aqui e alhures. A praga é mundial.

Antes que me acusem de elitismo, ralé é um conceito da filósofa política Hannah Arendt para definir todos os complexados que se sentem injustiçados pela falta do reconhecimento que julgam merecer. Como não conseguem no trato social pactuado, pregam quebrar o pau, romper com “tudo que está aí”.

Quer dizer, para a ralé não basta poder opinar, dialogar, participar da vida pública como todos os demais. A ralé quer prevalecer, anular o contraditório, calar o adversário. E para tanto vale qualquer tipo de força ou trapaça. Vale mentir, abusar de pode econômico, agredir fisicamente. Vale negar que ao meio-dia está de dia no Brasil “argumentando” que no Japão é meia-noite, e quem se espanta é acusado de ser radical e não aceitar a opinião alheia.

O curioso desse vale-tudo que rompe com o contrato social é que ele não escala em linha reta, mas gira em círculo. Historicamente é assim. Fora dos parâmetros que combinamos evoluindo ao longo dos anos, tudo pode ser, até que os últimos marginais se juntam para cortar a cabeça dos protagonistas que chegaram aos palcos pelo vale-tudo e, sem base, não convencem, não merecem, não representam.

Não é nada de novo nem é só brasileiro. Para citar três escolhidos recentemente, Doria é ralé, Bolsonaro é ralé, Trump é ralé. E é bastante antigo, especialmente em sociedades frágeis e mal estruturadas como a brasileira, que o “sabe com quem está falando?” prevaleça sobre o “quem você pensa que é?”, como definiu há quarenta anos o antropólogo Roberto da Matta.

Quando o círculo se fecha é a selva, a barbárie. E o instinto de sobrevivência leva mesmo os que estavam dispostos e convencidos de que é melhor seguir dentro dos parâmetros a abandona-los e topar o vale-tudo.

O trágico é que a roda parece começar a se formar quando a sociedade melhora. Quando a busca pela igualdade perante às leis e às oportunidades avança. E a ralé não suporta a igualdade. A ralé até consegue conviver com o sentimento de mediocridade e insignificância quando acredita haver pessoas inferiores. Se é nítido que a vida poderia ser pior, que há quem sofra mais, a ralé se segura. Caso contrário, se sente a “ameaça” do fortalecimento dos direitos universais, a ralé estoura, sai do armário.

No Roda Viva com o filósofo Silvio Almeida há um trecho em que ele explica bem a ideia. Recomendo. Lá nos Estados Unidos, onde ele vive e leciona, também há um estudo econômico que mostra como funciona. O cidadão que ganha cinquenta mil por ano e pertence a um grupo que ganha em média quarenta mil, se dá por satisfeito. Já o que ganha oitenta mil, mas vive entre quem ganha em média cem mil, tende à frustração.

Na prática o caso pode parecer complicado e arriscado. Mas conceitualmente é inequívoco: a sociedade não pode temer a histeria e se curvar a ela, deixando de avançar e muito menos retrocedendo. O risco da omissão conveniente não pode ser desprezado. É como naquela trova que mostra como começam perseguindo “diferentes”, pobres, pretos, indígenas, imigrantes, gays, mulheres, judeus, muçulmanos, até que acabamos todos engolidos ou sufocados.

O antídoto é dar consequência imediata a qualquer berro dos histéricos. É básico. Cortar o mal pela raiz. Consequência ou morte.

Respirem fundo. E avante. A ralé não vai passar.

 
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Vania agora é luz eterna

Era tão sensível, divertida, carinhosa. A sensibilidade, conheci antes dela própria, pela sua fotografia. O lado divertido e carinhoso veio depois, convivendo numa amizade quase sempre em torno do Copan, onde ela morava.

Uma xícara no café Floresta, umas e outras no Dona Onça, parando para ver sua exposição no Museu da Diversidade dentro da estação República.

Vânia Toledo era como uma Rainha Mãe da República, de cetro e tudo, animando a corte com Julinho, Janaína, Walério, Eloína, Marcinha.

Um dia me telefonou e disse que tinha um olho mágico. Eu ensaiava candidatura a vereador ou deputado, não me lembro, e ela cravou: se eu fizer sua foto do santinho, você estará eleito, nunca falhei. Demos boas risadas e quem acabou falhando fui eu, que não fui fazer a foto. Talvez tenha me livrado, mas é uma pena não ter um retrato feito pela Vania.

Vania nos deixou hoje. Ela, que viveu de luz, agora é luz eterna. A vida é breve, a arte é longa, como disse o Horácio Flávio e o Tom Jobim cantou em Querida.

Vania querida, descanse em paz. Vou passar o resto do dia ouvindo o Tom em sua homenagem e navegando pelas suas obras e lembranças dos tantos amigos.

 
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Marco do saneamento: se der certo, deu errado

Não é o saneamento que tem que chegar a todos, mas o inverso: todos é que tem que chegar ao saneamento. Temos infraestrutura concentrada nas cidades, que seguem espraiadas por fatores diversos como pressão do mercado e não aplicação do uso social dos imóveis, demofobia.

Há cem milhões de brasileiros sem esgoto, dos quais 35 milhões sem acesso sequer à água encanada, ao mesmo tempo que há esgoto e água encanada nas cidades já conectados a incontáveis imóveis desocupados, fenecendo sem uso. E, além deles, outras infraestruturas, como gás encanado, energia elétrica, transporte coletivo, lazer, equipamentos públicos, serviço, comércio, o que resta em emprego etc.

Na cabeça delirante de PaGue, o superministro da Faria Lima, haverá R$ 700 bi em investimentos no setor de saneamento nos próximos anos. Por que ele abandonou seu número predileto, o trilhão, não se sabe. Fato é que escolheu a casa do sete, tradicional conta de mentiroso.

A turma que entende e estuda o assunto se reuniu no seminário “Rio sem Sub-Habitação em 2040”, e propôs que, com US$ 12,5 bi, em vinte anos, é possível resolver o problema na Cidade Maravilhosa, que concentra dezenas de favelas.

Mesmo descontando o delírio do Paulo Guedes, já bastante claro desde a eleição, quando ficou mais conhecido, reverberando seu plano de vingança acadêmica, e também a possibilidade de imprecisão dos especialistas em urbanismo, parece óbvio qual proposta merece ser mais discutida e aprofundada.

O marco do saneamento é positivo, reuniu gente boa, teve cooperação entre Legislativo, Executivo e técnicos que entendem do riscado. Pode ajudar no que houver em demanda. Mas se der certo conforme imaginado pelos que o anunciam, enterrando centena de bilhões numa rede espraiada que só resolverá um dos problemas, na verdade vai dar errado.

Parece uma sina brasileira: estamos condenados a dar errado até quando dá certo.

 
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No Brasil, tudo invertido

Meu palpite é que o Brasil se olhou no espelho e, diante do reflexo invertido, gostou e resolveu manter. Nada mais requer lógica ou sentido. Viramos o valhacouto do vale-tudo.
Se não, como é possível tanto zumbi aparecendo? Onde estavam essas pessoas? Entre nós, é claro. Mas disfarçavam. Viviam caladas cuidando das lojinhas e gozando os privilégios históricos.
Agora que elegeram para a Presidência um igual, representante dos seus anseios mais profundos, estão satisfeitas, parte declarada e despudoradamente histérica, parte enrustida, mas contemplada. No conjunto, são os 50% de brasileiros que consideram ótimo, bom ou regular o governo Bolsonaro.
De onde desenterraram um sujeito que defende castigo físico para educação infantil? Desenterraram e botaram no ministério da Educação, depois de tanto tempo sem sequer alguém respondendo pela pasta, depois de ano e meio sem nenhum programa concreto, noves fora a ideologia maluca da destruição.
Na Saúde, ainda pior. Passando mal, muito mal, pior exemplo mundial de combate à pandemia, não temos ministro e os quadros técnicos foram substituídos por milicos que, para dizer o mínimo, são irresponsáveis em aceitar uma função para a qual não têm competência.
Para ficar em três, o superministro da Justiça e da Segurança, ex cabo eleitoral do presidente eleito, saiu atirando. Assim como as forças policiais se mostram cada vez mais violentas, com pelo menos um vídeo diário de um preto pobre sendo agredido.
Parei em três para não cansar esta freguesia. Já chega o meu cansaço. Mas também porque Saúde, Educação e Segurança costumavam ser as maiores preocupações nacionais, segundo todas as pesquisas. Se não deixaram de ser, o que pode ter acontecido?
Insisto, está tudo invertido. Ou sempre esteve, só faltava a gente se olhar no espelho para confirmar.
Como pode tal estado de coisas? Mais três exemplos: uso de máscara para proteção coletiva é obrigatório na rua, mas o presidente da República veta a obrigatoriedade em lugar fechado. O governador de São Paulo, epicentro da covid, libera abertura de bares e restaurantes proibindo mesas nas calçadas e liberando no salão interno; libera academia de ginástica mas não tem recomendação para andar isolado ao ar livre. O terceiro vem a reboque: bares devem atender com até 40% da capacidade ocupação, mas o transporte público segue lotado, e com a classe média incentivada ao uso de automóvel, seja em descolamento vulgar, drive-ins e até no interior de um shopping em Botucatu. Está ou não tudo invertido?
É exatamente o inverso do que o mundo vem fazendo. Em Nova York a aposta dos bares é em mesas nas calçadas e na “zona azul”, como nos parklets que recentemente apareceram em São Paulo. A prefeita de Paris, também de olho na reeleição, aposta em ciclovias e aproveitar o embalo da baixa nos índices de poluição derivados do isolamento. Taiwan, com sete mortos em 24 milhões de habitantes, controlou a contaminação com a triagem de turistas; no Brasil, a Anvisa e o ministério da Saúde foram à Justiça para anular medidas dos estados que adotaram ações no mesmo sentido.
Não entendo mais nada. A única certeza é que não temos governo em qualquer esfera. Estamos perdidos. Você que se vire, cidadão brasileiro.
 
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Adeus, Armandinho

Entendedores, entenderão: ele comprou uma caixa de Noilly Prat. Uma caixa! Pergunto: mas o que você fez com doze litros? Ué, bebi no verão, primo.

Para quem não é do jogo, explico: o vermute branco francês que se tornou sinônimo de marca, ficou famoso por conta do Dry Martini. Alguns exagerados, conhecidos pelo consumo também exagerado do coquetel, chegavam a dizer que bastava a sombra da garrafa do vermute para temperar o gin que chegava à taça. Bartenders chefes de bares de hotéis centenários se orgulham de usar a mesma garrafa há décadas. E mesmo os puristas, como o especialista Edmundo Furtado, admitem, no máximo, uma parte de Noilly Prat para duas partes do gin da preferência do freguês. Façam as contas.

Armando de Arruda Camargo Filho era completamente exagerado. Em tudo. Principalmente em generosidade. Primo, quantas janelas tinha a casa do seu sítio? Não sei, primo; sei que quando da obra, tirei meia dúzia de marcenarias da concordata.

Em Paraty foi na mesma proporção. Chamou Mario Jurado e entregou as chaves, como naquele reclame dos anos 1980 que recomendava o mesmo ao Henri Matarazzo. Wall Paper daria na capa aquela casa que infelizmente só vi em fotos.

Quem conheceu a sede da corretora na rua Hungria até hoje se emociona de saudades. No final dos trabalhos, pouco antes das seis da tarde, os amigos começavam a se reunir. Primeiro na sala dele, então escalavam para a de reuniões, até que decidiam, entre garçons amigos e uma das melhores coleções de arte da cidade, se rolavam para Padock, Baiuca, Plano’s, Pandoro.

Sei lá quantas línguas Armandinho falava. Mas eram muitas. Em Busca do Tempo Perdido, leu e releu no original. Mas não se exibia. No bar, preferia reclamar do Silvio Santos quando o horário do Chaves mudava sem aviso prévio.

Havia algum tempo afastado do trabalho, mas seguia notado pela experiência. Um dia foi convidado para almoçar e ver se dava pé num cargo novo. Julinho de Toledo Piza e eu fomos esperar a notícia no São Pedro São Paulo. Armando chega e Julinho está ansioso. E o Armando: não deu, Julinho. Mas o que foi, Armando? Ora, há tantos anos afastado e querem levar meu passe assim, no bico? Recusei.

Craque de bola, jogou no lendário time do Pinheiros que reunia Mulata, Alemão, Esquerdinha etc. Quando a idade chegou, dedicou-se à sinuca. E com vigor. Poucos eram páreo para ele, que retribuía o dom incentivando o esporte. Talvez seja o único caso de alguém que foi manchete no Estadão em dois cadernos na mesma edição, esportes e economia.

Quando emagreci, me convidou para uma feijoada no Mercearia. Passamos a tarde toda. Então cruzamos a Nove de Julho até seu apartamento na Pedroso. Ele abre o guarda-roupas, tira três costumes de linho feitos sob medida e manda eu experimentar. Um cru, um azul e outro branco. Vestiram como se feitos para mim. E ele era a cara da alegria. Emendou: são seus. Foi um verão e tanto dentro das roupas do Armandinho.

Tinha algo de Roniquito de Chevallier. Educadíssimo mas achando piada em fingir que não. Nosso primeiro papo foi no Mulata, meu finado restaurante na Barra do Una. Me chamou para a mesa onde estava com Teca; conversa vai, conversa vem, e ele era pai da Fezuca e do Daniel, amigos de tantos anos. Depois conheci Mariana. E Loro, seu irmão tão querido. Também adorava contar as histórias do Bolão. E da tia ministra Esther de Figueiredo Ferraz, é claro.

Para explicar a história da educação profunda, que ele fingia não ter mas era mais forte do que ele, ainda nesse dia, lá no Mulata, alguém pediu a direção do banheiro e eu, displicente, apontei. E ele: não aponta! Não aponta! Armando acreditava que a Língua estava aí para que a gente pudesse prescindir de gestos, notadamente os vulgares.

Mais recentemente, já completamente pioso, arranjou uma provocação nova. Só queria saber do Itaim Bibi e fazia campanha para o Trump. Trocava e-mails com a campanha. Comprava decalques, camisetas, meias com a cara do louco estampada, broches. E montava banca nos botecos do Itaim, como se por lá eleitores houvessem.

De altos e baixos em tudo, inclusive ou principalmente no humor e nos modos, podia ser vários Armandos. Há mais ou menos um ano almoçamos num restaurante seu vizinho, com Helito Bastos e João Paulo Zumbi Arruda. Papo altíssimo, gostoso de acompanhar. Por outro lado, quando um bocó se juntava, Armando simplesmente latia. E com ferocidade.

Falei com ele pelo telefone na sexta-feira. Tristíssimo pela partida do Julinho, que ele fazia questão de presentear transmitindo velhos troféus recebidos em vida com o título “amigo dos amigos”.

Nesta manhã, Fezuca me ligou com a notícia: seu pai dormiu ontem e não acordou hoje. Descansou o Armandinho, em sono de criança, peralta, vá lá, mas criança como sempre foi, no melhor dos sentidos. Creio que deu tempo de pegar o mesmo voo do Julinho, para chegarem juntos à mesa de outros tantos amigos que estão lá em cima, brindando por nós. E no céu não há de faltar Noilly Prat jamais.

Valeu, Primo!

* Receita contra ressaca do Armando de Arruda Camargo: abacate e sorvete de creme batidos e cobertos, já na cumbuca, por uma dose de conhaque. Gordura, glicose e um chorinho para rebater. Sabia de tudo.

 
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